Com mais de cinco mil partos no currículo, Suely Carvalho, de 57 anos, admite: ¿eu nasci pra isso, não tem outra coisa pra eu fazer na vida¿. Ela, que, em 1991, fundou a Organização Não Governamental (ONG) Centro Ativo de Integração do Ser (CAIS) do Parto, em Olinda, Pernambuco, atende mulheres em busca de um parto com muitas rezas, ervas e sem nenhuma intervenção médica.

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Dona Suely, de 57 anos
O gosto de Suely pela profissão começou em 1974, quando se inscreveu para um curso de seis meses de atendente de enfermagem, na cidade de Paranaguá, no Paraná. Durante o período de estágio, foi acompanhar um parto pela primeira vez. Quando vi a cabeça do bebê saindo perdi a noção de todas as instruções. Fui para a mesa, peguei na mão da mulher e comecei a chorar dizendo que ia dar tudo certo, conta. Quando a emoção passou, veio o medo de ser demitida por não obedecer às ordens de só observar. Porém, acabou contratada para trabalhar no hospital da cidade. Você tem o dom, me disse a enfermeira, relata Suely.

No Hospital Paranaguá, ela ficou de 74 a 1977. Em seguida, foi transferida para o Hospital Modelo, na capital paranaense, onde ficou até 1982. Neste período, pelas suas contas, realizou cerca de 4600 partos. Em 78, mesmo sem nenhuma vontade de ser enfermeira, ela se matriculou em uma faculdade. Entrei por uma questão política. A relação com os médicos era muito desigual. Pelo fato de eu não ter diploma eles não me respeitavam, afirma.

Formada e insatisfeita, decidiu que não queria mais seguir a rotina imposta pelos hospitais, que, segundo ela, só dificulta os partos. Ele deixa de ser natural. Às vezes, a mulher chega com dilatação boa, mas só por estar no hospital se sente constrangida. Ninguém pode dizer que é um ambiente confortável ou gostoso, avalia.

Separada, com três filhos, ela pediu demissão e se mudou para Olinda, em Pernambuco, após pesquisar sobre o Estado e descobrir que muitas mulheres ainda praticavam o parto tradicional. Morei em quarto de pensão e trabalhei com vendas para conseguir dinheiro, mas foi bom porque o emprego me permitia viajar e ir ao encontro das parteiras, diz. Foi desses encontros que nasceu a ONG Cais do Porto, formada por 14 pessoas ¿ sendo quatro parteiras - que atende cerca de 150 pessoas por mês. A organização faz também o acompanhamento da gestante durante a gravidez, promove encontros de orientação entre os casais e oferece cursos de firmação de parteira e de doula.

Segundo Suely, cerca de 80% das mulheres que a procuram são de classe média e a grande maioria possui plano de saúde. Já recebemos casais até da França, Itália e Alemanha para ter o bebê aqui conosco, afirma. Para ela, isso reflete a busca de mulheres de várias partes do mundo por um parto da forma mais natural possível.  Às vezes, o bebê está sentando, daí a gente faz manobras para virá-lo. Em outras situações, quando a mulher não engravida, fazemos rituais de fertilidade. Trabalhamos sempre com energização e os quatro elementos da natureza, diz.

Com um discurso envolto em superstições e espiritualismo, ela considera que a dor do parto varia conforme o estado emocional da mulher e que problemas passados podem vir à tona no momento do nascimento do filho. A mulher acessa o seu lado mais primitivo. A dor do parto é uma dor amiga, que vem para ajudar. Agora, as dores da vida doem muito, acrescenta.

O valor cobrado pela ONG varia de R$ 50 a consulta até R$ 750 o trabalho de parto em casa ou no hospital. Porém, este preço, segundo a enfermeira, é negociável e quem não pode pagar recebe o mesmo tratamento. Durante muitos anos não cobrava nenhum centavo. Já fui para a casa de gestantes pagando táxi do meu bolso, mas, chegou o momento em que a relação ficou injusta, porque muitas têm condição de pagar, afirma.

Muito além de um emprego, Suely define que ser parteira é servir como uma ponte entre a mãe e o bebê. Sou um instrumento. Acredito que estou cumprindo uma missão e fico muito feliz de vivenciar o momento mais bonito da humanidade, que é mulher parindo, afirma.

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