Escândalo afetou doação de órgãos no Rio de Janeiro

Em agosto de 2008, uma operação da Polícia Federal identificou que as principais lideranças da captação de órgãos e realização de transplante do Estado fluminense fraudavam o sistema. Um lugar na fila de espera de um fígado era vendido por até R$ 250 mil. O crime ¿ que fere o código ético do transplante por afetar a vida dos mais de 60 mil pacientes que aguardam um órgão para sobreviver ¿ resultou na prisão de médicos e abalou o sistema de doação do Estado. As consequências da descoberta da máfia do transplante do Rio de Janeiro aparecem nos dados divulgados esta semana pela Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO).

Fernanda Aranda, iG São Paulo |

Apesar de ser um dos Estados mais populosos do País e de ter uma rede de saúde mais estruturada do que a média nacional, o Rio amargou no ano passado uma das mais baixas taxas de doadores de órgãos do Brasil.

A média nacional ficou em 8,7 doadores por milhão de habitantes (a mais alta de toda a história), já no Rio a taxa ficou em 4,4. Para comparar, os vizinhos São Paulo e Santa Catarina registraram índices de 16,9 e de 19,8, respectivamente.

A coordenadora do Sistema Nacional de Transplante, Rosana Nothen, órgão ligado ao Ministério da Saúde, avalia que há relação entre o baixo desempenho do Rio de Janeiro e o escândalo de 2009. O Rio de Janeiro, a partir daquele episódio, sofreu uma ampla reformulação, com troca de gestão e recadastramento dos pacientes, explica Rosana. Desde então, o Estado caminha de uma maneira muito eficiente para a reorganização do sistema. Sendo assim, acredito que já nos dados deste ano vamos atestar um melhor desempenho do Estado, diz.

Confiança no sistema

O baixo índice do Rio é comparado ao desempenho ruim também de Alagoas (índice 1,3),  Bahia (3,8) e Maranhão (2,2), onde não há denúncias sobre fraude. O Ministério da Saúde reforça que hoje não há uma única denúncia sobre fraude na doação de órgãos.

Os especialistas em transplante afirmam que a confiança no sistema de saúde é peça chave para o aumento da doação de órgãos, que cresceu 26% na comparação entre 2008 e 2009 (foram 1.658 doadores efetivos no ano passado contra 1.317 no ano anterior).

Temos um arranque de dados muito importante. O desafio que ainda precisa ser superado é equalizar a distribuição de doadores pelo País. Ainda me entristece ver a Bahia e o Rio de Janeiro com números tão baixos, avalia Maria Cristina Ribeiro de Castro, médica do Hospital das Clínicas de São Paulo e do Conselho Consultivo da ABTO. É preciso não só melhor a credibilidade da população no sistema, como as gestões locais, completa.

Para a entidade a proposta de chegar à meta de 10 doadores por milhão de habitante ainda este ano só será alcançada se as gestões regionalizadas forem fortalecidas. Uma das formas encontradas para diminuir a desigualdade entre os Estados é implantar a residência médica em doação de órgãos. O Ministério da Saúde já entrou em contato com o Ministério da Educação para que a parceria chegue às universidades médicas de todo País.

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