Experiência em Santa Catarina mostra que a busca por lugar seguro eleva preço de lotes e aluguéis e incentiva verticalização

Atingidas pelas chuvas que arrasaram a região serrana do Rio de Janeiro no começo do mês, famílias que tiveram de deixar suas casas em meio à maior catástrofe natural da história do País devem se deparar, a partir de agora, com o mesmo fenômeno enfrentado em Santa Catarina após as tempestades de novembro de 2008: a dificuldade para encontrar um novo lar.

Moradores retiram móveis de áreas de risco em Blumenau, em 2008
AE
Moradores retiram móveis de áreas de risco em Blumenau, em 2008
Com a retirada das famílias das áreas de risco, a busca por (raros) locais seguros – longe de rios e encostas – e com o mercado inflacionado pela liberação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), a tendência, segundo especialistas, é que os preços dos lotes para as novas construções e dos aluguéis disparem no momento seguinte da catástrofe.

Foi o que aconteceu em Blumenau (SC), epicentro da catástrofe que deixou 135 mortos e quase 800 desabrigados, há pouco mais de dois anos, no Vale do Itajaí. Com as áreas de risco arrasadas, a procura por locais seguros fez com o município enfrentasse uma especulação imobiliária que elevou em 25%, em média, o valor dos lotes e aluguéis da região – em alguns casos, o aumento chegava a 50%.

O resultado, dois anos depois, foi a migração de boa parte da população para as cidades menores vizinhas de Blumenau e uma crescente verticalização da região, segundo Rogério Patrício, presidente Secovi (o sindicato da habitação) de Blumenau.

“Tivemos em Blumenau, em 2008, uma valorização dos lotes urbanos que não foram afetados, até porque não havia lançamento de novos lotes em razão das exigências ambientais que ficaram cada vez mais intensificadas na cidade e no entorno”, explica Patrício.

Uma das cidades que passaram a absorver antigos moradores de Blumenau foi Indaial, município de 54 mil habitantes do interior catarinense. Na localidade, segundo Patrício, a cada dois lotes vendidos, um era comprado por famílias de Blumenau. O movimento foi observado logo que os moradores receberam o FGTS e puderam financiar a compra de terreno para edificar a casa própria em cidades onde o preço dos imóveis era mais acessível.

Em março do ano seguinte da tragédia, 142 mil pessoas conseguiram sacar ao todo R$ 447,1 milhões do fundo de garantia liberado pelo governo. O município de Blumenau possui 309 mil habitantes.

Depois da tragédia, o município promoveu um novo planejamento urbano para incentivar o crescimento populacional em direção às zonas norte e oeste, que são mais planas e não haviam sido afetadas pelas tempestades. Em compensação, lembra o dirigente, os imóveis atingidos, sobretudo os que ficavam em áreas de preservação permanente, ficaram inabitáveis.

Outro resultado da catástrofe, segundo o presidente do Secovi de Blumenau, foi a aceleração do processo de verticalização da região. “Hoje existem muitos prédios nessas cidades”, diz Patrício, para quem esse movimento também deve ser observado na região serrana do Rio a partir de agora, sobretudo com a ajuda de programas como o Minha Casa, Minha Vida. A catástrofe nas cidades fluminense deixou mais de 750 mortos, 7.780 desalojados, 6.050 desabrigados e mais de 400 pessoas desaparecidas.

Segundo o dirigente, embora, no ano passado, cerca de 1.000 apartamentos tenham sido entregues em Blumenau para as famílias atingidas, ainda há muitos moradores que dependem de programas públicos de aluguel social ou que ainda vivem na casa de amigos ou parentes. Os abrigos provisórios, no entanto, foram sendo desmontando ao longo dos últimos dois anos.

De acordo com o vice-presidente do Secovi-Rio, Leonardo Schneider, ainda é cedo para avaliar como vai ficar a questão imobiliária após a tragédia. Segundo o dirigente, tudo dependerá de como os órgãos municipais, estaduais e federais vão responder à catástrofe, com programas sociais e liberação de crédito. “Essas ações é que vão balizar o mercado”, avalia.

Schneider afirma que, na região mais afetada, os negócios devem ser paralisados por pelo menos dois meses, até que as vias que ligam a região estejam restabelecidas. A tendência, diz, é que, assim como em santa Catarina, aumente a procura por imóveis nas áreas mais baixas, com menos risco e longe de rios. “Na hora da venda, o corretor vai dizer: ‘olha, a casa fica longe do rio, longa da encosta’. Isso vai ser um atrativo”.

Em Teresópolis, uma das cidades mais atingidas pelas chuvas, profissionais do setor ouvidos pelo iG prevêem que os prejuízos nas áreas mais afetadas devam levar pelo menos seis meses até que a situação volte ao normal . Enquanto isso, a expectativa é que o aluguel em áreas seguras seja reajustado em até 50% com o aumento da procura.

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