Doenças do sistema respiratório aumentam 40% durante o inverno Por Giuliana Reginatto São Paulo, 17 (AE) - Não é só o sistema respiratório que sofre nesta estação. Circulação, ossos e pele também ficam suscetíveis.

E há quem seja alérgico ao próprio frio. Espirro, tosse, coriza, garganta inflamada e dores de cabeça. Essa é a definição de inverno para a comerciante Daniela Bruscalin, 26 anos. "Todo ano é a mesma coisa: assim que o frio chega eu fico doente. Tenho pelo menos dois resfriados nesta estação. A rinite também piora muito no período", diz ela. Para enfrentar o clima, carrega na bolsa um vidro de vitamina C e capricha nos antigripais.

Daniela entra na estatística dos doentes sazonais. De acordo com a Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial (ABORL-CCF), o índice de doenças que acometem o sistema respiratório aumenta em 40% no País durante o inverno. No contexto mundial, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que essas infecções tripliquem nos períodos mais gelados.

Gripe, resfriado, rinite, sinusite, bronquite e asma são tão comuns nas épocas frias do ano que receberam o apelido de ‘doenças de inverno’, termo considerado impreciso pelos médicos. "Não são doenças que ocorrem só no inverno. É preciso ter uma visão global da situação e não só culpar a natureza. Mais agressivo que o frio para as vias respiratórias é a poluição", afirma Paulo Olzon, chefe da disciplina clínica médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

O especialista acredita que a intervenção humana na natureza tem mudado o curso de certas doenças. "É verdade que no inverno as pessoas permanecem mais em ambientes fechados, mas com o advento de transportes como o metrô, por exemplo, criamos um facilitador permanente de disseminação de doenças infecciosas", diz.

Olzon explica que o ar frio e seco estimula a concentração de poluentes. "O sistema respiratório tem um muco protetor que retém partículas de poeira e impurezas. Com o ar seco, esse muco se torna viscoso e funciona com dificuldade. Soma-se a isso a maior concentração de poluentes pela falta de chuva e teremos a agressão às vias respiratórias."

Para a psicóloga Silvia Galli Oliveira, 53 anos, a falta de umidade no frio traz desconforto dobrado. "Se esfria a rinite ataca, o nariz coça e fica irritado. É justamente no nariz que minha psoríase aparece com intensidade. Além disso, no inverno os banhos quentes ressecam mais a pele. A dica é ter sempre um vidro de hidratante na bolsa para controlar o desconforto", conta. Esse é um dos conselhos que ela oferece na AAPP (Associação de Apoio aos Portadores de Psoríase, fundada por ela.

A psoríase é uma doença dermatológica que pode provocar descamações, feridas e bolhas. Também entram no grupo das alterações de pele agravadas pelo frio a dermatite atópica e a caspa. "A queda da temperatura e a baixa umidade deixam a pele mais suscetível a inflamações", diz o médico Gilvan Alves, da Sociedade Brasileira de Dermatologia. Dados do Hospital das Clínicas apontam aumento de quase 40% na incidência de pacientes que procuram o médico no inverno com queixas de coceira, pele seca, descamação e feridas.

ALÉRGICOS AO INVERNO
As verdadeiras doenças de inverno, diretamente ligadas à baixa temperatura, são raras. Entre elas está a urticária ao frio, alergia que desencadeia vermelhidão e brotoejas em peles hipersensíveis a ambientes gelados. Outra, de natureza reumática, é a doença de Raynaud, que provoca contrição das pequenas artérias, sobretudo na mão, levando à diminuição da sensibilidade. Este é o caso da atendente Eunice Serôdio, 38 anos. "Fiquei assustada ao ver meus dedos brancos e sem sangue no contato com a água fria. O sangue voltava de repente, deixando os dedos dormentes", relata.

