Escuta revela conversa de Dantas e Braz sobre delegado

Uma das principais provas da Justiça contra o banqueiro Daniel Dantas é uma conversa mantida pelo controlador do Grupo Opportunity com o executivo Humberto José da Rocha Braz, um dos dois homens acusados de oferecer US$ 1 milhão ao delegado federal Vítor Hugo Rodrigues Alves Ferreira.

Agência Estado |

Eram 15h43 do dia 29 de abril quando o próprio banqueiro telefonou para o homem apontado pela Polícia Federal (PF) como o responsável pelas ações de espionagem do grupo.

Dantas menciona o que, segundo a PF, seriam os nomes de duas outras pessoas envolvidas na tarefa de buscar uma aproximação com o coordenador da Operação Satiagraha.

A operação começava a ser gestada na Delegacia de Repressão a Crimes Financeiros da Superintendência da PF em São Paulo. Uma dessas pessoas é tratada como Chico e a outra como Aline - a PF tenta identificá-los.

Dantas menciona uma discussão no grupo sobre o assunto - três dias antes, a investigação sigilosa contra o banqueiro havia sido noticiada pelo jornal Folha de S.Paulo . Seu grupo tentava descobrir, conforme mostram as escutas, quem estava conduzindo a apuração e onde estava sendo feito o inquérito. Queriam ter acesso às provas e saber o alcance da investigação.

Banqueiro indiciado

O banqueiro Daniel Dantas e mais nove pessoas ligadas ao Grupo Opportunity foram indiciados, na última sexta-feira, por formação de quadrilha e gestão fraudulenta, segundo o advogado Nélio Machado.

O indiciamento foi feito pelo delegado Protógenes Queiroz, que, após a saída, do banqueiro leu uma carta onde diz que deixa o caso "cumprindo determinação" do presidente Lula.

Para o advogado do banqueiro, o indiciamento não é válido e que "formação de quadrilha não é nada". Dantas prestou depoimento na sede da Polícia Federal em São Paulo e deixou o prédio por volta das 19h50. Este foi o terceiro depoimento do banqueiro. 

Dantas deixou a Polícia Federal acompanhado de seus advogados e não falou com a imprensa. Ele chegou ao prédio por volta das 14h20, com vinte minutos de atraso já que o depoimento estava marcado para às 14h.

De acordo com uma nota divulgada pela PF, as pessoas que prestaram depoimento nesta sexta foram: Verônica Valente Dantas (esposa de Daniel Dantas), Carlos Bernardo Torres Rodenburg, Itamar Benigno Filho, Norberto Aguiar Tomaz, Arthur Joaquim de Carvalho, Eduardo Penido Monteiro, Maria Amália Delfim de Melo Coutrim, Dório Ferman, Danielle Silbergleid Ninio. Todas elas fazem parte do Grupo Opportunity.

O indiciamento é o ato final do trabalho do policial. Depois que o relatório é finalizado, ele é analisado pelo Ministério Público Federal, que decide se apresenta ou não denúncia à Justiça Federal.

"Todo poder emana do povo"

Após Dantas deixar o prédio da PF, ainda na noite desta sexta-feira, Protógenes Queiroz entregou o relatório final do inquérito aos seus superiores. Ao fazer o anúncio, o delegado apenas leu um documento e não respondeu a perguntas dos jornalistas.

No documento, Protógenes faz agradecimentos aos juízes Fausto de Sanctis, da 6ª Vara Criminal Federal, e Marcio Rached Milani, da 7ª Vara Federal Criminal, aos procuradores públicos Rodrigo de Grandis e Ana Mara, a delegados federais que atuaram no caso, ao ex-diretor geral da Polícia Federal Paulo Lacerda e ao atual Luiz Fernando Corrêa, e aos superintendentes da PF no Rio de Janeiro e São Paulo.

Ao ler o documento, Protógenes disse que estava "cumprindo determinação" do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e de seus superiores. Afirmou ainda que estava apresentando hoje "nossa singela contribuição na condução da Operação Satiagraha".

Sem esclarecer o motivo de seu afastamento das investigações, o delegado  também fez um agradecimento especial "aos policiais federais abnegados, que cumpriram seu dever profissional".

Protógenes encerrou a leitura do documento citando a frase da Constituição que o jurista e advogado Sobral Pinto abriu o seu discurso no comício das Diretas Já: "Todo poder emana do povo e em seu nome é exercido".

Confusão no afastamento do caso

AE
Protógenes Queiroz comandou investigações
Em uma reunião no dia 14 de julho, o delegado Queiroz teria exposto sua situação com o curso e dito que poderia cuidar dos inquéritos policiais aos sábados e domingos, idéia que não teria sido acatada pelos outros diretores pois a tal procedimento quebraria, entre outras, a regra de dedicação exclusiva exigida de todos os participantes na fase presencial.

Na quinta-feira, a Polícia Federal divulgou gravações da reunião entre o delegado Protógenes Queiroz e seus superiores, na qual teria se decidido pelo afastamento do delegado do caso.

Porém, os áudios, alguns editados e com trechos inaudíveis, não esclarecem se houve pressão da cúpula da PF ou se Protógenes deixou clara sua opção pessoal para desistir do caso. (Leia a transcrição e ouça os áudios aqui )

Conforme a Polícia Federal, ao final do curso Protégenes Queiroz pode reassumir o comando das investigações.

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