Em meio a crescimento, Brasil acolhe imigrantes do Haiti

Apostando tudo que tem, milhares de haitianos atravessaram as Américas para chegar a pequenas cidades da Amazônia brasileira

The New York Times |

BRASILÉIA, Brasil - Da odisseia que o levou até esta cidade na Amazônia brasileira, Wesley Saint-Fleur só guardou um olhar de cansaço e desorientação.

Meses atrás, ele embarcou em um ônibus no Haiti, entrou em um avião na República Dominicana, pousou no Panamá e, em seguida, no Equador. Lá sua esposa deu à luz seu filho, Isaac, disse ele, balançando o bebê de 4 meses de idade em seu joelho e segurando a carteira de identidade equatoriana do menino. Em seguida, eles continuaram de ônibus mais uma vez, passando pelo Equador e pelo Peru. Em seguida, eles percorreram um trecho da Bolívia a pé, onde ele disse que a polícia roubousuas roupas e de todo o seu dinheiro: U$ 320.

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"Então, finalmente chegamos ao Brasil, onde me disseram que estão construindo de tudo, estádios, barragens, estradas", disse Saint-Fleur, 27, um trabalhador da construção civil e um das centenas de haitianos que se reúnem diariamente ao redor do gazebo de palmeiras construído na praça central de Brasileia. "Tudo que eu quero é trabalhar e no Brasil, graças a Deus, nós conseguimos achar emprego."

Apostando tudo que tem, milhares de haitianos atravessaram as Américas para chegar a pequenas cidades da Amazônia brasileira no ano passado, em uma busca desesperada por trabalho, incluindo uma onda de centenas de trabalhadores que chegaram nos últimos dias em meio ao medo de que o governo brasileiro possa impedir a imigrição antes que ela se torne maior do que as autoridades locais podem acomodar.

Suas viagens - dos escombros de suas casas na ilha para estes remotos locais na Amazônia - dizem muito sobre as terríveis condições econômicas que persistem no Haiti dois anos após o terremoto que atingiu o país, mas também revelam bastante a respeito do perfil ascendente da economia do Brasil, que rapidamente está se tornando um imã não apenas para os pobres trabalhadores estrangeiros, mas também para um número crescente de profissionais formados da Europa, dos Estados Unidos e da América Latina.

Ao chegarem a postos de controle alfandegário na fronteira, os haitianos são vacinados, têm acesso a água potável e a duas refeições por dia concedidas pelas autoridades. Alguns permanecem durante semanas em Brasileia e outras cidades parecidas à espera de vistos humanitários que os autorizam a trabalhar legalmente no Brasil.

Mas com o fluxo enorme de recém-chegados, alguns não são tão sortudos assim. Depois de viajar uma grande distância e superar inúmeros obstáculos, um grupo de oito pessoas se aglomeram em um pequeno quarto de hotel ou até mesmo acabam dormindo nas ruas, quase revivendo a miséria que esperavam deixar para trás.

"Não posso permitir que a tristeza tome conta de mim, uma oportunidade irá aparecer quando esta fase difícil passar", disse Simonvil Cenel, 33, um alfaiate à espera de um visto, que conduz orações evangélicas para aqueles que estão no limbo depois de terem sofrido muito para chegar aqui.

Cerca de 4.000 haitianos que emigraram para o Brasil desde o terremoto de 2010, muitas vezes passando primeiro pelo Equador, um país mais pobre e com políticas de vistos mais flexíveis. O Brasil fez uma exceção para os haitianos, em contraste com os que procuram emprego vindos de países como o Paquistão, Índia e Bangladesh, que chegam através de rotas similares pela Amazônia, mas geralmente são mandados de volta.

"O Haiti está se recuperando de um período de extrema crise e o Brasil está numa posição de poder ajudar essas pessoas", disse Valdecir Nicacio, um oficial de direitos humanos no Estado do Acre, onde fica a cidade de Brasileia. "Antes de chegarem aqui, essas pessoas estavam à mercê de traficantes de seres humanos", disse ele. "O Brasil é grande o suficiente para acomodar os haitianos que só querem estar em um lugar onde possam trabalhar."

