Um projeto do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) está ajudando quatro escolas de samba da zona norte de São Paulo a expandir seus potenciais para além da festa de carnaval. O SP Samba oferece consultorias, cursos e orientação para que as agremiações possam manter atividades durante todo o ano e, assim, aumentar suas receitas.

Segundo a gestora do projeto SP Samba, Camila Patricio, o resultado é incontestável. "No início, era tudo mais precário. As escolas hoje ganharam destaque na mídia, diversificaram seu público frequentador e ampliaram as fontes de renda, inclusive para o carnaval", afirma. As escolas que participam atualmente do projeto são Mocidade Alegre, Rosas de Ouro, Unidos do Peruche e Unidos de Vila Maria.

O trabalho vem se desenvolvendo desde 2003. A gestora do projeto diz que o Sebrae não quer "inventar nada", apenas complementar o trabalho e ajudar as escolas a terem novas ideias de negócios. "Já que as pessoas envolvidas nas escolas gostam de carnaval, então elas têm que trabalhar esse potencial", afirma. "Os meses de envolvimento com o desfile são insuficientes para essas pessoas em termos de emprego."

A Mocidade Alegre foi uma escola que montou toda uma infraestrutura para receber estrangeiros, brasileiros de outras cidades e visitantes de outros bairros da capital paulista. Orientada por técnicos do Sebrae, a escola construiu dez camarotes em sua quadra, que são alugados para empresas da cidade e turistas, reformou banheiros e deu acesso a deficientes físicos. A Mocidade treinou um grupo para receber os convidados e contratou dois tradutores, um que fala espanhol e o outro, inglês, que inclusive buscam os turistas no hotel para levá-los ao ensaio.

Camila explica que o projeto iniciou com ênfase na criação de produtos com a marca da escola participante e recepção ao turista. Consultores do Sebrae fizeram visitas técnicas às quadras para apontar as necessidades dos turistas e parcerias que poderiam ser feitas, cursos esclareceram noções de marketing e gestão aos diretores e oficinas ensinaram aos trabalhadores como lidar com os visitantes. Tudo, destaca, gratuito. "Essas ações viabilizaram várias parcerias com hotéis e agências de viagens, gerando muitos empregos", diz. O projeto não envolve financiamento do Sebrae, mas suporte para que as escolas saibam direcionar e tirar maior proveito de seus investimentos.

O foco na infraestrutura para receber mais turistas, que beneficiou a Mocidade, começou no ano passado. Já neste ano os olhares estarão voltados à qualificação dos profissionais, "para capacitar ainda mais essas pessoas na recepção dos turistas". A secretária da presidência da Mocidade e diretora de eventos, Roseli dos Santos, afirma que não há como quantificar o efeito das mudanças após a adesão ao Projeto SP Samba, mas não tem dúvidas de que o impacto foi muito positivo. Segundo ela, o número de visitantes teve aumento "considerável", a qualidade do atendimento avançou e houve uma diversificação dos parceiros. "No começo do mês, 40 americanos vieram para o ensaio e, para a semana que vem, já temos reservado um camarote para mais 30 turistas dos Estados Unidos; e uma empresa também reservou um dia para trazer 130 funcionários", afirma Roseli.

Antes, conta, a escola não sabia como explorar esse potencial. "Geralmente na sexta-feira, os turistas que estavam em São Paulo para convenções, por exemplo, saíam da cidade e iam para o Rio, para a Bahia. Queríamos trazer esses turistas para a escola." Agora eles são recebidos na Mocidade com uma programação já montada, com rodas de samba, acompanhamento do ensaio da bateria na rua e visita à sala de troféus.

Roseli destaca ainda que os benefícios profissionais proporcionados pelas mudanças à comunidade da escola, do bairro Casa Verde, são mais importantes em um momento como o atual, em que aumenta o desemprego no País. De acordo com ela, os cursos oferecidos na escola em parceria com o Sebrae atendem uma média de 300 pessoas por semana. Lá, elas aprendem a trabalhar como cabeleireiro, tocar instrumentos, fazer cursos de línguas e também praticam esportes. "Tudo isso prepara a comunidade para o mercado", diz.

A Rosas de Ouro, fundada na Freguesia do Ó, participa desde o início do SP Samba. A diretora de projeto social, Vanessa Dias, classifica o projeto como uma iniciativa "muito inteligente". "O projeto nos ajudou a clarear mais nossas ideias, a pensar em buscar parcerias para que tenhamos reconhecimento", afirma. Também sem uma estatística fechada, ela diz que "é evidente" o aumento no número de turistas nos eventos da Rosas. "Hoje, de 5 mil presentes no ensaio, posso afirmar que 3 mil são turistas."

Vanessa afirma que muita coisa mudou para que os visitantes fossem bem recebidos. Ela destaca um programa para atestar a qualidade dos alimentos vendidos tanto dentro da escola quanto nas barracas de rua ao redor da quadra. Segundo ela, todos os pontos-de-venda de comida agora passam por inspeções e, se aprovados, recebem um selo que indica que os alimentos são seguros para o consumo. Segundo ela, as ações acabam ajudando também a comunidade. "Há pessoas que conseguem emprego (com o aprendizado nos cursos). A gente contribui, e o morador do bairro fica mais preparado para o mercado de trabalho."

Na Unidos do Peruche, o processo é mais lento. De acordo com o diretor social da escola, Valdir Romero, mesmo que "devagar", mudanças estão sendo realizadas. Ele destaca reformas no sistema de som da quadra, treinamento de moradores do bairro para receber turistas e até butiques que vendem camisetas, agasalhos e todo tipo de produtos da Peruche.

Copa de 2014

Mas Romero diz que ainda há muito por fazer para dar um atendimento de primeira aos visitantes. De acordo com ele, ainda são necessárias reformas na quadra, no bar e a construção de camarotes, por exemplo. Mesmo assim, os planos são ambiciosos, diz. Um deles é montar um restaurante-escola de padrão internacional, projeto que tem como alvo principal os turistas da Copa do Mundo no Brasil em 2014. "Mas isso ainda só está no namoro", afirma.

Porém, mais do que o crescimento do fluxo de visitantes e, consequentemente, o dinheiro que entra na agremiação, Romero destaca o impacto social dos projetos tocados pela Peruche, muitos em parceria com o Sebrae, dentro do SP Samba. Ele vê a escola e o samba como um importante meio para a formação de cidadania na comunidade. "O samba é uma grande plataforma de formação de cidadania." Para ele, o grande trunfo é a ampliação da influência da escola no bairro, antes restrita à época do carnaval. "É importante trazer as pessoas para curtir a escola como espaço de cultura e formação."

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