Por Rodrigo Viga Gaier RIO DE JANEIRO (Reuters) - A economia brasileira contraiu-se menos que o esperado entre janeiro e março, mas ainda assim confirmou um quadro de recessão técnica com dois trimestre consecutivos de queda por conta da crise global.

Economistas avaliam que o dado melhor do início deste ano mostra que o pior dos efeitos da crise global sobre o país pode mesmo ter ficado para trás.

Em relação ao trimestre imediatamente anterior, o Produto Interno Bruto (PIB) caiu 0,8 por cento, informou o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta terça-feira.

Sobre o primeiro trimestre de 2008, o recuo foi de 1,8 por cento, o mais forte desde o quarto trimestre de 1998.

"Ao analisar a série encadeada do PIB a preços constantes, podemos dizer que voltamos ao nível do segundo trimestre de 2007. Voltamos quase dois anos", disse a jornalistas a economista do IBGE Rebeca Palis.

A economia brasileira não se retraía por dois trimestres seguidos desde o primeiro semestre de 2003.

Economistas consultados pela Reuters previam queda de 2,6 por cento na comparação trimestral, segundo a mediana de 25 respostas que variaram de queda de 1,2 a 3,8 por cento.

Na comparação com o primeiro trimestre do ano passado, a mediana de 26 projeções apontava queda de 2,0 por cento e os prognósticos variaram de alta de 1,5 por cento a recuo de 3,0 por cento.

"Com esse resultado mais forte, automaticamente o PIB previsto para este ano sobe pois a base está sendo alterada... Afasta bem o risco de crescimento negativo no ano", afirmou Marcelo Castello Branco, economista-chefe da BR Investimentos.

Frente ao último trimestre do ano passado, a formação bruta de capital fixo --uma medida dos investimentos-- despencou 12,6 por cento. Foi a maior queda desde o início da série histórica, iniciada em 1996.

Já o consumo mostrou alguma força. O das famílias cresceu 0,7 por cento e o do governo teve alta de 0,6 por cento.

Entre os setores, a indústria encolheu 3,1 por cento na comparação com o final de 2008, a agropecuária caiu 0,5 por cento e os serviços cresceram 0,8 por cento.

O IBGE informou ainda que a taxa de investimento ficou em 16,6 por cento do PIB no primeiro trimestre, a menor para o período desde 2005.

"Numa análise dos efeitos da crise sobre o PIB, esse trimestre foi pior porque a gente teve dois dados negativos, enquanto no quarto trimestre do ano passado o indicador trimestral ainda estava subindo bem como os investimentos", acrescentou a economista do IBGE. O instituto, no entanto, evita a classificação de recessão técnica.

CONSUMO TAMBÉM SOBE ANTE 2008

Em relação ao mesmo período do ano passado, a formação bruta de capital fixo recuou 14 por cento, enquanto o consumo das famílias cresceu 1,3 por cento e o do governo aumentou 2,7 por cento.

A indústria caiu 9,3 por cento e a agropecuária cedeu 1,6 por cento. Os serviços, por outro lado, subiram 1,7 por cento.

Segundo o IBGE, indústria e investimentos tiveram a maior queda desde 2006 nessa comparação.

A construção civil, que pesa 40 por cento no cálculo do investimento, encolheu 9,8 por cento ante 2008 e a produção de máquinas e equipamentos caiu mais de 16 por cento.

As exportações também apresentaram queda recorde no primeiro trimestre em razão da retração da demanda mundial. As vendas externas caíram 15,2 por cento ante igual período de 2008 e 16 por cento sobre o final do ano passado.

O impacto da queda nas vendas externas foi praticamente anulado pela redução nas importações, de 16 por cento frente ao primeiro trimestre de 2008 e de 16,8 por cento ante o trimestre imediatamente anterior.

Os juros futuros reagiram com alta à divulgação de que a economia estava menos fraca que o temido na abertura do ano. Para alguns analistas, o espaço para corte mais agressivo da Selic nesta quarta-feira fica mais limitado.

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