Em 2009, 198 homossexuais foram assassinados, aponta entidade

A cada dois dias, ao menos um homossexual foi assassinado no país em 2009. Levantamento divulgado pela ONG Grupo Gay da Bahia (GGB), que há 30 anos coleta informações sobre o tema, aponta que, no ano passado, 198 gays foram mortos de maneira violenta ¿ nove a mais do que o número registrado no ano anterior. Em 2007, a ONG registrou a morte de 122 homossexuais.

Matheus Pichonelli, iG São Paulo |

Entre as vítimas, de acordo com o levantamento, a maioria - 59% - era gays  (117 deles), seguidos por travestis (72) e lésbicas (9).

Ainda de segundo o GGB, no mesmo período, o México registrou, por exemplo, 35 mortes por homofobia. Bahia e Paraná, com 25 homicídios cada, são os Estados com maiores taxas ¿ só em Curitiba (PR) foram 14 vítimas. Já Pernambuco, que liderava o ranking de assassinatos, registrou 14 mortes em 2009, mesmo número de São Paulo e Minas Gerais.

Proporcionalmente, segundo o estudo, Alagoas é o Estado mais violento para a comunidade: 11 mortes para cada grupo de 3 milhões de habitantes.

No Nordeste, que concentra 30% da população brasileira, foram apurados 39% dos crimes envolvendo pessoas da comunidade LGBT. Isso significa que o risco de um homossexual do Nordeste ser assassinado é aproximadamente 80% mais elevado do que no Sul/Sudeste. A maioria dos crimes (60%) ocorre no interior do país.

As maiores vítimas, no geral, são jovens (41%) de até 29 anos ¿ seis eram menores de 18 anos, entre elas uma travesti de 16 anos morto a tiros no centro de Belém (PA). Entre as vítimas há também um aposentado de 72 anos, morto a marretadas no interior do Maranhão.

Segundo o estudo, embora as vítimas exercessem cerca de 40 profissões diferentes, boa parte (28%) delas era formada por profissionais do sexo.

O padrão, segundo o estudo, é que gays sejam mortos a facadas ou estrangulados dentro de suas casas, enquanto as travestis, por exemplo, são mortos, geralmente, a tiros.

Os chamados crimes de ódio são identificados quando as vítimas são mortas com muitos golpes e tortura. O detalhe do estudo é que em 80% dos crimes a autoria é desconhecida.

No Brasil, não existem estatísticas oficiais sobre crimes envolvendo homossexuais. Responsável pela pesquisa, o antropólogo Luiz Mott, fundador do GGB, acredita que os dados sejam apenas a ponta de um iceberg.

Isso representa provavelmente menos da metade do que ocorre na realidade. Infelizmente não existem estatísticas de crimes de ódio no Brasil. Muitos homossexuais escondem a situação e a polícia não tem recursos para identificar todos, disse.

Mitchelle Meira, coordenadora-geral de Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, órgão da Presidência da República, admite a dificuldade em se identificar crimes relacionados a homofobia, mas lista avanços nos últimos anos.

Ela afirma que, embora não oficiais, os dados elaborados pelo GGB são sérios e indicam informações relevantes sobre quantos casos aconteceram, por exemplo, no Nordeste, e as características dos crimes. Esses dados, segundo ela, servem para monitorar e traçar políticas públicas voltadas para a comunidade LGBT.

Ainda de acordo com a coordenadora, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos está implementando um serviço de disk denúncia relacionado à homofobia. O serviço deve começar a funcionar a partir de março.

Com esse mecanismo, diz a coordenadora, o governo poderá dispor de dados oficiais para comparar com levantamentos feitos pelas entidades como a GGB e também com base nos levantamentos produzidos por 14 centros de referência financiados com recursos federais ¿ outros 12 estão sendo instalados pelo país.

Quando se começa a trabalhar política LGBT, qualquer política, a tendência é que haja mais visibilidade e denúncias e os números sobre a criminalidade aumentam. Quando se tem essa visibilidade, e o tema é discutido, as instituições passam a aceitar o nome do transexual, por exemplo, na ficha da universidade, em sala de aula. E, quando se começa a ter noção de cidadania, a discriminação sobre esse grupo passa a não ser aceita e as denúncias aparecem, inclusive com a ajuda da família, que muitas vezes nega a orientação do ente para não se expor, explica.

Meira compara: Hoje se têm consciência sobre direito da mulher. Mas antes se dizia: em briga de marido e mulher não se põe a colher. Hoje se sabe que não e as pessoas passam a denunciar porque reconhecem o direito de a mulher não ser violentada.

Mott e Meira afirmam que uma forma de se detectar, e punir, crimes relacionados à homofobia é mobilizar Secretarias de Segurança e órgãos de Justiça. "Também fazemos um apelo à própria comunidade homossexual para que evite qualquer situação de risco, denunciando qualquer tipo de violência ou ameaça e evitando levar para dentro de seus lares pessoas desconhecidas, diz Mott.

Com informações da Agência Brasil.

    Leia tudo sobre: homossexual

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG