Escândalo e futebol levam fama a agreste alagoano

Arapiraca ficou conhecida por importante vitória na Copa do Brasil, em 2002, e pelos recentes casos de pedofilia envolvendo padres

Matheus Pichonelli, enviado a Arapiraca |

Um feito e um escândalo colocaram Arapiraca, município de 210.52 habitantes do agreste alagoano, no foco das conversas de qualquer esquina do País em menos de oito anos. O feito foi obtido em 2002, quando o time da cidade, o ASA de Arapiraca, eliminou o Palmeiras de Marcos, Alex e Luxemburgo da Copa do Brasil daquele ano – ainda na edição de 2010 da competição a equipe por pouco não protagonizou novo feito, mas acabou eliminada da competição pelo Vasco da Gama, mesmo após empate no jogo em Alagoas. Ainda hoje os palmeirenses não podem ouvir falar no nome da cidade – e é motivo de galhofa por torcedores de times rivais.

O escândalo envolvendo padres e uma suposta rede de pedofilia na região conseguiu alçar o nome da cidade a lugares ainda mais distantes. Diante das revelações, até o Vaticano reconheceu problemas envolvendo autoridades eclesiásticas da região. A história está na boca do povo. Já na chegada a Maceió, a 120 km do epicentro do escândalo, o taxista avisa: “Ih, rapaz, você vai pra Arapiraca? A terra dos padres, né? Lá a coisa tá é feia”.

“Tudo isso que aconteceu foi péssimo para a imagem da cidade”, diz Claudemir Alves dos Santos, de 49 anos, o “Jorge da Farmácia”, um dos comerciantes mais conhecidos do bairro onde aconteceu o escândalo.

Arapiraca é a segunda maior cidade do Estado. Polo produtor de fumo, fica a poucos quilômetros do sertão nordestino. O caminho até o município é um corredor de fazendas de cana-de-açúcar, que o taxista diz pertencer a famílias de milionários da região.

Em ruas calcadas em paralelepípedos, sempre cobertos de terra e poeira, circulam um mototaxista em casa esquina. Cobram R$ 2 para deslocamentos curtos e R$ 3 para atravessar a cidade de sem prédios espalhada numa imensa mancha horizontal de 351quilômetros quadrados, de acordo com o IBGE.

Por R$ 5, é possível que o mototaxista aceite levar o cliente até a lua. Segundo dados mais recentes da prefeitura local, Arapiraca possui uma frota de 44 mil veículos, dos quais metade é de motocicletas. O serviço de moto-táxi conta com pelo menos 600 profissionais cadastrados. As motocicletas cortam as ruas a todo instante, surgem de todos os lados junto com cachoças puxadas por jegue e, numa cidade em que placas e sinalizações são tão raras quanto a neve, fazem qualquer paulistano sentir saudade da “civilidade” do trânsito de São Paulo.

Na cidade, o índice de pobreza atinge cerca de 60% da população, de acordo com o Mapa da Pobreza e Desigualdade dos municípios brasileiros de 2003.

Hoje, porém, é possível perceber a revolução provocada pela chegada da internet à cidade: quem não tem computador com conexão em casa costuma pagar R$ 1 a hora para utilizar máquinas em Lan Houses que se espalham por quase todos os bairros. É de onde os jovens acessam jogos, programas de mensagens instantâneas e sites de redes de relacionamento. A fonte de renda, para muitos, é a venda de Cds e DVDs piratas – muitos vendidos em carrocinhas, como as de picolé, que circulam em alto e bom som mesmo durante feriados. Forró é o som mais ouvido na cidade, que, muito de vez em quando, vai de techno para embalar reuniões de amigos para uma cerveja. Entre os populares, qualquer começo de conversa já é motivo para convites para a próxima festa, um café ou uma cerveja com os novos amigos “de lá do Sudeste”.

Às 7h, o sol já castiga operários que trabalham nas inúmeras construções que se espalham em praticamente cada quarteirão de Arapiraca. Na última quinta-feira, mal surgiram os primeiros raios de sol e a temperatura já se aproximava dos 30 C. Não choveu em nenhum dia da semana da visita.

À beira da estrada, no km 6 da rodovia AL-220, o Hotel Sol Nascente se tornou, nos últimos dias, o ponto de encontro entre personagens do escândalo sexual que acometeu a igreja local. É por lá que circulam supostas vítimas, emissários e advogados para transmitir as últimas informações sobre o caso. Segundo os funcionários, um dos párocos acusados gostava de tomar café, aos finais de semana, no local. As iguarias, aliás, são singulares e servidas logo às 6h: suco de graviola e goiaba, cuscuz, queijo coalho, carne de sol, manteiga e mandioca – que, aliás, só é conhecida por esses lados como macaxeira.

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