Eunice conta que descobriu-se doente após se mudar de Belém para São Paulo, há oito anos. "Morava em um local muito quente, sem contato com inverno forte. Tive os primeiros sintomas ao chegar aqui. Era camareira e trabalhava mexendo na água o tempo todo. Agora, com o frio, só uso torneira de água quente em casa", diz.

A mudança brusca de ambiente trouxe problemas também para Gabriela Spezzatto, 17 anos. Por conta do trabalho do pai, ela trocou Rondônia pelo gelado Rio Grande do Sul em 2005. "Passei a sentir muita dor nos pés. Às vezes não conseguia andar até a escola, só subia escada com ajuda. Levou um ano até diagnosticarem o reumatismo", diz. Em janeiro, ela escapou do frio ao se mudar para o Rio Grande do Norte. "Melhorei 90%. O médico disse que o frio deve ter feito o reumatismo se manifestar."

Na opinião de Olzon, a adaptação humana ao frio, em seus diferentes graus, é determinada pela genética. "O padrão genético dos povos nórdicos, por exemplo, suporta melhor o frio. Há outros fatores importantes, como o acúmulo de gordura corporal, que age como isolante térmico. O fundamental para todo humano é manter estável sua temperatura. Somos homeotérmicos, ou seja: faça frio ou calor devemos ter mecanismos para conservar a temperatura em torno dos 37ºC", conclui.

EXISTE O PRODUTO CERTO?
Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) indicam que uma em cada sete pessoas no mundo sofre com algum tipo de alergia respiratória. No Brasil, de acordo com o Estudo Multicêntrico Internacional de Asma e Alergias na Infância (ISSAC), 20% da população tem algum tipo de alergia, sendo que as de maior incidência são asma e rinite.

Dona da Alergoshop, rede especializada em produtos para alérgicos, a enfermeira Sarah Lazaretti recomenda cautela diante do crescente mercado de produtos auto-intitulados ‘antialérgicos’. "O termo correto para esses produtos é hipoalergênicos, que são itens que poderão causar alergias em cerca de 2% da população de alérgicos. Não existe, na verdade, algo que comprovadamente nunca provoque alergias."

Sarah lembra que alguns itens, como as capas antiácaro para travesseiro, devem ser usadas também por não-alérgicos. "As capas devem ser fechadas com zíper. Uma capa com elástico não é antiácaro. É preciso haver uma barreira mecânica que vede o contato de resquícios de pele perdidos durante a noite com o interior do travesseiro. Após 6 anos de uso, 10% do peso do travesseiro é constituído de fezes de ácaros."

Durante o inverno, Sarah percebe um aumento de até 25% na procura por produtos que devolvam o conforto aos alérgicos, como os purificadores de ar. Segundo ela, algumas dicas caseiras também podem amenizar o problema. "Não use espanador e nem vassoura, prefira o pano úmido. No caso do aspirador de pó, só use se ele tiver filtro de água", recomenda.

BOXE 1

Logo na primeira semana de inverno o Hospital CEMAe, na capital paulista, registrou aumento de 20% nos casos de doenças que acometem o aparelho respiratório, como sinusite. rinite e gripe. No Hospital Samaritano de São Paulo, a demanda costuma aumentar em até 40% quando as temperaturas caem. Seria o frio um agente patológico? Não. Afinal, infecções não existem sem a transmissão de microorganismos.

Para o oftalmologista Leôncio Queiroz Neto, do Instituto Penido Burnier, o frio estimula aglomerações em ambientes pouco arejados. "Essa situação facilita a proliferação e transmissão dos vírus", diz. O ar frio e pouco úmido também resseca as mucosas e reduz as defesas do organismo, o que predispõe a infecções. "Essas doenças típicas do inverno devem ser tratadas corretamente. Uma simples gripe pode acabar em pneumonia", diz Roberto Stirbulov, pneumologista do Hospital Samaritano.

