Em busca de estilo próprio Por Fabiana Caso Depois de escrever biografias sobre personalidades que já se foram, como Juscelino Kubitschek, Santos Dumont e o papa João Paulo II, a jornalista Marleine Cohen voltou-se para os desafios das mulheres no ambiente corporativo, tema bem atual. Buscou respostas para questões que afligem o público feminino economicamente ativo.

Por exemplo: no mundo globalizado, como uma executiva deve se comportar quando vai fazer negócios com um cliente do Japão, país cujos códigos sociais são completamente diferentes? E como resolver o eterno dilema de conciliar os papéis de mãe, esposa e alta executiva sem enlouquecer?

Repleto de dados de pesquisas de mercado e entrevistas com especialistas, o livro "Como Escalar Montanhas de Salto Alto?" (Editora Saraiva) funciona como um manual de etiqueta para o ambiente corporativo. Mais que isso: leva a mulher a refletir sobre o sentido do trabalho em sua vida. "Estamos vivendo um momento histórico. A mulher tem a oportunidade de reformular o mundo corporativo, mostrando que pode ser uma líder com características femininas", fala a autora.

Aos 58 anos, Marlene conhece bem o desafio de conciliar as vidas pessoal e profissional. Separada e mãe de dois filhos, ainda acumula os ofícios de escritora e jornalista - e alimenta uma vontade de escrever ficção.

Como surgiu o interesse pelo tema do comportamento feminino no ambiente corporativo?

MARLEINE COHEN - Conhecia uma alta executiva que ia fazer uma viagem de negócios para a Índia e tinha dúvidas sobre como se comportar, por causa das diferenças. Seu medo era justificado, pois, se cometesse uma única gafe, poderia colocar tudo a perder entre as duas empresas. É curioso esse aspecto das diferenças culturais que envolvem o contato dos dois sexos. Se você tem um interlocutor japonês, pode colocar o negócio em risco se abraçá-lo na despedida. A globalização coloca em pauta essa questão: é preciso você se atualizar sempre sobre os costumes e cultura de cada país. Imagine se você tem um workshop com um colega indiano na Colômbia: como fica essa relação?

O livro é bastante otimista, sugerindo que é possível conciliar trabalho, vida pessoal e familiar. Mas, na prática, como fazer isso?

MARLEINE COHEN - A mulher deve observar seus próprios limites, lembrando-se de si mesma. Ver se o que está vivendo é o que quer para si, e não apenas o que a sociedade disse que é bom. Ficar totalmente imersa no trabalho é tão ruim quanto passar o tempo todo dentro de casa. Nenhum dos dois modelos é adequado. O ideal é compor o próprio universo com tempo para estudar, para o lazer e para si mesma, além do trabalho. Cada uma consegue isso de forma diferente, não há receita pronta. Esse equilíbrio deveria ser a meta de nossas vidas. Mais importante do que a quantidade de horas de trabalho é a qualidade do relacionamento com a empresa. Nos Estados Unidos, algumas firmas negociam o regime de trabalho em casa para não perder talentos femininos. No Brasil, isso está apenas começando.

Quais são os principais desafios para as mulheres neste momento?

MARLEINE COHEN - Os salários defasados, que são comprovadamente menores do que os dos homens. Isso acontece porque as empresas já esperam que a mulher "traia" o trabalho, porque costuma ser prioridade para ela ter uma família. Em algum momento, vai ficar com um filho que está com febre. Pensam que é uma mão de obra com a qual não podem contar.

Em que as mulheres ainda precisam melhorar no que diz respeito à atuação no ambiente corporativo? Quais são as piores gafes?

MARLEINE COHEN - Comportar-se de forma masculinizada. Não há nada mais sedutor, convincente e louvável do que uma mulher que chefia, mas que não se comporta como um chefe típico. Alguém que age de forma conciliadora, sensível, melhorando o ambiente. A presença maciça da mulher no ambiente corporativo torna este momento histórico. É uma oportunidade para a reformulação, para mudar as relações de trabalho. Mas muitas mulheres se esquecem disso e adotam as mesmas características masculinas. É essencial ter consciência da importância do momento atual.

Passada a polaridade da época do feminismo, que tipo de atitude corporativa o momento atual pede?

MARLEINE COHEN - O desafio é que, mesmo diante de situações estressantes, elas continuem dialogando com as pessoas e permaneçam numa atitude feminina, ao invés de adotarem o modelo masculino - batendo na mesa e agindo defensivamente. Manter-se cordial é a verdadeira revolução.

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