ENTREVISTA-Crise elevará peso do BNDES como financiador em 2009

Por Renato Andrade SÃO PAULO (Reuters) - A pressão sobre o BNDES para manter um vultoso programa de desembolsos deve elevar ainda mais a participação do banco como financiador de investimentos no país em 2009, mas o presidente da instituição quer construir uma parceria com o setor privado para dividir o fardo.

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O volume de financiamentos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social deve atingir 110 bilhões de reais este ano, afirmou Luciano Coutinho em entrevista à Reuters. O valor foi calculado considerando o atual estoque de projetos aprovados e em fase de contratação, o que reflete a contínua demanda por recursos do banco, diante da retração do mercado de capitais, e a esperada manutenção dos investimentos em infra-estrutura.

O movimento tende a fazer com que o BNDES responda por até 40 por cento dos financiamentos de projetos de formação de capital fixo da indústria e da infra-estrutura, contra uma participação histórica de algo como 20 a 25 por cento, explicou o executivo.

"Nós esperamos que ainda nos primeiros meses de 2009 a pressão sobre recursos do BNDES permanecerá extraordinariamente maior do que em circunstâncias normais", afirmou Coutinho na representação do banco em São Paulo.

Em 2008, o BNDES desembolsou um valor recorde de 91,5 bilhões de reais, o que representou um aumento de 41 por cento sobre o valor financiado em 2007.

"Não há nenhuma instituição financeira que tenha crescido tanto o seu desembolso. É um número realmente extraordinário", afirmou Coutinho, acrescentando que houve uma forte aceleração nos últimos quatro meses de 2008, reflexo da crise de crédito mundial que praticamente congelou as operações privadas.

Para evitar uma pressão contínua sobre o banco, Coutinho pretende trabalhar com o setor privado na estruturação de fundos de investimentos em infra-estrutura e petróleo e gás.

A idéia é fazer roadshows para atrair tanto interessados em investimentos diretos em rodovias, ferrovias e projetos do setor elétrico, com também em aplicação em fundos.

"Existem bolsões de poupança no mundo muito relevantes que estarão carentes de alternativas de investimento de alta qualidade. Se eles querem um verdadeiro 'flight to quality', no sentido de ter retorno físico real... venham para o Brasil", disse Coutinho, em referência a fundos soberanos como os de Dubai e Abu Dhabi.

RECURSOS EXTERNOS

Apesar da pressão, Coutinho deixou claro que não faltará recursos. Para atender essa demanda, o BNDES contará com fontes de financiamento internacional, além do tradicional aporte do governo e do retorno de sua carteira de crédito, que traz aos cofres do banco uma média anual de 50 bilhões de reais.

"Uma parcela importante das novas fontes virá do aumento da participação das instituições multilaterais... vamos receber um empréstimo relevante do Banco Mundial, depois de mais de 15 anos de afastamento", antecipou.

Segundo ele, o BNDES negocia um empréstimo de 2 bilhões de dólares com a instituição multilateral. Além disso, o banco já fechou um empréstimo de 1 bilhão de dólares com o BID e outros 250 milhões de dólares com os bancos Tóquio-Mitsubishi UFJ e o

JBIC.

A possibilidade de uma emissão externa do próprio BNDES, como feita no primeiro semestre de 2008, também não está descartada.

"Na hora em que baixar um pouco a poeira e ficar claro que a economia brasileira tem condições diferenciadas nesse quadro... pode ser que as condições permitam que a gente enderece (o mercado internacional), mais isso ainda é algo a ser examinado", disse.

AMÉRICAS

Coutinho também mostrou-se confiante, ainda que cauteloso, sobre a possibilidade de manutenção das operações de crédito do banco em países da América do Sul em uma clima de normalidade.

No final do ano passado, o presidente do Equador, Rafael Correa, ameaçou um calote em parcela da dívida contratada com o banco de fomento brasileiro. Apesar de ter submetido o débito a uma arbitragem internacional, o governo de Quito autorizou no início de dezembro o pagamento da dívida.

"Se o Equador respeitar minimamente as regras, eu não vejo nenhum problema sério, principalmente se respeitar as regras do Convênio de Crédito Recíproco (CCR), que é um mecanismo importante de mitigação de risco para as operações do BNDES e outras operações na América do Sul", afirmou.

O banco brasileiro mantém operações em alguns países da região, como Paraguai e Bolívia, mas em volume pequeno.

"No suposto que o CCR será preservado, nós esperamos que prevaleça a racionalidade e que você possa manter essas operações que são de interesse dos países".

(Edição de Alexandre Caverni)

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