Educadores são contra o ensino fundamental aos 5 anos em favor da infância

Educadores são contra o ensino fundamental aos 5 anos em favor da infância Por Fábio Mazzitelli São Paulo, 04 (AE) - Victor faz 5 anos em 14 de julho e começou a ser alfabetizado nas brincadeiras da escola infantil. Yuri completa a mesma idade em 14 de abril e, também sem um ensino sistemático, lê frases em português e japonês, idioma da família.

Agência Estado |

Apesar de já terem iniciado o processo de alfabetização, os meninos só sairão da educação infantil para o primeiro ano do ensino fundamental após os 6 anos completos, em 2012, decisão tomada para protegê-los da precocidade.

As mães das crianças, que não se conhecem e vivem em regiões diferentes da cidade de São Paulo, dizem que procuraram ser sensíveis ao ritmo das crianças na hora de optar pela passagem sem pressa da pré-escola para o ensino fundamental, um movimento indicado pela maioria de pedagogos e psicólogos estudiosos do desenvolvimento.

"Fiquei meio perdida, em crise. Comecei a pesquisar, ouvi um colégio que disse que não havia problema em avançar, consultei uma amiga pedagoga e, conversando com o meu marido, tomei a decisão", diz a analista financeira Simone Marques Corsini, mãe de Victor. "Ele ainda não tem maturidade para carregar matérias e poderia ficar com problemas lá na frente, na aquisição de conhecimentos", acredita.

Nascida em Hiroshima, a administradora Akiyo Alexandre, mãe de Yuri, tomou como referência o ensino no país natal. "No Japão, só entram no primeiro ano crianças com 6 anos completos. Quero que ele curta mais a infância", diz. "Acho bom ele continuar aprendendo sem pressão", afirma.

Embora as escolhas de Akyio e Simone sejam as mais indicadas por educadores, a ampliação do ensino fundamental de oito para nove anos, oficializada em 2006, confundiu os pais e, na prática, criou uma discussão legal que permitiu que sistemas de ensino passassem a aceitar crianças com 5 anos no ensino fundamental.

A entrada precoce no fundamental pode até acelerar a vida escolar, mas interrompe a chamada segunda infância -
faixa de desenvolvimento que vai dos 3 aos 6 anos de idade - e é prejudicial para o desenvolvimento global da criança, segundo os especialistas.

"Começar um ensino sistemático com 5 anos não serve para nada e, sob o ponto de vista do desenvolvimento, é muito ruim", afirma Francisco Baptista Assumpção Júnior, psiquiatria especializado em transtornos de escolaridade e professor associado do Instituto de Psicologia da USP.

Resolução recente do Conselho Nacional de Educação, de 14 de janeiro, determinou que as escolas só aceitem no primeiro ano do fundamental crianças com 6 anos completos até 31 de março. A norma vale a partir de 2011. A posição é apoiada pelo Ministério da Educação, mas ainda não tem força de lei. Mesmo assim, algumas escolas já começam a se adaptar.

"Reorganizei as turmas dos pequenos já usando essa regra. Algumas mães reclamaram de o filho ficar no mesmo nível mais um ano, mas depois entenderam que esse é o melhor para a criança", diz Mônica Souza, diretora de uma escola infantil na Vila Mariana, zona sul da capital. "Só espero que haja uma norma nacional única nos próximos anos", diz.

BOXE

Normas em Vigor

- Resolução de 2010 do Conselho Nacional de Educação fixa ingresso no ensino fundamental de crianças com 6 anos completos até 31 de março. Vale a partir de 2011.

- Conselho Estadual de Educação de São Paulo fixa ingresso no fundamental de crianças com 6 anos até 30 de junho, mas abre exceção para escolas particulares, permitindo que matriculem como queiram no período de transição, que termina no final de 2010.

- Na capital paulista, as escolas públicas aceitam só crianças com 6 anos completos no início do ano letivo.

SEGUNDA RETRANCA

O perigo de encurtar a infância

Fernanda Flores, coordenadora do Centro de Estudos da Escola da Vila, credenciada pelo MEC para curso de pós-graduação voltado à educação infantil, alerta que entrar antes dos 6 anos no ensino fundamental encurta a infância.

- Por que não há acordo em relação à data de corte para entrada no ensino fundamental?
FERNANDA FLORES - A questão comercial é muito forte. O fundamental pode acolher 35 alunos por sala. Na educação infantil, por parâmetro de qualidade, não passa de 25. Entre professores, não há dúvida: é melhor aluno mais velho. Se todos entrassem com 6 anos no fundamental, a vida escolar seria muito melhor. Teria menos repetência e problema na escolaridade.

