Eduardo Galeano é homenageado pelo Mercosul e critica UE

Montevidéu, 3 jul (EFE).- O escritor uruguaio Eduardo Galeano evocou hoje o jogador Garrincha, o falecido presidente do Chile Salvador Allende e o líder guerrilheiro Ernesto Che Guevara, e criticou a decisão da União Européia (UE) sobre os imigrantes, ao ser declarado o primeiro Cidadão Ilustre do Mercosul.

EFE |

"Nossa região é o reino do paradoxo", afirmou o autor de "As Veias Abertas da América Latina", obra que foi usada como referência por vários governantes da América do Sul, entre eles o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao aderirem ao bloco.

"Paradoxalmente, Garrincha, arruinado desde a infância pela miséria e pela poliomielite, nascido para a desgraça, foi o jogador que trouxe mais alegria durante toda a história do futebol", disse o escritor.

Galeano acrescentou que "paradoxalmente, uma das principais avenidas de Santiago do Chile ainda se chama 11 de Setembro", disse.

"Não pelas vítimas das Torres Gêmeas, mas em homenagem aos carrascos da democracia no Chile. Não seria hora de trocar o seu nome e que passe a se chamar de Salvador Allende, em homenagem à dignidade e à democracia?", criticou.

"Por que será que Che Guevara, o argentino mais famoso de todos os tempos, o mais universal dos latino-americanos, tem o costume de continuar renascendo? Paradoxalmente, quanto mais o manipulam, quanto mais o traem, mais renasce", disse, durante um emocionado discurso de agradecimento.

Perante diplomatas de vários países ibero-americanos que participaram do ato, Galeano criticou a regra de retorno de imigrantes aprovada no último dia 18 pelo Parlamento Europeu.

"A Europa aprovou, há bem pouco tempo, a lei que transforma os imigrantes em criminosos. O Paradoxo dos paradoxos", destacou.

"A Europa, que durante séculos invadiu o mundo, fecha as portas nos narizes dos invadidos, quando eles retribuem a visita", ironizou.

Segundo o escritor uruguaio e novo Cidadão Ilustre do Mercosul, "a lei foi promulgada com uma assombrosa impunidade, que seria inexplicável se não estivéssemos acostumados a ser comidos e a viver com medo".

Galeano afirmou que o Mercosul faz parte de uma América Latina "organizada para o divórcio das partes, para o ódio mútuo e para a mútua ignorância".

"Somente ficando juntos seremos capazes de descobrir o que podemos ser, contra uma tradição que nos adestrou para o medo, a resignação e a solidão", declarou.

O escritor também se referiu à figura do herói libertador uruguaio, o general José Gervasio Artigas, e seu exílio no Paraguai, a partir de 1820.

Antes, o presidente do Comitê de Representantes Permanentes do Mercosul, o argentino Carlos Álvarez, que promoveu a condecoração concedida a Galeano, definiu o escritor como "uma figura que transcende as fronteiras ideológicas".

"Muitas vezes neste processo que é o Mercosul, a integração cultural fica subordinada a outras, e as homenagens são realizadas tardiamente ou nunca", acrescentou.

Após a leitura da decisão dos presidentes do bloco regional de designar Galeano o primeiro Cidadão Ilustre do Mercosul, Álvarez lhe entregou uma réplica da escultura que simboliza a integração e cujo original, criado pelo artista plástico uruguaio Gonzalo Ramírez, se encontra nos jardins da sede.

O bloco regional é integrado pelo Brasil, pela Argentina, pelo Paraguai e pelo Uruguai, com a Venezuela em processo de ingresso formal.

O presidente eleito do Paraguai, o ex-bispo Fernando Lugo, viajou para Montevidéu especialmente para participar da cerimônia, celebrada na sede do Mercosul.

Lugo afirmou que Galeano "é um manto da identidade" da América Latina e "uma trincheira de nossos sonhos e ilusões".

"Foi e é voz e tinta da esperança", comentou o presidente eleito do Paraguai. EFE jf/bm/db

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