Dona de safári ilegal, fazendeira já chefiou ONG de meio ambiente

Vídeo mostra safári em busca de onça no Pantanal. Animal é perseguido, leva tiro na cabeça e, finalmente, é atacado por cachorros

Helson França, iG Mato Grosso |

No Pantanal de Mato Grosso do Sul, onças e outros animais em extinção foram mortos por turistas brasileiros e estrangeiros. Cada um dos turistas pagava de US$ 30 mil (R$ 49 mil) a US$ 40 mil (R$ 64,8 mil) para praticar expedições de caça aos animais. Na ação desencadeada na noite de quinta-feira (5), a Polícia Federal descobriu que os caçadores se reuniam na fazenda Santa Sofia, localizada em Aquidauana (159 quilômetros de Campo Grande), de onde partiam os safáris. O lugar surpreendeu os policiais. 

nullA dona da fazenda é a pecuarista Beatriz Rondon. Ela é ligada ao setor de proteção ambiental do Estado e presidiu a Sociedade para a Defesa do Pantanal, uma organização não governamental de defesa do meio ambiente. Além disso, ela conseguiu com que a fazenda fosse reconhecida como uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). Nesta categoria, ela é obrigada a conservar a diversidade biológica da área e também é isenta de pagar alguns tributos. Antes disso, ela teve de provar que conserva a fazenda - o que também é objeto de investigação pela polícia.

“A caça às onças e a outros animais acontecia há aproximadamente 15 anos”, afirmou o delegado federal Alexandre do Nascimento, responsável pelo inquérito instaurado para cuidar do caso.

O Ibama multou Beatriz em R$ 105 mil. Ela teve dois agravantes: um deles, o fato de a fazenda ser uma unidade de conservação. O segundo,  por se tratar de abate de animais silvestres para fins turísticos.

De acordo com o delegado, “a finalidade dos safáris era matar as onças pintadas. O couro é considerado o grande troféu dos caçadores. Mas nem sempre conseguiam abatê-la. Quando isso acontecia, os caçadores matavam outros animais por pura diversão”, afirma Alexandre.

As expedições

As expedições duravam cerca de uma semana e eram formadas por grupos de, geralmente, oito pessoas. A maioria era de turistas estrangeiros vindos dos Estados Unidos e da Europa. O anúncio dos safáris era feito via internet. O vídeo encaminhado por um americano à Polícia Federal  funcionava como um convite à caçada.

Na filmagem, toda narrada em inglês, um grupo de turistas acompanhado pelo caçador de onças Antônio Teodoro Melo e por Beatriz vão em busca de uma onça parda no topo de uma árvore. Em seguida, eles atiram. O animal cai morto. Na sequência, eles cercam uma onça pintada. Depois de receber um tiro, ela cai e agoniza. Um caçador então efetua mais um disparo à queima-roupa, na cabeça do animal, que morre.

Divulgação/Polícia Federal
Carcaças de animais apreendidas pela Polícia Federal no Pantanal de Mato Grosso do Sul
Nessa cena, a proprietária da fazenda Santa Sofia aparece e fala para a câmera que “é uma fêmea muito linda, mas estava matando o meu gado”.

De acordo com o delegado, todas as pessoas que aparecem no vídeo podem responder por pelo menos quatro crimes: contra a fauna brasileira, posse de arma de uso restrito, formação de quadrilha e tráfico internacional de armamentos.

A caçada começou a ser desarticulada com a operação Jaguar 2. Na fazenda, os policiais federais encontraram e apreenderam 12 galhadas de cervo, dois crânios de onça, uma mandíbula de porco monteiro, uma pele de sucuri com 3,5 metros, cinco revólveres calibre 38, uma pistola 357 (de uso restrito), uma carabina, dois fuzis, 17 caixas de munições de diversos calibres, dois alforjes (bolsas usadas durante a caça) e dois tubos de turro, que quando soprados emitem um som para atrair onças.

“Não houve prisões, pois não foi feito flagrante. Todo o material apreendido está sendo periciado. Quando o trabalho for finalizado, iremos juntar todos os elementos e provas para, se for o caso, pedirmos a prisão dos envolvidos”, explicou o delegado.

Ele disse que ainda não ouviu Beatriz e que ela está em São Paulo. Segundo o delegado, o advogado da pecuarista, Renê Seufi, disse que sua cliente é inocente e que o que aparece nas imagens não passa de montagem. A reportagem entrou em contato com funcionários da pecuarista, mas ninguém retornou as ligações.

Divulgação/Polícia Federal
Pele de cobra e armas utilizadas pelos caçadores no Pantanal de Mato Grosso do Sul

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