Duas obras inéditas mostram genialidade da criança Mozart

Wanda Rudich. Viena, 2 ago (EFE).- O extraordinário virtuosismo necessário para interpretar duas composições de 1763-1764, consideradas até pouco tempo atrás anônimas, acabou revelando que o autor das obras foi o gênio musical da então criança prodígio Wolfgang Amadeus Mozart, que as compôs quando tinha apenas entre 7 e 8 anos.

EFE |

Assim confirmou o diretor do departamento científico da Fundação Internacional Mozarteum, Ulrich Leisinger, em declarações por telefone à Agência Efe em Salzburgo, após apresentar nesta localidade, pela primeira vez ao público, as duas peças, uma das quais seria um fragmento do primeiro concerto para piano de Mozart.

Especialmente a partitura "de extraordinário virtuosismo, um Molto Allegro que evidentemente é o primeiro movimento de um concerto para cravo em sol maior", composto em 1763-1764, é uma sensação histórica, que lança novas luzes sobre o desenvolvimento do talento de Mozart, disse o especialista.

Com uma entrevista coletiva e um concerto na terra natal do célebre autor de "A Flauta Mágica", a fundação revelou hoje os detalhes da descoberta, sem esperar que as obras fossem integradas no Catálogo Köchel, que enumera as quase 700 composições de Mozart.

O austríaco Florian Birsak estreou as obras mundialmente, mais de 240 anos após a composição, interpretando-as em um instrumento original da época: o cravo.

Trata-se de um amplo movimento de concerto e um prelúdio que estão no final do "livro de notas de Nannerl", um conjunto de peças e exercícios musicais que Leopold Mozart compilou em 1759 para a filha Maria Anna (apelidada carinhosamente de Nannerl).

O "livro de notas de Nannerl" já havia sido publicado nos anos 50, mas estas peças "passaram despercebidas durante muito tempo, porque não têm o nome do autor. Acreditava-se que eram anônimas e que Leopold Mozart só as tinha transcrito. Simplesmente, ninguém tinha se fixado nelas", disse Leisinger à Efe.

O especialista está agora "praticamente certo" de que quem as compôs foi Mozart quando criança, mas, como ainda não dominava o suficientemente bem a escrita de partituras, as tocou em um cravo diante do pai, e este escreveu as notas.

Também está convencido de que, embora o escrito abranja apenas a parte solista do cravo, pertence a um concerto completo, com orquestra, que a família Mozart estudou profundamente.

São muitos os "indícios" de que existiu uma versão completa e que, inclusive, foi interpretada em público, afirmou.

Já se sabia que Mozart começou a compor aos 5 anos, mas "não se conhecia uma composição tão complexa dele nesta idade", já que o primeiro concerto para piano do compositor data de 1773, quando tinha 17 anos, disse.

Além disso, a peça reflete a extraordinária capacidade técnica dos jovens irmãos Mozart para tocar piano, algo que, segundo Leisinger, até agora se conhecia apenas através de comentários escritos de contemporâneos, mas esta descoberta é "a primeira prova" disso.

"É quase um pouco louco o que o compositor (destas peças) exige do intérprete, com passagens muito velozes, o cruzamento de mãos e saltos selvagens", disse o pianista Robert D. Levin, que fez uma reconstrução da partitura do resto do concerto, segundo um comunicado da fundação.

"Parece-me muito verossímil que o movimento seja obra do jovem Mozart, que, com isso, queria mostrar o que podia fazer", acrescenta Levin, na nota.

Considera-se uma confirmação deste fato as anotações do trompetista da Corte de Salzburgo Johann Andreas Schachtner, amigo próximo da família Mozart, onde comenta que a criança tinha se atrevido a compor um concerto.

A respeito, Leopold Mozart teria comentado ao amigo: "vê o senhor (...) como tudo está posto em ordem e com regularidade, só que não serve, porque é tão extraordinariamente difícil que nenhum ser humano estaria em condições de interpretá-lo".

O pequeno Mozart, presente na conversa - segundo as anotações de Schachtner - teria respondido: "por isso é um concerto, é preciso praticar até poder tocá-lo".

A Fundação Mozarteum reconhece que não há prova de que a lembrança relatada corresponda totalmente à realidade, mas a equipe de 12 cientistas dirigida por Leisinger se baseou em outros muitos indícios, após se deterem nestas obras pela primeira vez ao elaborar a primeira edição de fac-símile do manuscrito do "livro de notas de Nannerl", que será publicado no segundo semestre deste ano. EFE wr/an

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