Em Vigário Geral, esperança está no maior prédio da favela

Por Pedro Fonseca RIO DE JANEIRO (Reuters) - Ao chegar na favela carioca de Vigário Geral, uma grande construção ainda em obras chama atenção por seu tamanho em meio aos barracos. O prédio é o Centro Cultural Wally Salomão, considerado o maior espaço destinado à cultura dentro de uma favela em toda a América Latina.

Reuters |

Enquanto traficantes armados se posicionavam próximo ao local numa aparente ronda de segurança nesta quarta-feira, crianças e jovens passavam a todo momento pelo edifício de quatro andares que abrigará um estúdio musical de última geração, uma sala de cinema, biblioteca, cdteca, além das oficinas artísticas do Grupo Cultural AfroReggae.

Os moradores da favela, que ficou mundialmente conhecida em 1993 pela chacina que deixou 21 mortos, agora voltam seus olhos para a maior construção da comunidade na esperança de que seja uma resposta à altura ao mundo do crime.

'Se nós queremos atingir um pessoal que está na ociosidade, correndo o risco de seguir um caminho errado, nós temos que ocupar todos os espaços', disse à Reuters Vitor Honofre, coordenador do Núcleo do Afroreggae em Vigário Geral, ele próprio ex-aluno das oficinas do grupo na favela.

'Esse prédio será o primeiro que vai funcionar 24 horas por dia. Aqui vai haver atividade o tempo inteiro para atrairmos essa juventude durante a noite e a madrugada', acrescentou, durante visita ao local nesta quarta-feira.

As obras do centro cultural --batizado em homenagem ao escritor morto em 2003 que foi um dos criadores do Afroreggae há 15 anos-- começaram em 2002, com um empréstimo levantado junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico.

Mas só em 2007 as construções decolaram, com recursos conseguidos através de apresentações das bandas do Afroreggae.

Agora que a parte estrutural está praticamente pronta, o local receberá 1,2 milhão de reais em patrocínio da Petrobras, para montagem interna.

O local terá tratamento visual do artista plástico Luiz Stein e será dirigido pelo antropólogo e produtor artístico Hermano Vianna, irmão do cantor Herbert Vianna.

Por enquanto, o projeto mais adiantado é o estúdio musical, que segundo Hermano será um dos mais modernos do país. O local será administrado em parceria com o DJ norte-americano Diplo, um dos maiores divulgadores do funk carioca no exterior.

FAVELA E ASFALTO

De acordo com Hermano, a intenção dos organizadores do centro é levar bandas e DJs nacionais e internacionais para gravarem e darem aulas dentro de Vigário Geral.

'Nós queremos fazer desse centro cultural um local de concentração artística não só para a comunidade de Vigário Geral, mas para toda a cidade do Rio de Janeiro. Queremos romper essa barreira de cidade dividida, asfalto e favela', disse Hermano à Reuters.

Apesar da proposta de Hermano, dificilmente será possível visitar o local sem uma autorização prévia do Afroreggae, grupo que há 15 anos promove oficinas de arte para jovens em favelas.

Durante a visita na quarta-feira com jornalistas, cuidadosamente acompanhados pelos organizadores, traficantes armados com pistolas e fuzis foram vistos muito próximos ao centro cultural. Ainda assim, Vitor Honofre garante que não haverá problemas.

'A comunidade com certeza está pronta para receber todos os visitantes de braços abertos', disse ele.

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