Enriquecimento das cidades do interior de SP descentraliza a violência, diz especialista

O aumento dos homicídios no interior do Estado São Paulo, conforme relatório divulgado pela Secretaria de Segurança Publica (SSP) de São Paulo, deve-se, principalmente, à falta de preparo da polícia para atuar nessas pequenas e médias cidades, que enriqueceram e se tornaram atraentes aos olhos da criminalidade. Essa é a visão do sociólogo estudioso do tema e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) Rogério Baptistini Mendes.

Lecticia Maggi, iG São Paulo |

Na capital e Grande São Paulo, os índices de homicídio caíram; enquanto no interior aumentaram 3,2%, passando de 521, em 2008, para 538 casos, em 2009. Para Mendes, a polícia ainda não se adaptou à nova realidade do interior.

Muitas empresas migraram para o interior e melhoraram o padrão de consumo dos moradores, mas levaram consigo também os problemas sociais derivados da modernidade, considera Mendes.

Outro ponto apontado por ele é o desemprego estrutural no campo, devido à industrialização dos processos. Isso faz com que a mão de obra não seja absorvida e aumenta a violência em todas as suas formas, aponta.

As drogas são outro ponto citado pelos especialistas como prováveis causas para o aumento da violência no Estado. Como um todo, o relatório aponta que 2009 teve uma piora generalizada nos índices de criminalidade. Os roubos, por exemplo, ficaram 18% acima de 2008.

O tráfico de drogas foi introduzido de forma muito forte em cidade médias e pequenas. O crack atingiu a maioria delas, afirma Mendes.

O professor e pesquisador da violência da Universidade Estadual de São Paulo (UNESP) José dos Reis Filho afirma que os estudos sobre a relação entre o aumento do consumo de drogas nas regiões mais afastadas da capital e a violência ainda são limitados, mas já é possível perceber o crescimento do tráfico. Vimos o recente aumento das pessoas presas e detidas na Fundação Casa (antiga Febem) por tráfico, diz.

Atuação da polícia

Divulgação
Aumentou apreensão de armas em 2009
Para Filho, o aumento da atividade policial em 2009 frente a 2008 diminui a criminalidade de rua, como o acerto de contas entre gangues rivais. O policiamento está mais ostensivo e as investigações mais eficazes. Com isso, o risco do criminoso ir preso é maior, o que faz com que avalie antes de cometer um assassinato, considera.

Conforme a SSP, somente no 4º trimestre 2009, 5.262 armas foram apreendidas, contra 5.037 no mesmo período do ano anterior. As prisões aumentaram em 26% no período.

Por outro lado, essa maior eficácia da polícia, na visão de Filho, não impede, por exemplo, que os crimes passionais ou movidos por desentendimentos, como uma batida de carro, sejam evitados. São homicídios feitos por impulso. Aqui em Araraquara vimos um grande crescimento desses crimes, afirma ele, que por dois anos coordenou uma pesquisa que avaliou todos os inquéritos de assassinato na cidade.

Rogério Mendes também destaca o trabalho da polícia na capital e região metropolitana. Melhorou muito, diz, mas ressaltando que no interior a atuação ainda é frágil e precisa ser adaptada.

Mortes em combate

Outro ponto discutido por especialistas foi o relatório, divulgado em dezembro último, pela ONG Human Rights Watch que aponta que, em 2008, as polícias do Rio de Janeiro e de São Paulo mataram juntas 1.534 pessoas, número maior que o de mortes cometidas por policiais em toda a África do Sul.

Reis Filho admite que os dados não são bons, mas afirma que seriam muito piores se analisados em outra década. A Constituição Federal de 1988 passou a dar atenção maior aos direitos humanos na atuação da polícia, afirma. 

Filho diz que a preocupação do governo e de oficiais da polícia, hoje, é diferente, mas ainda não é seguida pelos subordinados, ou seja, quem efetivamente está nas ruas. Os policiais têm uma visão marxista, de autoridade e que não podem levar desaforo para casa. Essas práticas violentas escapam à oficialidade, afirma.

Para os especialistas, não há segredo no combate à violência, apenas investimento. Para começar, citam a valorização dos comandados com cursos, salários melhores, seguro de vida e horários decentes. Além disso, critérios maiores já na hora da seleção dos futuros policiais.

Leia mais sobre: violência


    Leia tudo sobre: crimeviolência

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG