Em Cannes, Elia Suleiman dá tom poético a questão palestina

Mateo Sancho Cardiel. Cannes (França), 22 mai (EFE).- O diretor palestino Elia Suleiman exibiu nesta sexta-feira em Cannes o filme autobiográfico The Time that Remains, em que a questão entre seu povo e os israelenses não é mostrada, como de costume, de forma conflituosa.

EFE |

O longa em competição vai, em contrapartida, além quando Suleiman reivindica seu direito de abordar "a realidade política a transformando em espaço poético".

Na produção, Suleiman, que também atua no filme, desempenha um papel quase silencioso na tradição do humor de Buster Keaton, na mímica melancólica de Marcel Marceau ou na hilaridade dadaísta de Aki Kaurismaki.

A fórmula é, na realidade, quase a mesma que a usada no premiado neste mesmo festival "Intervenção divina" (2001), e Suleiman segue lutando contra rótulos.

Como palestino, ele disse à imprensa se sentir "geopoliticamente etiquetado". "Isso neutraliza minha intenção de criar uma mensagem de cunho universal", afirmou.

"The Time that Remains" retrata a saga Suleiman desde 1948, quando o pai do diretor lutava na resistência palestina, até a atualidade, quando fazem parte do grupo de palestinos que não abandonaram as terras ocupadas por Israel.

Por isso, o filme tem o subtítulo de "crônica dos presentes ausentes".

Tomando como base os diários de seu pai e as cartas de sua mãe, Suleiman buscou para o filme, apesar de tudo, harmonia. "Queria reproduzir no cinema a sensação de escutar música, oferecer uma mensagem em uma linguagem que não tenha que ser traduzida, que mesmo sem saber a letra, se possa entender a canção", expressou.

"Como palestino, é muito difícil abordar uma história sem se deparar com a História. Eu queria contar algo pessoal. Não tenho vontade de gastar minha energia em analisar como está o mundo", comentou.

Já Gaspar Noé, que apesar de argentino reside na França, apresentou também hoje em Cannes o bom drama, passado em Tóquio, "Enter the Void".

A última vez que Noé foi a Cannes causou desmaios e vômitos com a cena de estupro em tempo real de "Irreversível" (2002).

Hoje, chegou disposto a mostrar que não se assusta e se armou com uma capacidade de argumentar maior para buscar a Palma de Ouro, que será entregue no domingo.

Seus protagonistas são dois irmãos, um traficante e uma stripper.

"Não acho que sejam personagens miseráveis. Pelo menos me parecem mais miseráveis os que requerem seus serviços. Eles são seres normais que lutam por sobreviver como qualquer outra pessoa", assegurou o diretor em coletiva de imprensa.

Com essa colocação, não se pode esperar que seu cinema discorra por traços convencionais. "Há poucas pessoas que têm uma vida suave do princípio ao fim", completou.

A estrutura clássica de início, crua e de simples desenlace nunca foi o terreno transitado por Noé, cujos filmes baseiam grande parte de seu atrativo em narrativa rebuscada - e em consequência, o trabalho homérico de montagem - e em seu risco formal.

Saltos temporais, câmera subjetiva que segue o personagem principal - trabalho quase invisível de Nathaniel Brown -, experiências alucinógenas e uma cena de sexo gravada do interior de uma vagina formam o coquetel explosivo de "Enter de Void".

Para alguns seu cinema é puro enfeite, um milagre visual que salta como por arte s limitações técnicas do planejamento. Outros, que já conhecem as cartas com as quais Noé costuma jogar, recomendam ir ao cinema com um remédio para enjoo.

"Não acho que nade contra a corrente. Cannes é o lugar onde se encontram muitas linguagens diferentes", assegurou.

A complexidade do roteiro fez com que o projeto ficasse na cabeça de Noé há dez anos. "Em princípio, seria ambientado na Índia", explicou. "Certamente, 'Enter the Void' é desses tipos de filmes que renascem na pós-produção", explicou.

Foram muitos os que abandonaram a sala durante o filme, mas os que aguentaram até o final qualificaram o longa como uma dos mais arriscados e inovadores do festival.

De fato, "Enter the Void" leva sua experimentação até o ponto de o diretor assegurar que é, por assim dizer, uma escultura de Michelangelo, uma obra "non finita". EFE msc/rr

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG