Epilepsia na infância

Epilepsia na infância Por Paulo Breinis Cerca de 3,5 milhões de brasileiros têm epilepsia (2% da população). A maioria dos casos se inicia na infância, fato esse que se deve as características do cérebro imaturo e em desenvolvimento.

Agência Estado |

Estima-se que de 3% a 10% das crianças até 5 anos de idade tenham pelo menos uma crise convulsiva na vida.A epilepsia se caracteriza pela repetição das crises. É uma patologia freqüente e geralmente benigna, sua causa deve ser estudada com profundidade. Não deve ser confundida com a convulsão febril benigna da infância - extremamente comum em crianças normais entre 3 meses e 5 anos que apresentam crises convulsivas somente na vigência de febre por processos infecciosos como amidalite, otite, viroses etc.

A CÉLULA NERVOSA
Os neurônios são os principais componentes do cérebro. Eles se comunicam através de correntes elétricas. Quando existe uma atividade alterada e excessiva deste grupamento de células, estas podem produzir as chamadas descargas epilépticas, que induzem clinicamente à crise convulsiva.

A epilepsia se divide em dois grandes grupos. Há as crises epilépticas normalmente iniciadas em um lugar específico do cérebro, produzindo as crises focais. Elas podem ser breves e, geralmente, não alteram o nível de consciência. Nestes casos, o que a criança pode apresentar são alterações motoras, sensitivas, visuais, olfativas etc. Um importante alerta aos pais é estarem atentos a estes sintomas e a pequenos movimentos diferentes e repetitivos que possam ocorrer, pois a crise pode ser rápida, sutil e, eventualmente, passar despercebida.

Quando a criança é acometida pelo modelo mais estereotipado de crise - a crise generalizada - a identificação é mais simples. São as crises que vêm dos esféricos cerebrais e que são popularmente chamadas de "grande mal". Neste caso, a criança perde a consciência de maneira abrupta, cai, enrijece todo o corpo e apresenta abalos rítmicos dos quatro membros. Ainda pode haver emissão de urina e a respiração pode ser interrompida por alguns minutos. O término da crise é caracterizado por sonolência e confusão.

O médico especialista em epilepsia da criança é o neuropediatra. O diagnóstico é baseado na história clínica descrevendo detalhadamente o tipo de crise convulsiva observado e relatado pela família. Os exames complementares usados são, basicamente, o eletroencefalograma e a ressonância magnética de crânio. O tratamento começa com orientação pessoal e familiar sobre a patologia. A criança deve continuar levando sua vida normalmente. A escola tem de ser avisada, pois é onde as crianças passam grande parte do dia.

Aproximadamente 25% das crianças com epilepsia apresentam alguma dificuldade de aprendizado. Os exercícios físicos devem ser feitos habitualmente, com restrição somente aos esportes radicais e à natação, que deve ser praticada com supervisão individualizada.

De maneira geral, a criança deve adotar uma rotina de vida o mais saudável possível e a família deve ser orientada sobre os fatores que podem desencadear uma crise, como o estresse, a privação de sono, fotoestimulação, infecção (febre) etc.

Para cada tipo de epilepsia existe uma droga preferencial (de escolha) a ser indicada pelo médico. Iniciada a terapia, esta deve ser administrada por um período de, no mínimo, dois anos, e, em alguns casos, por toda a vida. Em cerca de 70% dos casos, é possível obter o controle efetivo das crises com uma única medicação. O ideal é que a droga apresente os menores efeitos adversos e que assegure maior eficácia ao tratamento. Quando não se obtém o controle desejado, a medicação deve ser trocada ou usada em associação com outra droga anticonvulsivante.

Há ainda as epilepsias de difícil controle, nas quais mesmo usando várias drogas associadas não se consegue controle efetivo. Neste caso, devemos considerar a possibilidade de uma neurocirurgia, que deve ser indicada somente após extensa investigação neurofisiológica, neurorradiológica e neuropsicológica. O objetivo do procedimento cirúrgico é ressecar ao máximo a zona epileptogênica e preservar o Córtex circunvizinho, permitindo o melhor controle das crises convulsivas com um mínimo prejuízo para a criança.


O estudo da epileptologia infantil sofreu enormes progressos nos últimos anos em todos os campos: clínico, neurológico, radiológico, neurofisiológico, psicológico, farmacológico e cirúrgico, ampliando cada vez mais o leque de possibilidades de cura ou a excelência máxima em qualidade de vida para os casos crônicos.


*Dr. Paulo Breinis é neuropediatra, médico-chefe do setor de Neurologia Infantil do Hospital São Luiz, do Hospital da Criança e do Hospital Santa Isabel.

**O conteúdo dos artigos médicos é de responsabilidade exclusiva dos autores.

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG