Entenda o que são as micobactérias e como elas agem

RIO DE JANEIRO ¿ A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou nesta terça-feira que pretende limitar o número de procedimentos cirúrgicos que usam pequenas câmeras de vídeo introduzidas no paciente. No início deste mês, a Secretaria Estadual de Saúde do Espírito Santo suspendeu as cirurgias de lipoaspiração e lipoescultura em todas as clínicas e hospitais do Estado. Nesta semana, a presidência da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica do Rio de Janeiro determinou que todos os instrumentos usados há mais de cinco anos devem ser trocados. Medidas como essas vêm sendo tomadas em diferentes partes do Brasil e todas têm o mesmo objetivo: reduzir o número de casos de infecções pós-cirúrgicas por Micobactérias de Crescimento Rápido (MCR) no País.

Anderson Dezan, repórter do Último Segundo no Rio |

Segundo a Anvisa, o primeiro caso desse tipo de infecção registrado no Brasil ocorreu em 2001, no Pará. A partir desse ano, a doença se espalhou pelo País e atingiu seu ápice em 2007, com o registro de 851 casos, sendo 416 só no Rio de Janeiro.

De acordo com a agência, desde 2005, o órgão trabalha em conjunto com as vigilâncias sanitárias municipais e estaduais no intuito de fiscalizar e orientar médicos e hospitais. A Anvisa também conta com o Disque Saúde (0800-61-1997), do Ministério da Saúde, e com um e-mail ( ouvidoria@anvisa.gov.br ) para que as pessoas possam tirar suas dúvidas.

Neste ano, foram registrados até o momento, segundo levantamento do órgão, 76 casos da doença no Rio Grande do Sul, Goiás e Distrito Federal. Outros 153 registros estão sob investigação no Rio de Janeiro, Espírito Santo, Pará, Paraná e Rio Grande do Sul.

Para esclarecer as dúvidas dos internautas sobre esse assunto, o Último Segundo conversou com a médica Sylvia Leão, doutora em Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP). Confira as respostas.

O que é a micobactéria?

É uma bactéria como tantas outras que existem na natureza. A micobactéria é um gênero existente no grupo das bactérias. Elas são muito resistentes e podem ser encontradas em diferentes locais, como água, terra, alimentos e superfície de animais. Esses agentes podem ser divididos em dois grandes grupos: micobactérias tuberculosas e micobactérias não tuberculosas. As integrantes do primeiro grupo são muito patogênicas e causam doenças como a tuberculose e a hanseníase. No outro grupo existem 130 espécies diferentes que não são tão patogênicas. Elas podem ser de dois tipos: de crescimento lento e de crescimento rápido. Esse último tipo é o responsável pelas infecções pós-cirúrgicas que vêm acontecendo em diferentes regiões do País.

Quanto tempo a micobactéria de crescimento rápido demora para se manifestar?

Isso depende de alguns fatores, entre eles, da quantidade de bactérias que foi inoculada e da reação inflamatória que organismo irá apresentar. Todos esses fatores irão determinar o tempo que a bactéria vai levar para se manifestar. Em alguns casos, ela pode nem aparecer. Houve casos de pacientes que apresentaram reações uma semana após a inoculação. Outras pessoas só tiveram sintomas depois de um ano.

Como a micobactéria age no organismo?

As micobactérias se inoculam no tecido do corpo humano, onde encontram alimento e boa temperatura, ou seja, um ambiente propício para sua multiplicação. Se esses agentes não encontrarem nenhuma resistência, eles poderão se multiplicar e dar origem a uma reação inflamatória. O paciente poderá ter abscessos, vermelhidão, inchaço e pus.

Por que têm sido registrados esses casos de infecção com micobactérias?

Vários fatores têm determinado o aumento de casos de infecção com esses agentes. O principal motivo talvez seja o aumento do número de cirurgias invasivas que vêm sendo feitas nos últimos anos. Por causa desse crescimento, o protocolo de segurança para esses procedimentos tem mudado e se deteriorado. Como o número de cirurgias é grande, ocorrem falhas no procedimento de esterilização dos instrumentos que serão utilizados. Essas falhas podem ocorrer na escolha do agente de esterilização ou, até mesmo, na maneira como esse agente será usado.

Quais são os procedimentos de esterilização mais comuns?

A autoclave é uma das formas de esterilização mais usada. Nesse procedimento, os instrumentos que serão usados na cirurgia são colocados dentro de uma espécie de estufa de calor úmido, a uma temperatura de 120ºC, por meia hora. O calor úmido consegue matar as micobactérias, mas, no entanto, pode estragar determinados instrumentos, como alguns usados em lipoaspirações. Uma outra forma de esterilização é o uso de glutaraldeído, entretanto, o uso dessa substância química não tem se mostrado suficiente. Para que haja a limpeza correta, os instrumentos devem ficar imersos no glutaraldeído por, no mínimo, dez horas. Hoje, por causa da correria e do grande número de cirurgias, os hospitais deixam os instrumentos na substância por cerca de 30 minutos.

O paciente tem como saber se o instrumento que será utilizado na cirurgia foi esterilizado da forma correta?

Não. Nesses casos, as pessoas têm que confiar no médico responsável pela cirurgia. O paciente deve conhecer e acreditar no profissional para se sentir seguro.

Como evitar novos casos de micobactéria?

Desde 2005, estudos sobre micobactérias vêm sendo realizados no País. Há pelo menos dois anos, alguns médicos nem sabiam da existência desse agente e tratavam os pacientes infectados como se eles tivessem outra doença. Portanto, a melhor maneira de prevenir e evitar o surgimento de novos casos é informando. Se a população estiver informada vai poder fazer perguntas mais consistentes e procurar cirurgiões e hospitais mais adequados e melhor preparados.

Qual é a orientação para as pessoas que estão com cirurgias invasivas agendadas? Devem desmarcar?

A recomendação é que esses pacientes se informem sobre o tipo de material de esterilização que vai ser usado na cirurgia. É importante saber se o médico possui o preparo necessário para a realização do procedimento que será feito. Os pacientes devem se informar também se o hospital está dentro das normas estabelecidas pela Avisa.

A bactéria pode levar um tempo para se manifestar. Quem passou por uma cirurgia ou procedimento invasivo há menos de dois anos deve ser submetido a algum tipo de exame?

Só se apresentar algum sintoma. Nesses casos, a pessoa deve procurar um infectologista ou o próprio cirurgião. Se o paciente procurar a ajuda médica assim que houver a reação inflamatória o tratamento será mais rápido. Essa doença é muito difícil de tratar, é dolorida e as cicatrizes deixadas são muito feias. Hoje, o Ministério da Saúde já oferece gratuitamente medicamentos para o tratamento dessa doença, basta o paciente apresentar um documento que comprove a sua situação.

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