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Em SP, padre cobra por oração no Cemitério do Araçá

No Cemitério do Araçá, um dos mais antigos da capital paulista, na região oeste, o rito das exéquias - oração de despedida, celebrada em velórios - tem preços que variam entre R$ 50 e R$ 200, cobrados logo após a cerimônia diretamente de parentes do morto. É dinheiro cobrado por um padre que veste paramentos da Igreja Católica Apostólica Romana - a túnica branca até os pés, a estola roxa que cobre os ombros - e fica no cemitério pela manhã e à tarde, com o conhecimento de funcionários do Serviço Funerário Municipal.

Agência Estado |

Acontece que, segundo a Arquidiocese de São Paulo, o "padre", que se apresenta como "monsenhor" Marcos Rodrigues Fontana, nunca foi ordenado, nem tem permissão para realizar celebrações usando vestes eclesiásticas em nome da Igreja.

Desde que a Arquidiocese detectou a atuação de Fontana no Araçá, em outubro de 2008, pelo menos 40 fiéis apresentaram queixas formais à instituição. Eles se dizem "desrespeitados, num momento de instabilidade emocional". Dizem que o padre se apresenta como "católico", procura especificamente fiéis "católicos" e que, ao fim, age como "negociador".

Em julho, o Serviço Funerário criou uma sindicância, que apontou indícios de práticas criminosas, como "cobrança ilegal de donativos sob falsa justificativa de doação para associação". Encaminhado ao Ministério Público Estadual, o caso do falso padre virou inquérito policial em 3 de setembro e é investigado pelo Departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap). Os funcionários públicos que interagem com o "monsenhor" - a reportagem o flagrou circulando, de carona, num carro do Serviço Funerário - "ajudaram a elucidar o caso", segundo justificou o Serviço Funerário.

"É um falso padre, charlatão que se aproveita de horas difíceis para tirar dinheiro dos fiéis", afirma o bispo auxiliar da Arquidiocese de São Paulo, d. Tarcísio Scaramussa, vigário responsável pela região Sé, que encaminhou ofício notificando a Prefeitura sobre a atuação do "padre", em 8 de setembro. "Não haveria problema se ele deixasse claro que é padre de outra religião, de alguma dissidência, mas ele se veste como padre da Igreja (Católica Apostólica Romana) e induz os fiéis a acreditarem nisso."

Defesa

Abordado pela reportagem na manhã de ontem após um velório no Cemitério do Araçá, o "monsenhor" Marcos Rodrigues Fontana afirmou cobrar "taxa" porque "um padre precisa se locomover, precisa viver". "Sou da Igreja Católica Apostólica Reunida do Brasil, não existe só a Apostólica Romana. Tenho todo o direito de fazer as cerimônias, não preciso sair avisando todo mundo de qual congregação dos católicos sou." A reportagem informou não ter conseguido contato com a Igreja Reunida e pediu para falar com representantes da congregação. O padre, porém, disse que não poderia informar o telefone, porque "precisava checar a agenda do bispo".

Ele disse também ter documentos que provariam sua filiação à Igreja e o título de "monsenhor". Mas não quis apresentá-los. "Tenho um orfanato para cuidar, minha agenda está cheia." Questionado se poderia levar a reportagem a um dos orfanatos, ele negou. "Não devo nada a ninguém." Disse não ver problemas em usar paramentos da Igreja Católica Apostólica Romana. "Uso mesmo, vende em qualquer livraria, não confunde ninguém."

Ao fim da entrevista, indignado com as fotografias da reportagem, Fontana chamou a polícia. Aos policiais, o padre disse estar sendo "melindrado" pelos repórteres. Fontana se negou a prestar queixa na delegacia, sem explicar o porquê. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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