Empresas priorizam investimentos no mercado interno

Se no Ranking das Transnacionais Brasileiras referente a 2008 a Fundação Dom Cabral, responsável pelo levantamento, não identificou queda no nível de internacionalização das maiores transnacionais brasileiras, o ano de 2009, mais afetado pelos efeitos da crise internacional iniciada em setembro passado, apresenta significativa desaceleração no nível de investimento das empresas brasileiras no exterior. Apesar de a crise internacional gerar novas oportunidades de negócios, devido a valores mais baixos na precificação dos ativos, as empresas mantêm a cautela e continuam dando prioridade à manutenção do caixa em sua estratégia.

Agência Estado |

"Neste momento, todo mundo ainda está muito cauteloso. As oportunidades ainda não têm se efetivado, devido ao cenário de liquidez mais restrita", afirmou o professor da Fundação Dom Cabral Álvaro Cyrino, um dos responsáveis pela elaboração do ranking divulgado hoje. Segundo dados do Banco Central citados pelo professor, o volume de investimento brasileiro direto no exterior foi de US$ 20 bilhões no ano passado. Somente no primeiro semestre de 2008, foram US$ 8,5 bilhões investidos fora do País. No mesmo intervalo de 2009, o saldo de investimento brasileiro direto no exterior ficou negativo em US$ 1,7 bilhão. "Isso significa que, ao invés de o dinheiro sair do País, ele está fazendo o caminho inverso", observou o professor.

Levantamento da consultoria KPMG também mostra significativa redução das operações de compra no mercado externo. Segundo o responsável pela área de Corporate Finance da KPMG, Cláudio Ramos, no primeiro semestre deste ano foram realizadas 12 aquisições no exterior por empresas brasileiras. Em todo o ano passado, a consultoria contabilizou "pouco menos de 60" transações desse tipo.

Além do ambiente de liquidez mais restrito este ano, em razão da crise financeira internacional, a robustez do mercado doméstico explica esse movimento. Ou seja, a preferência das empresas brasileiras tem sido o mercado local, que apresenta melhores perspectivas de crescimento. De acordo com o estudo da Fundação Dom Cabral, os participantes do ranking acreditam que em 2010 o seu desempenho no mercado doméstico será superior ao de suas subsidiários no exterior em vendas, crescimento de vendas, lucratividade e participação de mercado.

Soma-se a isso o fato de a rentabilidade das empresas no exterior ser inferior à verificada no País. Segundo a pesquisa da Fundação Dom Cabral, a margem Ebitda das operações totais das empresas que fizeram parte do universo de análise foi de 17% em 2008, enquanto a margem Ebitda das operações externas ficou em 11%. Mas esse desempenho não pode ser explicado pela crise. "A pesquisa anterior mostrava a mesma proporção. À medida que você não conhece o mercado e precisa passar por uma curva de aprendizado, é natural que o seu resultado seja menor", afirmou Ciryno.

Enquanto não há disponíveis condições mais favoráveis de acesso a crédito e previsibilidade de longo prazo para os negócios que possibilitem a retomada das aquisições ao nível pré-crise, a tendência é de que as empresas se dediquem à consolidação das operações no exterior já existentes, conforme o professor. O diretor Financeiro e de Relações com Investidores da Marfrig, Ricardo Florence, confirma: "Estamos dedicados a coletar sinergias e, eventualmente, a oportunidades estratégias que possam aparecer, como a recente aquisição da linha de perus da Doux Frangosul", disse. No Ranking das Transnacionais brasileiras referente a 2008, a Marfrig ocupou a terceira posição. A lista foi encabeçada pela siderúrgica Gerdau.

Ao mesmo tempo, o professor da Fundação Dom Cabral também prevê um movimento de consolidação, principalmente em setores ou envolvendo empresas mais afetadas pela fase de turbulência econômica. A união entre Sadia e Perdigão foi citada pelo professor como um exemplo desse movimento, mas ele ressaltou que a consolidação "não necessariamente ficará restrita ao plano doméstico".

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