Documentários musicais invadem as telas do País

Realizado em São Paulo entre os dias 26 de junho e 5 de julho e, atualmente, em cartaz no Rio de Janeiro, o festival In¿Edit chamou a atenção para um nicho crescente do cinema brasileiro: os documentários musicais.

Lecticia Maggi, repórter do Último Segundo |

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Cena do filme Titãs - A Vida Até Parece Uma Festa
Em 2009, vários foram lançados, entre eles: Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei, Titãs - A Vida Até Parece Uma Festa e Loki (sobre Arnaldo Baptista). Somente no In¿Edit, mais de 10 documentários musicais nacionais foram exibidos, com destaque para Guidable - A História dos Ratos de Porão, Velhas Virgens: Atrás de cerveja e mulher e Jards Macalé - Um Morcego na Porta Principal. Este último eleito o melhor do festival de São Paulo pelo voto popular.

Marcelo Andrade, idealizador do festival, diz que contou com ajuda financeira da prefeitura de São Paulo e do Instituto Cervantes para a realização do projeto e aguarda o término das exibições no Rio de Janeiro, no dia 12 de julho, para saber se ele se auto-pagou.

Já estava na hora de termos um festival musical que abrisse a janela para esse tipo de gênero

Morador de Barcelona há 15 anos, Andrade se inspirou no festival realizado há seis anos na capital catalã para trazê-lo ao Brasil. Selecionou os melhores filmes internacionais exibidos em Barcelona e abriu inscrição para os nacionais, com a condição de que fossem inéditos. Já estava na hora de termos um festival musical que abrisse a janela para esse tipo de gênero, afirma, acrescentando que o que está relacionado à música tem bastante aceitação do público. Investir nisso é investir em um bem seguro, considera.

Fernando Rick, diretor do filme sobre a banda Ratos de Porão, explica que, apesar de focado em contar a história de um grupo, o seu documentário busca atingir diversos tipos de público e até mesmo aqueles que não são fãs da banda. Não falamos só de música, contamos como era o dia-a-dia dos caras, afirma ele, que faz questão de ressaltar que todas as histórias envolvendo drogas e brigas foram mantidas. É total sem censura, brinca.

"A gente era muito fã da banda, não estávamos pensando em atingir um grande público"

Realizado de forma totalmente independente, Guidable custou cerca de R$ 5 mil e Rick considera que com as primeiras exibições ele já deve ser pago. O documentário fica em cartaz em São Paulo, no cine Olido, entre os dias 21 de julho e 1º de agosto. A gente era muito fã da banda, não estávamos pensando em atingir um grande público ou ganhar muito dinheiro. Fizemos para curtir, diz.

História esquecida

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Cartaz do filme Simonal
A possibilidade de contar uma boa história também foi o que motivou Micael Langer a produzir, junto aos diretores Cláudio Manoel e Calvito Leal, o filme Simonal ¿ Ninguém Sabe o Duro que Dei, sobre a história do cantor Wilson Simonal. Quando tomamos conhecimento da força que tinha esse drama foi como se estivéssemos barrado em uma mina de ouro. È um tesouro que ninguém quis falar, afirma.

O documentário custou cerca de R$ 700 mil para ser feito e contou com um único apoio financeiro, segundo Langer. Uma pessoa colocou R$ 50 mil, mas não quis ter seu nome associado ao do Simonal, diz. O cantor, que fez grande sucesso nas décadas de 50 e 60, caiu no ostracismo após ser acusado de ligação com a ditadura militar.

De acordo com Langer, muito material sobre o artista se perdeu e reunir imagens de apresentações e entrevistas foi uma das principais dificuldades enfrentadas pelo trio. A pesquisa de imagem e documentação é bem complicada no Brasil. Em alguns lugares ficamos abismados com o amadorismo e a falta de cuidado, lamenta.

