E aquela tábua virou um móvel Por Equipe AE São Paulo, 07 (AE) - Em 1974, ele era um surfista que recolhia pedaços de madeira trazidos pelo mar e com eles criava peças para a casa. Muito antes de a ecologia virar ‘obrigação’ entre os habitantes do planeta, Carlos Motta - um expert em cadeiras, arquiteto e designer premiado dentro e fora do País - demonstrava a percepção pioneira: o hobby virou obsessão e, depois de terminar a universidade, ele montou ateliê no bairro da Vila Madalena, na zona oeste de São Paulo, onde começou a trabalhar de modo a causar o menor impacto ambiental.

"Se depender de meus móveis, nenhuma árvore será cortada", afirma Motta, de 57 anos, que prefere usar madeiras de redescobrimento, ou seja, já utilizadas na construção civil. "Sempre respeitei a regra dos três ‘erres’ - reduzir, reciclar e reutilizar", diz ele, que há 22 anos surpreendeu ao erguer uma casa no litoral norte paulista idealizada só com madeiras fora de risco de extinção.

Enquanto Carlos Motta pescava do mar sua matéria-prima, outro precursor do ecodesign, o arquiteto fluminense Maurício Azeredo, procurava no cerrado e na Amazônia madeiras que pudessem substituir as já largamente utilizadas, como o mogno, o pau-marfim e a cerejeira. Indignado com a destruição impiedosa, ele mergulhou fundo num estudo do desperdício, buscando madeiras alternativas.

Hoje, 35 anos depois de ter iniciado um catálogo de espécies pouco conhecidas, Azeredo, de 60 anos, mantém uma marcenaria em Pirenópolis (GO), de onde saem peças feitas com madeiras como marupá, pau-ouro, vinhático e muirapiranga.

TÉCNICAS DE MARCENARIA
Nos anos 50, muito antes de Carlos Motta e Maurício Azeredo, porém, Zanine Caldas (1919-2001) já manifestava preocupação com o desmatamento. Em razão disso, racionalizou a produção de sua Fábrica de Móveis Z, evitando desperdícios.

Na década de 60, passou a usar troncos de árvores descartadas pelas madeireiras para construir artesanalmente o que chamava de "móvel-denúncia". Mas se Azeredo, Motta e o mestre Zanine tiveram de ir à caça de madeiras desprezadas pelo mercado para defender o meio ambiente, o mesmo não aconteceu com a designer autodidata Etel Carmona.

Dona de uma movelaria em São Paulo que leva seu nome, Etel, de 59 anos, começou a trabalhar com madeira em razão de um contratempo com a construção de sua casa de campo: depois de pronta e paga, a parte de marcenaria ficou deplorável. A empresa contratada não aceitou as reclamações, mas um funcionário resolveu, por conta própria, refazer portas, janelas e armários.

Acontece que ele também não tinha a menor habilidade. Era o ano de 1990 e Etel foi atrás das técnicas de marcenaria. Inspirada em Joaquim Tenreiro (1906-1992) e Sergio Rodrigues, ela pesquisou em antiquários, brechós e até mesmo no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. "Queria resgatar a maestria de antigamente", lembra. Contato daqui, contato dali, ela conheceu Moacir Tozzo, em Campinas - um ‘sábio’ na arte de trabalhar a madeira. Com ele, abriu uma marcenaria.

Em pouco tempo, o refinamento do mobiliário e a preocupação social da empresa, de ensinar o ofício a jovens e evitar desperdício no processo de fabricação, chamaram muita a atenção de ONGs ambientalistas. Resultado: Etel Carmona foi convidada, em 1999, a conhecer em Itacoatiara (AM) a primeira floresta certificada do Brasil. "Nenhum designer tinha colocado os pés naquela mata de 123 mil hectares só de árvores catalogadas dentro dos critérios do manejo sustentável. Dali saíram as primeiras madeiras certificadas pelo selo FSC (Forest Stewardship Council)", conta. "Foi assim que os meus móveis passaram a ser feitos exclusivamente com essas espécies."

CONSTRUIR SEM DESTRUIR
Se o mercado já oferece, para decorar, boa variedade de móveis ‘do bem’, a mesma fartura não pode ser comemorada quando o assunto é a bioconstrução. Poucos projetos ostentam madeiras de manejo sustentável, não por falta de iniciativa dos arquitetos, mas sim por questões culturais. "A madeira, aqui, é quase sempre vista como material frágil e secundário na estrutura de um imóvel", diz o arquiteto

Marcelo Aflalo, o primeiro a construir em área urbana usando eucalipto reflorestado industrializado.

A casa, destinada a ele e sua mulher Marta, também arquiteta, é exemplo de pioneirismo. Para construí-la, em São Paulo, em 1996, Marcelo queria material que não agredisse o meio ambiente, se adaptasse às irregularidades do terreno e gerasse pouco desperdício. Foi preciso estudar 28 variedades de eucalipto de reflorestamento para descobrir a que mais se adaptava à industrialização das pranchas.

Com a ajuda da Escola Politécnica da USP e o apoio da indústria papeleira Klabin, foi eleito o eucalipto-grandis. Os 270 m² de área construída consumiram 70 m³ de madeira e geraram entulho para apenas meia caçamba. A obra chegou a ser finalista do Prêmio Mies van der Rohe, na Espanha, em 2000.

CONTRA O DESPERDÍCIO
Para materializar seu projeto, Marcelo Aflalo contou com o know-how da Ita Construtora, que desde 1980 trabalha com madeiras ecológicas. A empresa é uma das poucas no Brasil a executar estruturas pré-fabricadas de madeiras extraídas de áreas de manejo sustentável autorizado pelo Ibama ou com certificação FSC (de R$ 300 a R$ 700 o m² da estrutura). Empregando sobretudo cumaru, seu método construtivo, inspirado na obra de Zanine Caldas, praticamente não produz desperdício: as sobras se transformam em ripas e também em combustível das serrarias.

A arquiteta Beatriz Meyer desde 2003 usa madeiras comercializadas pela Ecolog, de áreas florestais sob o regime de bom manejo e certificadas pelo FSC. Para ela, o conceito de sustentabilidade tem de estar ligado ao uso do que a natureza oferece em determinado momento. "Se não há disponibilidade de um lote de uma só madeira, misturo o que encontro. Harmonizando veios e tonalidades, o resultado é sempre favorável tanto sob o ponto de vista ecológico quanto estético."

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