Documentário trata o aborto sob o olhar feminino

Documentário trata o aborto sob o olhar feminino Por Ciça Vallerio São Paulo, 18 (AE) - O documentário O Aborto dos Outros, com roteiro e direção assinados pela paulistana Carla Gallo, de 35 anos, acaba de entrar em cartaz. Quem assistir ao filme vai se deparar com um problema nacional.

Agência Estado |

Apesar de ser considerado crime, o aborto é realizado em larga escala no Brasil: cerca de 1,2 milhão por ano, de acordo com dados de 2007 do Ipas Brasil / Ministério da Saúde.

Esse filme chega aos cinemas justamente quando o Supremo Tribunal Federal (STF) discute o direito de interromper gestações de feto anencéfalo. Embora tenha outro viés, nada mais atual do que o trabalho da cineasta, que precisou de três anos para levar às telas o sofrimento de mulheres que optaram pelo aborto. Há histórias de estupro, má-formação fetal e de decisões pessoais.

Em casos de estupro, o aborto é autorizado por lei e conta com atendimento específico em hospitais públicos, como o Pérola Byington, Unifesp, Unicamp e Hospital do Jabaquara, todos em São Paulo. Em situações de má-formação fetal, a mulher precisa recorrer à Justiça para conseguir autorização. Em todas as ocorrências, incluindo o aborto clandestino, há sempre uma difícil jornada.

"Depois de ter acompanhado muitas mulheres que recorriam ao serviço legalizado, decidi fazer o filme sob a perspectiva feminina", diz Carla, autora de diversos documentários exibidos em festivais e na TV Cultura, TV Sesc e Canal Futura. "Percebi que todas as discussões sobre aborto são pautadas sob o ponto de vista da lei e da religião, nunca o da mulher que vive e sofre esse drama."

Para captar a angústia das mulheres, a diretora preferiu registrar cenas em vez de lançar mão apenas de depoimentos - recurso comum em documentários. Em 1 hora e 5 minutos, Carla mostra de forma delicada o sofrimento daquelas que aguardam o momento de ir à sala de cirurgia.

Sem glamour, música de fundo nem final feliz, as cenas são seguidas de silêncio e dor. Além das vítimas de estupro, a diretora acompanhou o caso de uma mulher que conseguiu autorização na Justiça para interromper sua gravidez, porque o feto apresentava duas anomalias e não teria chance alguma de sobreviver. "É triste passar por isso agora, mas seria bem pior se esperasse até o nascimento", diz a moça no filme.

A realidade mais dura é vivida por mulheres pobres, que acabam sendo atendidas de forma precária, colocando em risco suas vidas ou tornando-se vítimas de graves seqüelas de abortos malfeitos.

RISCO DE MORTE
Segundo o ginecologista e obstetra Jefferson Drezett, coordenador do Programa de Atendimento às Vítimas de Violência Sexual do Hospital Pérola Byington, de todos os abortos provocados que acontecem no mundo, 95% são feitos em países onde a prática é proibida. "No Brasil, uma mulher morre a cada dois dias em decorrência das complicações de abortos inseguros", ressalta o médico, que também aparece no filme "O Aborto dos Outros". "Em São Paulo, essa é a quarta causa de morte feminina; em Salvador, é a primeira há mais de 10 anos."

A ONG Anis - Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero disponibiliza em seu site (http://www.anis.org.br/livrosfilmes/) quatro documentários de, no máximo, 22 minutos, cuja temática também envolve aborto.

Ao contrário do que se possa imaginar, Carla Gallo, a diretora do filme recém-lançado, não faz a apologia do aborto. "Não sou a favor, nem contra, apenas desejo que a mulher tenha o direito de decidir", diz Carla. "Proibir não impede que ela deixe de abortar, tanto é que países com leis restritivas têm o maior número de abortos." Essa é a opinião de quem nunca passou por isso e que deseja se tornar mãe em breve, para realizar um sonho antigo.

No fim das filmagens, Carla soube por uma tia que sua bisavó havia morrido em decorrência de um aborto malfeito. Um segredo de família que só veio à tona com sua iniciativa de fazer um documentário sobre o tema.

ÍNDICES DE ABORTAMENTO
De acordo com o estudo "Aborto e Saúde Pública: 20 Anos de Pesquisas no Brasil", realizado pelas professoras Débora Diniz, da UnB, e Marilena Dias Villela Corrêa, com apoio do Ministério da Saúde, a maioria das mulheres que aborta tem entre 20 e 29 anos, é católica, com filho, e tomou a decisão como forma de planejamento reprodutivo.

Segundo a mesma pesquisa, 70% das mulheres que praticam aborto são aquelas que têm relações estabelecidas, ou seja, possuem marido, companheiro ou namorado. Apenas 2,5% do total das interrupções de gravidez ocorrem em relações eventuais.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), são realizados por ano no mundo 20 milhões de abortos inseguros (em condições precárias, que colocam em risco a vida da mulher). Dados da OMS revelam que os abortos inseguros resultam na morte de 70 a 80 mil mulheres por ano no mundo, sendo que 95% dessas ocorrências são registradas em países em desenvolvimento, que contam com leis proibitivas.

No Brasil, o aborto inseguro é o causador de 250 mil internações no Sistema Único de Saúde, para tratamento de suas complicações.

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