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Em meio ao caos de São Paulo, mil pessoas param para saber como medir a felicidade

São Paulo, 29 de outubro, uma quarta-feira. Enquanto a maioria da população seguia a estressante rotina de uma cidade grande, mil pessoas pararam para saber como medir a felicidade. O conceito, no mínimo curioso, foi apresentado na 1ª Conferência Nacional sobre Felicidade Interna Bruta, no teatro Paulo Autran, Sesc Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Fala, internauta! http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2008/11/01/em_meio_ao_caos_de_sao_paulo_mil_pessoas_param_para_saber_como_medir_a_felicidade_2090382.html#comentarios target=_topVocê acha possível medir a felicidade?

Luísa Pécora, repórter Último Segundo |

Acordo Ortográfico

"O FIB situa a felicidade como pivô do desenvolvimento, em oposição ao PIB (Produto Interno Bruto, a soma das transações econômicas de uma nação), que falha em contabilizar os custos ambientais e inclui formas de crescimento econômico prejudiciais ao bem-estar da sociedade, como o corte de árvores", explicou Susan Andrews, psicóloga, antropóloga e coordenadora do FIB no Brasil.

A Felicidade Interna Bruta, ou FIB, foi instituída em 1972, no Butão, pequena nação asiática incrustada no meio do Himalaia. A proposta é ousada: medir a felicidade por critérios técnicos, por meio de questionários de até 150 perguntas, e incorporá-la aos índices de desenvolvimento de uma cidade, Estado ou país.

Segundo explicações dadas durante a palestra, com este conceito, a percepção dos cidadãos em relação à sua satisfação com a vida seria analisada em nove dimensões: padrão de vida econômica, critérios de governança, educação de qualidade, saúde, vitalidade comunitária, proteção ambiental, acesso à cultura, gerenciamento equilibrado do tempo e bem-estar psicológico.

Uma versão internacional está sendo elaborada no Canadá, com aplicação prática prevista para este ano. No Brasil, um protótipo de FIB foi colocado em prática em abril, em Angatuba, a 181 km de São Paulo (mais informações nesta página). Na capital, a idéia já conquistou um primeiro aliado: o secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente, Eduardo Jorge, que propõe, a partir de 2009, iniciar pesquisas de medição do FIB em subprefeituras da capital. "Seria uma maneira de a cidade contribuir com esse esforço internacional, com adaptações à realidade da metrópole", disse.

Felicidade medida

Mas será possível medir a felicidade? A reportagem do Último Segundo conversou com pessoas que participaram da conferência para saber a opinião de quem assistiu à palestra e mora em São Paulo. Não acredito em um mundo pautado só por questões econômicas. A proposta do FIB me parece muito mais ampla e coerente com a necessidade que temos de viver de maneira mais justa, afirmou o produtor cultural Rafael Pierroni, salientando que a aplicação prática da idéia é difícil, mas não é impossível, já que deu certo no Butão.

Embora tenha chegado à conclusão de que a felicidade não pode ser medida por critérios técnicos, a engenheira química Patrícia Carvalho não se decepcionou com a palestra. O conceito do FIB é abrangente e estimulante, e isso basta. A idéia não precisa ser perfeita, afirmou.

A jornalista Luana Carregari destacou o fato de o evento colocar um tema em discussão no momento em que as pessoas pedem novos paradigmas de desenvolvimento. Temos um longo caminho para tornar essa idéia factível, mas o primeiro passo é chamar as pessoas e debater, opina.

Quem também saiu da conferência animada foi a aposentada Tânia Marques. Para ela, ocorre, atualmente, um crescimento do nível de concientização da sociedade. As pessoas estão começando a perceber que o resgate dos valores é algo urgente, afirma ela.

Já para o estudante de arquitetura Bruno Uehara os discursos dos especialistas, durante a conferência, pareciam superficiais e distantes da realidade de países ocidentais. No Oriente isso pode até funcionar, mas aqui temos uma tradição materialista, afirmou. A opinião foi compartilhada pela aposentada Elsa Brown. Agora é meio impossível, disse.

Elsa, que está no Brasil há mais de 50 anos, nasceu em um dos países mais bem avaliados pelos índices sócioeconômicos tradicionais: a Noruega. Ela gosta de viajar ao país natal, mas não quer voltar definitivamente. Aqui você tem o direito de dizer e pensar o que quiser. Na Noruega, o Estado, a Igreja e os bancos pensam por você, conta ela, que não consideraria morar em nenhum outro país que não o Brasil. Quer dizer, corrige, talvez agora eu vá para o Butão.

Para pesquisadores, a adoção do FIB, em conjunto com outros indicadores, tem o mérito de informar a população sobre sua percepção de bem-estar. "O PIB foi elaborado na década de 1950 e está defasado há muito como indicador de desenvolvimento de um país. O FIB complementa os indicadores de qualidade de vida, juntamente com o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano)", afirma o economista Ladislau Dowbor, consultor da ONU.

Experiência

Até o início da década de 1970, uma política de isolamento fazia com que o Butão concentrasse os mais altos índices de pobreza, analfabetismo e mortalidade infantil do planeta. Em 1972, juntamente com a abertura econômica, o recém-empossado rei Jigme Singye Wangchuck criou o conceito de Felicidade Interna Bruta para redefinir o significado de desenvolvimento social e econômico.

Hoje o Butão - cuja capital, Thimphu, com 50 mil habitantes, não possui semáforos e só conheceu televisão e internet em 1999 -, vê os índices de analfabetismo e mortalidade infantil despencarem, a economia se recuperar e as belezas naturais continuarem intactas, com 25% de seu território delimitado por parques nacionais. Desde o fim da década de 1990, observadores da ONU viajam ao País anualmente para estudar o jeito butanês de levar a vida.

Segundo Dasho Karma Ura, coordenador dos estudos sobre o FIB no Butão, a proposta não negligencia a importância do dinheiro na vida moderna. A meta final dos governos, das empresas e dos cidadãos deve ser a felicidade, explica. O crescimento econômico é uma das formas de se chegar à meta, mas não a única.

O pesquisador também falou sobre os hábitos dos moradores de Butão, que praticam atividades físicas regularmente, dormem bem e ficam doentes, em média, apenas 3 dias por mês. Ao explicar a importância de saber administrar o tempo, ele contou que, segundo suas pesquisas, as pessoas que trabalham menos têm qualidade de vida melhor. Eu acho que o expediente deveria ser de 6 horas, afirmou. O auditório, lotado, aplaudiu.

(*com informações da Agência Estado)

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