Exibido nesta sexta-feira no Festival de Cannes, The time that remains, de Elia Suleiman, conta de maneira íntima e burlesca a vida dos palestinos desde a criação do Estado de Israel, enquanto François Gaspar Noé, que escandalizou a Croisette com Irreversível em 2002, apresenta Soudain le vide.

Dos 20 títulos em disputa pela Palma de Ouro, que será entregue no domingo pelo júri presidido pela atriz Isabelle Huppert, apenas "Visage", do malaio Tsaï Ming Liang, e "Map of the Sounds of Tokyo", da espanhola Isabel Coixet, ainda serão exibidos no sábado.

Pela primeira vez em Cannes e na competição, o autor de "Intervenção divina" (2006) e de "Cyber Palestina" (1999) narra em seu último filme a vida de uma família palestina de Nazaré em várias décadas.

Com o subtítulo "Chronique d'un absent présent" (Crônica de um ausente presente, tradução livre), o filme apresenta na tela a vida do próprio cineasta, que retorna à casa de seus pais e conta, como em um longo 'flash-back', uma história na qual a política e as lembranças íntimas se misturam.

Em 1948, pouco depois da partilha da Palestina decidida pelas Nações Unidas e da proclamação do Estado de Israel, Fuad (Saleh Bakri), seu pai, pega em armas para combater os soldados israelenses que haviam invadido a sua cidade, Nazaré.

Ele é capturado, jogado do alto de um barranco e abandonado para morrer.

Anos depois, Fuad aparece naturalizado israelense, casado e pai de um filho, o pequeno Elia.

"The time that remains" relata o cotidiano tragicômico dos israelenses-árabes, tratados como uma minoria naquele que foi seu país, constantemente monitorados pela Polícia.

Suleiman mostra o absurdo do cotidiano dos palestinos depois da ocupação israelense, resumindo os desafios geopolíticos com grande fineza e um senso aguçado do absurdo.

Apesar de alguns momentos entediantes, a poesia e a humanidade do filme seduzem.

"Se este filme é um estudo histórico ou antropológico sobre um povo esquecido? Rejeito esta análise", declarou em Cannes o cineasta, que lamenta que a "imprensa tenha tenha perdido completamente a história da Palestina".

"Ser palestino é por si só um desafio (...) você deve se desviar deste discurso preestabelecido sobre a Palestina e fazer um filme que tenha uma dimensão universal", concluiu Elia Suleiman.

Último dos quatro filmes franceses na competição, "Soudain le vide", de Gaspar Noé, é um "melodrama psicodélico", segundo o diretor, que chocou com "Irreversível", há sete anos.

Com o reforço de grandes efeitos visuais que simbolizam as alucinações ligadas às drogas, o filme conta a história de Oscar, um traficante que vive em Tóquio com sua irmã, uma dançarina de strip-tease.

Quando Oscar é morto pela polícia, seu espírito vaga pela cidade, fiel à promessa feita a sua irmã em sua infância de jamais abandoná-la.

Gaspar Noé teve o mérito de filmar através dos olhos de Oscar, cujo rosto é visto apenas em dois momentos durante 2h45.

O filme, com cenas repetitivas de sexo e uma intriga sem suspense, não foi apresentado em sua versão definitiva e teve uma recepção fria durante a sua exibição à imprensa.

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