faça-você-mesmo e rejeita Hollywood - Brasil - iG" /

Em São Paulo, Michel Gondry defende faça-você-mesmo e rejeita Hollywood

SÃO PAULO ¿ Pela primeira vez no Brasil, o cineasta francês Michel Gondry está engajado em promover ¿Rebobine, Por Favor ¿ A Exposição¿, baseada em seu último filme, que entra em cartaz na próxima terça-feira no Museu da Imagem e do Som (MIS). Ganhador do Oscar pelo roteiro de ¿Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças¿, o diretor conversou com a imprensa nesta sexta-feira sobre seu projeto, que quer estimular a criação de vídeos nas comunidades, numa espécie de ode ao ¿faça você mesmo¿ e à produção de cultura independente de entidades comerciais.

Marco Tomazzoni |

Acordo Ortográfico

Em Rebobine, Por Favor, que estreia dia 12 de dezembro, os personagens de Jack Black e do rapper Mos Def resolvem refilmar sucessos do cinema pop ¿ Caça-Fantasmas, Robocop, Rei Leão ¿, de forma caseira, para salvar uma locadora de fitas VHS. Na exposição, o visitante frequenta workshops e tem a chance de fazer algo parecido: a partir de cenários customizáveis, pode filmar com um grupo de amigos um curta-metragem de até 20 minutos.

Segundo Gondry, a ideia surgiu há cerca de 25 anos, quando percebeu que diversas salas de cinema do bairro onde morava, em Paris, começaram a fechar devido à concorrência com os multiplexes. Achei que seria legal invadir uma dessas salas, dar uma câmera para os moradores da região, sem restrições, e exibir o resultado no final de semana, fosse ficção, documentário, qualquer coisa, contou. Na entrada das sessões, era cobrada uma contribuição espontânea e o total arrecadado ia para a produção do próximo vídeo.

Miniaturas e telas de LCD estão à disposição
dos filmes caseiros dos visitantes / iG

Embrionário, o conceito permaneceu adormecido por muito tempo, até que, como o diretor diz, conquistou a liberdade para fazer e escrever o filme que quisesse. A partir daí, retomou o projeto, querendo agora debochar das práticas da indústria hollywoodiana e seus orçamentos inflados. Quis fazer o contrário: pegar grandes produções e fazê-las baratas, conta. "Sempre fui fascinado por descobrir como as coisas são feitas e pelo 'faça-você-mesmo'. É aí que aparecem as soluções mais criativas.

A exposição em São Paulo segue os mesmos moldes da que foi aberta com sucesso em Nova Iorque no início do ano, na galeria Deitch Projects. Após frequentar dois workshops e concluir o roteiro, os visitantes passam para a filmagem em si, que, assim como no longa-metragem, não conta com pós-produção: tudo é editado direto na câmera, apertando os botões Rec e Pause.

Gondry revela que, apesar do projeto estar disposto em museus e galerias, qualquer pretensão artística ou técnica está descartada. Não se trata de arte, nem de dar aulas. É uma atividade para aprender a fazer as coisas em grupo. Não sei como é no Brasil, mas nos subúrbios de Nova Iorque e Paris há programas para fazer você ficar em casa. Quero justamente o contrário. A exposição quer tirar os obstáculos para as pessoas fazerem o que querem.

Desprezo por Hollywood

Depois de fazer carreira trabalhando com publicidade e vídeos musicais ¿ é o responsável por clipes famosos de Björk, White Stripes, Foo Fighters e Rolling Stones, entre muitos outros ¿, Gondry atingiu status de cult e pôde fazer sua migração para o cinema. Além de Rebobine, Por Favor e Brilho Eterno, tem outros dois filmes no currículo: A Natureza Quase Humana e Sonhando Acordado, ainda inédito comercialmente no Brasil.

O apuro visual e a inventividade dos trabalhos do diretor seguem um processo criativo que começa com uma provocação. Muitas vezes me desafio a pensar coisas abstratas, ou escolher soluções contrárias ao que os outros ou o bom senso me dizem, revela.

Justamente por isso, sua relação com Hollywood não podia ser mais refratária. Mesmo se sentindo inspirado por comédias criativas como De Volta Para o Futuro, Gondry repele os convites dos estúdios e prefere continuar encabeçando projetos independentes. Me mandavam roteiros sem saber do que gosto, querendo apenas agregar um selo ou uma aura cool às produções. E os projetos não me atraem, falam de tudo o que desprezo: histórias em que os ricos são inteligentes e os pobres, burros.

A ligação com a publicidade, por outro lado, já é mais condescendente, mas não menos conflituosa. Imortalizado no Guinness, o livro dos recordes, por ter dirigido o comercial de TV mais premiado da história, para uma marca de calças jeans, Gondry afirma que padece de contradições e dilemas éticos ao assumir trabalhos assim. Quando faço um vídeo com liberdade total, muitas vezes me pedem para repetir a ideia em um comercial. Às vezes aceito porque preciso do dinheiro, mas não me sinto muito feliz, confessa.

Cenário no MIS imita cabine de trem, exibindo imagens em movimento / iG

Os choques cessam quando o assunto são futuros projetos. Além de um roteiro pronto, o cineasta tem dois projetos engatilhados. O primeiro é uma animação em 2D em parceria com o filho, baseada em uma história em quadrinhos escrita pelos dois. O roteiro está a cargo do quadrinista Dan Clowes (Ghost World, Uma Escola de Arte Muito Louca) e a grande novidade fica por conta da gravação do áudio. Vou trazer uma equipe para ficar uma semana em estúdio, gravando vozes, efeitos, música, e dirigir como se estivéssemos em uma peça, com uma dinâmica diferente, adianta.

O outro, mais complexo, tem um roteiro pré-formatado, que será reescrito a partir das conversas com um grupo de jovens entre 13 e 17 anos. Gondry acompanhou por seis meses as viagens de um ônibus escolar de uma comunidade no Bronx, em Nova Iorque, para realizar o trabalho. Quero provar minha teoria de que as conversas ficam bem mais interessantes quando o ônibus começa a ficar vazio, o que revela a influência do grupo no comportamento dos alunos, garante.

O cineasta francês participa hoje da abertura para convidados da exposição no MIS, mas conversa com os fãs na segunda-feira (01), quando autografará o livro You'll Like This Film Because You're In It (Você vai gostar desse filme porque você está nele, em tradução livre), em que relata a experiência da mostra em Nova Iorque e defende que o público pode se divertir sem precisar fazer parte de um sistema comercial e mercadológico. A sessão de autógrafos acontece das 11h às 13h no Restaurante Paris 6 (Rua Haddock Lobo, 1240).

No MIS, treze cenários estão disponíveis para que os visitantes possam fazer seus próprios vídeos. Após uma pré-inscrição, são formadas turmas para definir título, gênero, roteiro e as funções de cada um do grupo. No final do processo, os envolvidos assistem a seu curta-metragem, que fica à disposição em uma réplica da locadora de "Rebobine, Por Favor". As inscrições para participar do workshop podem ser realizadas no site oficial .

Serviço: "Rebobine, Por Favor ¿ A Exposição"

Museu da Imagem e do Som (MIS)
De 02 de dezembro de 2008 a 11 de janeiro de 2009
Entrada gratuita
Avenida Europa, 158
Horário: terça a sábado das 12h às 21h; domingos e feriados das 11h às 20h
Informações: (11) 2117-4777

Leia mais sobre: Michel Gondry

    Leia tudo sobre: michel gondry

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG