SÃO PAULO - O médico Roger Abdelmassih, de 65 anos, acusado de supostos crimes sexuais contra 54 pacientes, disse em entrevista neste domingo que o anestésico propofol, que ele utiliza para a retirada de óculos das pacientes, pode provocar comportamento amoroso. O médico cita estudos em que a proporção seria de 3% a 4%.

Dados da agência norte-americana de vigilância de medicamentos (FDA, sigla em inglês) apontam que em menos de 1% dos pacientes que utilizam o anestésico propofol pode ocorrer comportamento amoroso. Para Abdelmassih, no entanto, isso poderia ser uma explicação para as acusações.

Médicos que têm experiência com o uso do anestésico ouvidos pela reportagem afirmam que não tiveram pacientes que manifestaram alucinações de conotação sexual ou de qualquer outro tipo. Os profissionais falaram sobre a medicação unicamente e não sabiam das alegações de Abdelmassih - ele afirma que o sedativo usado na clínica pode provocar comportamento amoroso. Nunca tive um relato de alucinação, afirma o anestesista e advogado Irimar de Paula Posso, que utiliza a droga há mais de 20 anos e atua em clínicas de reprodução assistida e no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Se isto ocorresse, muitas clínicas teriam o problema.

Não tive experiência de pacientes que tivessem vivenciado sonhos eróticos ou alucinações sexuais. Geralmente eles relatam sonhos bons, sem esta conotação, afirma o anestesista Alberto Vasconcelos, da maternidade Pro-Matre, de São Paulo.

Os especialistas consultados dizem que o propofol é um anestésico venoso, de ação rápida e curta duração e que traz menos reações adversas do que as drogas mais antigas, que causavam muitas alucinações, como a quetamina. É utilizado em exames, como a endoscopia, e em diversos procedimentos ambulatoriais. Também pode ser aplicado em cirurgias longas por meio de infusão contínua ou para induzir a anestesia geral. Normalmente, na reprodução assistida, não é necessário durante a transferência de embriões, diz Posso, mas apenas na retirada de óvulos.

Desinibição sexual

A bula brasileira do medicamento de referência, o Diprivan, da AstraZeneca do Brasil, alerta sobre a possibilidade de a droga causar, assim como outros anestésicos, desinibição sexual. O diretor médico da AstraZeneca, José Eduardo Neves, enfatizou que a desinibição sexual é um evento raro. Tanto a Sociedade Americana de Anestesiologia como a Britânica já informaram seus especialistas, a partir de casos reais, que pacientes sob efeito de diferentes anestésicos podem ter alucinações de conotação sexual e depois acusar médicos de abuso.

No entanto, a entidade Britânica informou em 2003 que médicos também já se aproveitaram dos efeitos adversos de anestésicos, como amnésia, para abusar dos pacientes. No Brasil, o pediatra Eugênio Chipkevitch, condenado por abuso sexual de crianças, utilizava o midazolam para facilitar ataques, mostraram investigações. A reportagem tentou ouvir na sexta a Sociedade Brasileira de Anestesiologia para tratar dos efeitos do medicamento, mas não obteve resposta.

Fabiane Leite e Karina Toledo

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