Com o aumento representativo no número de haitianos nos últimos dias, as autoridades da Brasileia e de Tabatinga, uma cidade de fronteira localizada no Estado do Amazonas, têm alertado sobre possíveis problemas para alimentar e abrigar os imigrantes enquanto os pedidos de visto são analisados. Autoridades federais reagiram enviando toneladas de alimentos para os haitianos, que somam mais de 1.000 em cada assentamento na fronteira do país.

Lidar com uma crise de imigração na fronteira é um novo dilema para o Brasil, que até recentemente estava mais preocupado com a saída de seus próprios cidadãos em busca de oportunidades nos países ricos e industrializados do que reagir à chegada de milhares de estrangeiros pobres.

Embora o crescimento econômico tenha desacelerado recentemente no Brasil, o desemprego mantém-se em uma baixa histórica de 5,2% e muitas empresas têm dificuldade em encontrar o número de trabalhadores suficiente para preencher as vagas. Os salários também subiram para os que estão no degrau mais baixo do mercado, com a renda dos brasileiros pobres aumentando sete vezes mais do que a renda dos brasileiros ricos entre 2003 e 2009.

"Nós estávamos passando por uma falta de mão de obra porque muitos brasileiros estão indo trabalhar nos dois projetos de hidrelétricas", disse Ana Terezinha Carvalho, a analista de gestão de pessoal da Marquise, uma empresa localizada em Porto Velho. A cidade fica na parte superior da bacia do rio Amazonas, onde o Brasil está empregando milhares de pessoas para construir duas grandes barragens, chamadas de Jirau e Santo Antonio.

Carvalho disse que sua empresa rapidamente contratou 37 haitianos que chegaram no ano passado para coletar lixo em Porto Velho e levá-lo para o aterro da cidade. Alguns ganham um pouco mais de US$ 800 por mês, em um trabalho que inclui benefícios como seguro de saúde, horas extras e férias remuneradas. "Não achamos brasileiros suficientes, por isso ficamos felizes em contratar os haitianos", disse ela.

As autoridades estimam que cerca de 500 haitianos vivem agora em Porto Velho e que cerca de 700 estão em Manaus, a maior cidade da Amazônia brasileira. Centenas mais chegaram a São Paulo, a capital econômica do Brasil. Empresas como a Fibratec, uma fabricante de piscinas localizada no sul de Santa Catarina, chegaram a enviar gestores até a cidade para contratar dezenas de haitianos.

Além de atender à demanda de mão de obra barata, o esforço para que os haitianos possam trabalhar no Brasil diz muito sobre as ambições do país em conquistar uma maior influência regional, tentando encontrar formas de aliviar os problemas de uma das nações mais pobres do hemisfério.

Em 2004, o Brasil enviou tropas para liderar uma missão de paz da ONU no Haiti. Mas agora existem mais haitianos no Brasil do que soldados brasileiros no Haiti. Em setembro, o Brasil anunciou que iria começar a reduzir o número de seus soldados na nação caribenha.

A maioria dos haitianos espera ficar apenas algumas semanas em Brasileia enquanto aguarda uma resposta da imigração, antes de prosseguir. Alguns, como Francisco Joseph, 25, aproveitam o máximo de seu tempo aqui. Ele compra cartões pré-pagos de celular cruzando a ponte até a cidade boliviana de Cobija e os vende para seus compatriotas haitianos na praça da Brasileia com um lucro de cerca de US$0,30 por cartão. Ele consegue faturar o equivalente a US$ 10 por dia.

"Este pouco de dinheiro me dá um pouco de dignidade", disse ele.

Outros, como Jacksin Etienne, 31, nutrem sonhos maiores. Poliglota que desliza com facilidade entre o inglês, espanhol, francês e crioulo, Etienne disse que gostaria de trabalhar como tradutor ou em um hotel.

"Eu quero ir direto para São Paulo, a Nova York da América do Sul", disse ele. "O Brasil é um país em ascensão e precisa de pessoas como eu."

Por Simon Romero

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