Dois interpretes dão aulas de atuação em seus espetáculos no FILO 2009

LONDRINA ¿ Norberto Presta e Matteo Belli, apesar das diferentes nacionalidades, têm em comum o fato de mostrarem aos espectadores do FILO (Festival Internacional de Londrina) 2009, grande parte alunos do curso de Artes Cênicas da UEL (Universidade Estadual de Londrina), a precisão da técnica vocal para interpretações ricas em nuances, modulações e diferentes ritmos que fazem da palavra partitura musical. Ambos têm a Itália como sede de seus trabalhos.

Michel Fernandes, especial para o Último Segundo |

Norberto Presta, argentino que reside na Itália desde 1981 ¿ quando participou da ISTA (International School of Theatre Antropology) -, apresentou o solo "Fragmentos de Vidas Divididas", em que a condição do não reconhecimento de si mesmo, olhar no espelho e não saber quem é na imagem refletida é o tema que utiliza para criar uma forma dinâmica e participativa na relação público-artista.

Aqui o texto fica num plano secundário ao do trabalho do ator que se utiliza de instrumentos básicos que definem o jogo íntimo que consegue estabelecer com a plateia. Poucas cadeiras circundam a arena nua em que o ator, vestido de pijama coberto por um roupão (mais íntimo
impossível) entra, logo após o público, e demarcam o teor íntimo que esses 60 minutos proporcionam, como se fossemos partícipes daquele recorte de vida (ou de não-vida) a que o protagonista está entregue.

Os recursos parecem simples, mas exigem uma segurança e despojamento do ator. Apesar de não percebermos a olho nu, sabemos estar ali um empenhado pesquisador dos instrumentais que seu corpo e espírito oferecem ao desempenho de ator. Nesse quesito reconhecemos duas habilidades peculiarmente dominantes, o uso da voz ¿ na modulação, na respiração, no ritmo etc. ¿ e na precisão e limpeza de seus instrumentos gestuais.

Os ressoadores vocais de Matteo Belli

Sem figurinos, usando apenas uma camiseta cinza-claro e uma calça escura, sem maquiagem e cenários, a performance do italiano Matteo Belli teve tom de exercício didático, o que revela extrema preocupação da diretoria do FILO (presidida por Luiz Bertipaglia) em formar o espectador londrinense e aos que comparecem ao festival, em que ele nos apresentava os diversos personagens e suas gêneses ¿ para utilizar um termo que remete à especulação biográfica do personagem pelo ator ¿ e, na sequência, dava a vida aos seres do Inferno, um dos volumes da Divina Comédia, de Dante Alighieri.

Utilizo aqui o termo técnico ressoador, cunhado pelo polonês Jerzy Grotowiski, por acreditar que seu significado serve para ilustrar muito bem o que se viu em cena. Ou seja, Matteo Belli utiliza diferentes pontos vocais e seus respectivos timbres, sonoridades e registros, apoiado por sutis diferenças corporais compondo em sua atuação solo, partitura múltipla, como se fosse um único músico executando uma sinfonia.

Aliás, sua formação como músico parece ser instrumento para que o artista faça de um monólogo uma composição dialógica entre os diferentes personagens que interpreta.

* Michel Fernandes viajou a convite do FILO 2009

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