A imensidão do território brasileiro serve como matéria-prima para boa parte da obra da escritora norte-americana Ellen Bromfield Geld, de 77 anos. Embora ainda derrape vez por outra no seu português quase perfeito e prefira escrever no idioma em que foi alfabetizada, a autora conhece tão bem o País onde vive há 57 anos que é difícil alguém nascido por aqui não se surpreender com as histórias que tem para contar.

Autora de nove títulos, incluindo romances cujas tramas se passam em cenários do interior, como "O Pau d’Alho" e "Mulheres de Contenda", Ellen reúne agora suas lembranças de vivências e viagens em "Pelas Janelas da Fazenda - O Olhar de Uma Imigrante Americana no Vasto Interior do Brasil" (tradução de Cristina Cavalcanti, 296 págs., R$ 49,90). É um misto de livro de memórias e trabalho jornalístico - por anos, Ellen escreveu para o caderno Agrícola do jornal O Estado de S. Paulo - da autora que, ao longo de toda a vida, dividiu a escrita com a paixão pela agricultura.

A norte-americana chegou ao País em 1953, com o marido, Carson, o primeiro filho, Stephen, e a cadela Jenny. Já fazia algum tempo que o casal procurava um terreno para se assentar. A princípio, esse lugar poderia ser em sua Ohio natal, mas os planos mudaram quando travaram contato com o fazendeiro Manoel Carlos Aranha, e este sentenciou: "No Brasil há terra suficiente para todos, o problema é que poucos sabem cuidar bem dela." Foi o que bastou para a família aterrissar em solo brasileiro, tão confiante que não tinha nem como pagar a volta, caso tudo desse errado.

Ellen, filha do escritor norte-americano (e prêmio Pulitzer) Louis Bromfield (1896-1956), conta que herdou do pai o interesse por técnicas de cultivo. "Ele tinha uma visão romântica da vida na fazenda, e, vivendo com ele, aprendi coisas fundamentais para entender o que de fato significa cultivar uma terra. Por exemplo, que a terra está em nossas mãos somente por um tempo e deve ser passada para as próximas gerações em melhores condições do que nós a encontramos", diz a autora.

O livro é ainda recheado de curiosas crônicas sobre a vida no País a partir da metade do século passado, em especial no que diz respeito a fatos dos quais a história guardou somente a reação nas metrópoles. Como o dia do golpe militar de 1964, quando Carson e Ellen estavam em São Paulo, e os filhos, em Tietê. "Pegamos a estrada, temerosos de não conseguir voltar para casa, mas por sorte a viagem foi surpreendentemente tranquila. Tudo o que vimos pelo caminho foram alguns comboios muito duvidosos que não pareciam ter pressa de chegar a lugar algum e inúmeros caminhões do Exército escangalhados à beira da estrada", ela escreve. Pelas janelas da fazenda, Ellen aprenderia que longe das cidades até a história tinha um ritmo todo próprio. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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