"Quem viveu a história sai do cinema emocionado, quem não viveu sai impressionado"

A ideia dos diretores, conforme Langer, foi a de apresentar Simonal também para as pessoas que não chegaram a conhecê-lo. Quem viveu a história sai do cinema emocionado, quem não viveu sai impressionado. Mas não mérito nosso, é dele, que conquista as platéias, afirma.

O filme, que já atraiu cerca de 60 mil pessoas aos cinemas, deve ficar entre os documentários mais vistos do ano, mas o que ainda é muito pouco na visão do diretor. Pra mim, ele foi o melhor cantor do Brasil e eu gostaria que mais gente soubesse a sua história, diz.

Bandas conhecidas

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Titãs no início da carreira

Até mesmo a história de bandas nacionalmente conhecidas, como o caso de Titãs, precisa de divulgação. Isso foi o que Oscar Rodrigues Alves disse ter aprendido com o lançamento do documentário Titãs - A Vida Até Parece Uma Festa. Faltou dinheiro para o marketing, afirma ele sobre o filme que estreou em 16 de janeiro e ficou cinco meses em cartaz.

Alves conta que Branco Mello, vocalista da banda, o procurou em 2002 para saber o que fazer com as dezenas de fitas de mais de 20 anos de registrados da banda. Por sorte ele não tinha ideia do que queria e eu entrei ajudando-o a conceber isso, ri. Segundo ele, o filme não buscar contar uma história enciclopédica do grupo, mas deixar na platéia a sensação de que o sonho pode dar certo.

"Achei que pela popularidade deles seria mais fácil obter recurso, mas não foi"

Optar pela história de pessoas conhecidas também não é garantida de que conseguirá patrocínio. Foi o que aconteceu com Cláudio Kahns, diretor de Mamonas Assassinas, o doc, que fez o filme todo com o recurso da sua própria produtora. Achei que pela popularidade deles seria mais fácil obter recurso, mas não foi, conta.

Agora, Kahns busca patrocínio para o lançamento nacional do filme. O pré-lançamento aconteceu no dia 4 de julho, na cidade de Guarulhos (SP), mas ainda não há data para o filme chegar aos cinemas.

Aumento da oferta ou da demanda?

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Cartaz do filme Ratos de Porão
Marcelo Andrade considera que a popularização dos documentários no Brasil é um processo natural e que já vem acontecendo em outros países. Os exemplos são a própria Espanha, onde o festival In-Edit existe há seis anos, e o Chile, onde está há cinco. Está rolando uma atenção maior ao gênero e acho que Titãs, Simonal e Loke serem lançados quase ao mesmo tempo é mais que uma coincidência, afirma.

Para Micael Langer, há uma tendência brasileira de fazer filmes em homenagens a outros artistas e isso acontece também pela impossibilidade dos produtores de fazerem documentários investigativos, como denúncias de um esquema de corrupção. Pela Lei de Imprensa, uma imagem só pode ser mostrada se ela for autorizada. Você fica um amarrado com essa legislação e, como o Brasil é um manancial de talentos, os diretores acabam optando por este lado, considera.

"Pra fazer filme no Brasil só mesmo uma grande paixão"

No entanto, Langer afirma que nem sempre o potencial comercial de um artista é o que conta para a seleção de um tema. Depende mais das pessoas conseguirem patrocínio do que do interesse do público, diz.

Oscar Alves afirma que a produção cinematográfica e musical brasileira sempre existiu, mas com a produção digital os projetos ficaram mais baratos. O próprio filme dos Titãs teve projeção digital. Se fossemos finalizar oticamente gastaríamos bem mais e não garantiríamos uma qualidade artística melhor porque as imagens que tínhamos eram muito antigas, explica.

Alves afirma, porém, que quem se arrisca a fazer documentários musicais não deve pensar em explodir em bilheteria, já que, apesar da recente popularização, não é dos gêneros mais rentáveis. Gosto do Titãs e não queria saber se iam cinco mil ou 50 mil assistir. Pra fazer filme no Brasil só mesmo uma grande paixão, afirma.

 Veja trailers dos documentários:

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