- Por quê?
FERNANDA FLORES - Se entrar antes dos 6 anos, você encurta a infância. No primeiro ano, a criança enfrenta rotina escolar progressivamente mais organizada, com lição de casa e atividades mais dirigidas, que exigem mais concentração. É dinâmica de trabalho mais controlada e que exige maior autocontrole. A educação infantil garante abordagem mais livre em relação à arte e à brincadeira. (F.M./AE)

TERCEIRA RETRANCA

"Eles entram muito cedo e saem imaturos para a escolha profissional", diz pedagoga

Embora trabalhe como orientadora educacional do Colégio Dante Alighieri, escola particular da capital que aceita matrícula de crianças com 5 anos no ensino fundamental, a pedagoga Silvana Leporace vê prejuízo aos alunos que entram precocemente nessa etapa.

"Eles estão saindo muito novos do ensino médio porque entram muito cedo. Na saída, ficam inseguros e não estão maduros para a escolha profissional", afirma a pedagoga, que acredita numa mudança de postura dos colégios nos próximos anos. "Existe uma revisão geral (em curso). A gente vai começar um novo ciclo", diz.

O Dante, assim como outras escolas particulares do Estado, permitem matrícula no primeiro ano de crianças que completem 6 anos até o final do ano letivo, o que abre caminho para alunos de 5 anos.

Isso é possível em São Paulo porque o Conselho Estadual de Educação liberou as escolas particulares para matricularem de acordo com seus regimentos internos durante o período de transição da lei dos nove anos no ensino fundamental, que termina neste ano.

A antecipação da matrícula no fundamental é chamada por educadores de "roubo da infância", uma tese rebatida por sindicatos de escolas particulares de todo o País, que defendem a matrícula aos 5 anos e fazem lobby pela aprovação de leis estaduais que formalizem tal prática. "Se a criança pequena for bem estimulada, não vejo problema entrar nessa etapa", diz Benjamin Ribeiro da Silva, presidente do Sieeesp, o sindicato das particulares paulistas. (F.M./AE)

TERCEIRA RETRANCA

Expectativa dos pais provoca a antecipação da vida escolar

Psiquiatra clínico há 30 anos, especializado no atendimento de crianças e adolescentes, o médico Francisco Baptista Assumpção Júnior tem certeza que, nos últimos anos, aumentaram os casos de transtornos de escolaridade em seu consultório. Explicações para isso, segundo ele, estão relacionadas a etapas suprimidas da infância, sobretudo o brincar.

"Se observar filhotes de animais, eles aprendem brincando. Brincam de lutar, de correr atrás do outro, de correr atrás das formigas... O brincar serve para a criança aprender como se relacionar com o indivíduo da mesma espécie", afirma o médico. "Quando falo com uma criança de 10 anos e ela diz que não tem tempo para brincar, não preciso nem de diagnóstico", afirma Assumpção.

O psiquiatra afirma que a antecipação da vida escolar das crianças guarda relação também com uma expectativa criada pelos pais. "Sinto um aumento grande das consultas porque tem uma demanda social. O pai quer ver o filho bem sucedido e isso está relacionado com dinheiro. Para isso, precisa desempenhar atividades rentáveis e a entrada precoce no universo escolar acontece assim", afirma o psiquiatra.

O médico relata já ter atendido casos em que o pai leva o filho ao consultório com a reclamação de déficit de aprendizado antes mesmo de a vida escolar se iniciar de forma sistemática. "Já recebi queixas de déficit de aprendizado aos 5 anos. Quem tem algum déficit nesse caso é o pai", afirma.

Para evitar a entrada precoce no ensino fundamental, o Ministério da Educação (MEC) promete, desde agosto do ano passado, enviar projeto de lei ao Congresso para unificar a idade de entrada nessa etapa da educação básica.

Segundo Maria do Pilar Lacerda, secretária de educação básica do MEC, o projeto deve ser enviado em breve ao Congresso, possivelmente ainda em fevereiro. "Temos que respeitar o tempo da criança", diz a secretária.

Para ela, sindicatos de escolas particulares fazem lobby pela possibilidade de entrada aos 5 anos no ensino fundamental porque se apoiam numa perspectiva exclusivamente "mercadológica". (F.M./AE)

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