Por Roberto Samora SÃO PAULO (Reuters) - O setor de suco de laranja do Brasil, que gera divisas de aproximadamente 2 bilhões de dólares ao país anualmente, foi atingido pela crise internacional no momento em que os estoques estão elevados, os preços baixos e a demanda está reduzida.

Mas no médio prazo esse menor valor do produto e a continuidade do ganho de renda em países emergentes, após a passagem da turbulência financeira, devem trazer de volta a demanda pelo suco de laranja, avaliou um executivo da Louis Dreyfus Commodities, subsidiária brasileira do grupo francês Louis Dreyfus.

O suco de laranja congelado e concentrado (FCOJ, na sigla em inglês,) em Nova York está cotado a 68 centavos de dólar por libra-peso, exatamente a metade do valor registrado na mesma época do ano passado e bem baixo do recorde acima de 2 dólares no final de 2006, após furacões terem afetado os pomares da Flórida em 2004 e 2005.

"Esses preços baixos vão trazer uma parte da demanda de volta? Se acontecer isso, começa a ter uma reação de preços", declarou à Reuters Henrique Freitas, diretor-executivo de Citrus da Louis Dreyfus Commodities, que tem um plano de investimentos até 2012 de 550 milhões de reais no Brasil, em fábricas, logística e pomares.

A empresa possui três unidades de produção de suco no Brasil e uma na Flórida, com capacidade anual de processamento de 90 milhões de caixas de laranjas.

Freitas, entretanto, disse que a crise trouxe uma "incógnita" para o suco, sobre quanto tempo levará para a demanda mundial e os preços se recuperarem.

Mesmo assim, o executivo afirmou que o mercado do suco de laranja, dominado internacionalmente pelas indústrias brasileiras, que respondem por 80 por cento das exportações mundiais do produto, continua tendo grande potencial no futuro.

Ele citou que a tendência é a substituição de refrigerantes por bebidas naturais mais saudáveis. E isso fica mais claro, segundo ele, porque empresas como a Pepsi e a Coca Cola estão investindo no setor no Leste Europeu.

"No médio prazo, deverá haver um ganho de renda em países mais pobres, América Latina, Índia e Leste Europeu, e ganhando renda você tem acesso, sai de refrigerante para sucos."

NEM SAFRA MENOR AJUDA PREÇO

No entanto, não é o que tem acontecido nesses tempos mais bicudos.

Quando o suco de laranja atingiu preços próximos dos mais elevados da história, entre 2006 e 2007, isso acabou promovendo uma migração de consumo para outras bebidas mais baratas.

"Com queda de demanda nos EUA e na Europa --na Europa por causa de preço (alto em anos recentes) e nos EUA por causa de preço e um pouco de tendência, pelo aparecimento de outras bebidas e sucos no mundo--... o setor foi acumulando estoques", admitiu Freitas.

Dados da ACNielsen citados por Freiras apontam que "é algo entre 25 e 30 por cento o que se perdeu de demanda nos últimos oito anos nos Estados Unidos, o maior mercado do mundo".

A situação ficou de um jeito que nem safras menores de laranja nos grandes produtores São Paulo e Flórida têm conseguido mexer nos preços ultimamente.

"E isso foi pesando, apesar de safras menores, o consumo menor, aquele estoque antes curto, ficou pesado. Então isso derrubou bolsas, perdeu-se quase 50 por cento em 2008 na bolsa."

A próxima safra de São Paulo, maior produtor mundial, deve ser tão menor quanto foi a anterior, em relação à boa produção de 2007, observou Freitas, e a da Flórida em 2008/09 também está estimada abaixo da verificada em 2007, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

"Em 2009, o que está pintando é que não deve ter recuperação (na safra). Podemos ter uma safra pequena de novo", comentou o executivo, sem dar números, sobre a produção esperada para este ano em São Paulo, lembrando que a seca voltou atingir as floradas no final de 2008, o mesmo fenômeno ocorrido em 2007.

Analistas apontam a safra paulista 2008/09, em fim de colheita, em 310 milhões de caixas de 40,8 kg, bem abaixo do número oficial de 360 milhões de caixas, contra 368 milhões em 2007/08 (ano industrial, de julho a junho).

"Tivemos uma safra baixa, o mercado fala em 310 milhões. Ninguém acredita em 360. Se não temos uma safra não tão grande aqui, e os EUA também estão caindo, o preço do suco pelo menos deveria apontar para cima, e nada disso está acontecendo", avaliou recentemente Maurício Mendes, da consultoria AgraFNP.

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