BOXE 2

Conselheiro da Sociedade Brasileira de Dermatologia, o médico Artur Duarte garante que variações climáticas exercem influência direta sobre a pele. "A baixa temperatura inibe a produção do sebo natural da pele, diminuindo a sua lubrificação. Além do frio, o clima no inverno também é seco, situação que estimula o ressecamento da pele. Em pessoas que apresentam psoríase ou dermatite atópica esses fatores externos podem agravar consideravelmente as lesões. Percebemos que vários pacientes com quadros controlados no verão apresentam piora no inverno", explica.

Para suportar as peculiaridades da estação mais gelada do ano o especialista recomenda banhos mais rápidos e menos quentes. "O banho quente ajuda a retirar a lubrificação da pele, assim como o uso excessivo de sabonete. O ideal é que o paciente abandone a bucha de banho e evite secar-se de forma muito vigorosa. Recomenda-se, ainda, que todas as pessoas façam uso diário de hidratantes para combater o ressecamento. Nos quadros em que há problemas dermatológicos o médico irá receitar lubrificantes específicos ou até mesmo medicamento por via oral", completa.

BOXE 3

Doutora em reumatologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Evelin Goldenberg acredita que baixas temperaturas agravam a dor em pacientes com distúrbios reumáticos, tais como artrite, artrose, tendinite, osteoporose e fibromialgia. "Nessa época recebo muitos pacientes com queixas de dor nas articulações, ossos e musculatura. O frio aumenta a dor dos processos inflamatórios pela diminuição do aporte sanguíneo nas articulações e pelas contraturas musculares", diz.

Além da tensão muscular provocada pelo frio, outro fator que interfere no quadro é a depressão. "O frio agrava quadros depressivos e a depressão gera dor. Assim, o ganho de peso comum nessa estação, aliado ao sedentarismo e ao lado emocional agravam os problemas reumáticos", explica. Para evitar complicações, Evelin recomenda manter a regularidade dos exercícios físicos no inverno. "Esteja agasalhado para não perder calor e use luvas e meias de lã, pois as pequenas articulações sofrem mais no frio. O ideal é praticar uma atividade aeróbica leve, como bicicleta ou caminhada curta, para aumentar o fluxo de sangue nos membros."

BOXE 4

Na opinião do médico Ricardo Pavanello, supervisor de cardiologia do Hospital do Coração (SP), o inverno tem impacto negativo sobre o sistema cardiovascular, sobretudo se há histórico de enfarte e acidente vascular cerebral (AVC). "Quando a pessoa é submetida a frio intenso pode ocorrer a vasoconstrição, ou seja, a redução do calibre das artérias e veias, aumentando a pressão arterial e a freqüência cardíaca. O quadro leva a um consumo maior de oxigênio pelo músculo cardíaco, desencadeando o entupimento das artérias e o enfarte. Não é à toa que no Rio Grande do Sul constatamos maior incidência de enfartes", explica.

O profissional lembra que hipertensos estão mais sujeitos ao problema, mas salienta que toda pessoa é alvo em potencial. "O perigo maior está nos choques térmicos. Quando se sai de um lugar quente para o frio, a artéria pode sofrer um espasmo, uma obstrução temporária. De 1% a 1,5% dos enfartes ocorrem pelo espasmo da coronária. Eles se dão quase sempre pela manhã, pelo choque entre a cama quente de casa e a rua gelada. É por isso que recomendamos cuidado com uso do ar quente no carro no inverno e com a prática da sauna ."

BOXE 5/DICAS

1. Lave blusas de lã antes de usar. Seque ao sol;

2. Troque cobertores de pêlo por edredons;

3. Prefira cortinas sintéticas ou de material a ser limpo com pano úmido;

4. Evite locais fechados e conglomerados;

5. Mantenha os cômodos ventilados para minimizar a proliferação de germes;

6. Use purificadores de ar. Se não os tiver, espalhe bacias com água, sobretudo nos dormitórios;

7. Lave as mãos sempre;

8. Beba bastante líquidos.

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