Em meio à destruição, ele salvou cerca de 350 pessoas em São Luiz do Paraitinga

Dez dias depois das enchentes que devastaram boa parte de São Luiz do Paraitinga, localizada no Vale do Paraíba, a 182 km da cidade de São Paulo, o ânimo e a vontade de reconstrução de Hélio Alexandre de Souza não diminuíram.

Camila Nascimento, de São Luiz do Paraitinga |

Internauta/ Rodrigo Mendonça
Hélio ajudou a salvar cerca de 350 pessoas ilhadas

Hélio ajudou a salvar cerca de 350 pessoas ilhadas

Vamos nos levantar. Grão por grão. Tijolo por tijolo. Telha por telha. Coração por coração, afirmou Souza em entrevista ao iG . Ainda estamos tentando achar explicação. Às vezes, fico triste, mas não quero falar em catástrofe.

Souza, de 34 anos, é um dos voluntários que trabalha na reconstrução de São Luiz do Paraitinga desde o dia 1º, quando as fortes chuvas fizeram com que o Rio Paraitinga transbordasse, inundando pelo menos 50% da cidade. Conhecido como Hélio Dindon, pois é filho do Seu Zé, o homem que por 33 anos tocou o sino da Igreja Matriz São Luiz de Tolosa (também destruída), ele foi um dos primeiros a ajudar no resgate às vítimas da enchente.

Foram quase 24 horas seguidas resgatando pessoas. Carreguei gente no colo, tive de conversar com muitos (...) Em um dos resgates mais difíceis, já na madrugada, tiramos um casal de idosos pelo telhado da residência deles que estava totalmente inundada, conta.

Reprodução
Hélio, em foto de arquivo

Hélio, em foto de arquivo, durante rafting

Souza é instrutor de rafting e foi chamado pela polícia da cidade, por volta das 10h do dia 1º de janeiro, para chegar onde ninguém mais conseguia. O meu telefone tocou e era a Polícia Militar que ligava a pedido da prefeita dizendo que precisava de ajuda para chegar a Várzea dos Passarinhos (região mais baixa da cidade) para socorrer algumas pessoas ilhadas. Entrei às 10h no bote e saí apenas às 6h do dia seguinte, afirmou.

Em 24 horas, foram salvas cerca de 350 pessoas. Poderia ter sido mais, não fosse a resistência de muitos moradores que se recusavam a sair de casa. Vi gente com água no pescoço que só me dizia: a água está baixando, a água está baixando. Eles se recusavam a sair de suas casas, apesar da água avançar, afirmou.

Cheiro de carniça e esgoto

AE
Policiais usam máscara por causa do mau cheiro

Policiais usam máscara por causa do mau cheiro

Quem chega a São Luiz do Paraitinga ¿ a cidade que tem cerca de 470 edificações tombadas pelo Patrimônio Histórico - vê um cenário de guerra. Chama atenção, além da lama e lixo pelas ruas e casarões destruídos, o cheiro forte de esgoto e carniça (especialmente na área rural). Muitos animais morreram nas enchentes e os alimentos das casas, antes guardados em geladeiras, se espalharam com a lama e restos de móveis e construções da cidade.

Esse era o período que São Luiz do Paraitinga receberia pelo menos 200 mil turistas. Era o momento das marchinhas... as pousadas estavam cheias, lamenta Souza.

A cidade histórica costuma ficar lotada nos carnavais por suas marchinhas e atrai turistas que gostam de esportes de aventura. Agora, todos trabalham 24 horas por dia para que tudo seja reconstruído. São cerca de 40 casas limpas por dia. Um trabalho de mutirão que conta com a solidariedade de cidades vizinhas e a ajuda do Exército, que dá apoio à polícia e aos homens da Defesa Civil.

De acordo com os bombeiros, cerca de mil voluntários ajudam a distribuir alimentos e prestam solidariedade aos desabrigados. No entanto, aparecem também pessoas oportunistas, que aproveitam a situação de caos para saquear residências alagadas e roubar objetos do rico acervo do patrimônio histórico da cidade.

AE
Rescaldo das chuvas que alagaram a cidade histórica de São Luiz do Paraitinga

Rescaldo das chuvas que alagaram a cidade histórica de São Luiz do Paraitinga

Cerca de 200 toneladas de donativos, entre alimentos, água, produtos de limpeza já foram arrecadados. A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) enviou 2 mil litros de água potável em copos de 200 mililitros. O governador de São Paulo, José Serra, voltou a São Luiz do Paraitinga esta semana e prometeu liberar R$ 10 milhões para as cidades afetadas pelas chuvas .

Ainda não há um levantamento preciso sobre todos os danos provocados nos prédios históricos datados dos séculos 19 e 20. Técnicos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) já interditaram 146 imóveis . Os comerciantes calculam um prejuízo de pelo menos R$ 17 milhões. Os moradores também somam suas perdas. Dos 10,9 mil habitantes, 2 mil continuam desabrigados ou desalojados.

Sino em silêncio

Na verdade, os grandes desafios agora são recuperar a história de São Luiz do Paraitinga que foi destruída por essa enchente e a autoestima da população, avalia Souza. Vi meu pai chorando. Me corta o coração ver um senhor de quase 80 anos entrando em uma fila para pegar marmitex, afirmou Souza em entrevista ao iG .

Internauta/ Rodrigo Mendonça
Restos da igreja matriz de São Luiz do Paraitinga

Restos da igreja matriz de São Luiz do Paraitinga

Assim como seu Zé, que não mais tocará o sino da igreja matriz, outras pessoas têm sido obrigadas a enfrentar filas de até quatro horas para conseguir um prato de alimento ou outros utensílios, como botijão de gás. O trauma é muito grande, mas vamos reconstruir São Luiz do Paraitinga.

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