Doméstica lutava para terminar de pagar casa que foi soterrada

O deslizamento no Morro dos Prazeres por causa da chuva trouxe medo e tristeza aos moradores da comunidade. Tamirames Almeida de Santana, de 14 anos, disse ter confirmado com bombeiros a morte de sua sogra de consideração, como chamou Imaculada, dona de casa que quase não parava na própria residência. Trabalhava o dia todo, há mais de um ano, para pagar a moradia que caiu e, no dia da tragédia, estava em casa porque pediu folgas para aproveitar a Páscoa com a família.

Vicente Seda, iG Rio de Janeiro |


Arte iG

Segundo Tamirames, Tiago, de 16 anos, seu ex-namorado Júnior, 19, Talita, 20, e Romerito, 21, todos filhos de Imaculada, também estavam no local na hora do deslizamento. Tiago estaria internado, fora de perigo, Talita e Romerito, o mais velho, desaparecidos, e Júnior também sob cuidados médicos, mas em estado mais grave do que Tiago.

A Imaculada quase não ficava em casa. No sábado, soube que ela viria e fui visitar. Quando cheguei, ela estava deitada e deu um pulo quando me viu. Chorou, falou que me amava muito, que estava com saudade e que eu ainda era a nora preferida dela. Eu disse a ela que também era a minha sogra preferida. Parecia que ela estava prevendo algo, afirmou Tamirames, sem esconder o medo de permanecer no Morro dos Prazeres, onde vive desde que nasceu.

É muito medo. Ninguém lá em casa conseguiu dormir. Não dá mais para viver aqui. No dia do deslizamento, parecia uma explosão. Eu moro um pouco mais para cima, mas bem perto. Eram casas lindas, não era para cair. A Imaculada trabalhava desse jeito para acabar de pagar a casa, era manhã, tarde e noite, todo dia. No fim de semana cuidava de um casal de idosos, completou a menina que não quis ser fotografada.

Vicente Seda
Moradores do Morro dos Prazeres acompanham o trabalho dos bombeiros


Ílson Luiz Soares, que completará 15 anos em maio, não chegou a presenciar o deslizamento. Não estava no morro na hora da tragédia, mas também conhecia Imaculada, mãe do seu amigo Tiago, e a chamava de irmã. Não era freira, mas a chamávamos assim por causa da igreja, ela era da Assembleia de Deus do Rio Comprido, contou.

Ele disse ter conversado com Tiago na sexta-feira e que havia algum tempo desde a última vez que encontrou o amigo. Conversamos sobre coisas da igreja mesmo, nada demais. Eu não moro tão perto, mesmo sendo aqui do morro, então a gente se encontrava pouco. Nunca vi nada assim, só na televisão.

Medo da chuva

O caminho até o local do deslizamento, chegando ao Morro dos Prazeres pelo Largo das Neves, em Santa Teresa, é relativamente tranquilo. Algumas ruas estão com barro no asfalto, mas nada que atrapalhe a passagem de veículos.

O único trecho complicado visto pela reportagem do iG  foi na rua Almirante Alexandrino, seguindo o trilho do bonde logo após o Largo das Neves, onde um deslizamento derrubou um poste com cabos de energia no meio da rua. Nas proximidades do local da tragédia no morro, muitos curiosos e lixo espalhado pela rua. Qualquer sinal de chuva, como a que começou leve por volta das 12h de segunda-feira e logo parou, é sinônimo de medo.

Vicente Seda

Carro atravessa trecho de rua afetado pela chuva em Santa Teresa

Dia de caos

Na terça-feira, o Rio de Janeiro viveu um dia de caos. Além das mortes registradas, a maioria das vítimas de deslizamento de terra, 202 pessoas ficaram feridas após uma forte chuva que atingiu o Estado.

As aulas foram suspensas, serviços públicos tiveram o expediente cancelado, o aeroporto Santos Dumont ficou fechado durante boa parte da manhã e empresas cancelaram a venda de bilhetes com destino para o Rio.

Esta é considerada a pior chuva já vista no Rio de Janeiro . Em 24 horas, o número de mortos superou o registrado nos quatro meses de verão em São Paulo.

Dramas e relatos

Leia também:

    Leia tudo sobre: chuvasrio de janeiro

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG