Documentário retrata Eliezer Batista como construtor do Brasil Grande

RIO DE JANEIRO - Ao fundo, uma paisagem exuberante. No centro, a câmera se aproxima do senhor que, sentado, observa o horizonte. A imagem caminha aos poucos até concentrar-se à frente do octogenário de largo sorriso. Na narração, Paulo Betti refere-se ao personagem como o engenheiro de uma nação. Exagero? Pode até ser, mas pelo menos é assim que Eliezer Batista é retratado nos 84 minutos do documentário dirigido por Victor Lopes que estreia no Rio e em São Paulo nesta sexta.

Rodrigo de Almeida, iG Rio de Janeiro |


Para sustentar a tese, um time de peso aparece em entrevistas na tela: colegas engenheiros, políticos, líderes empresariais, amigos e família. Dos filhos ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Do amigo e parceiro Raphael de Almeida Magalhães ao engenheiro Marcos Vianna. Do atual presidente da Vale, Roger Agnelli, ao engenheiro Clóvis Ditzel.

Eliezer Batista: o Engenheiro do Brasil é um filme que, para a maioria dos brasileiros, servirá de cartão de visitas daquele que ajudou a Companhia Vale do Rio Doce ¿ hoje simplesmente Vale ¿ a transformar-se numa gigante internacional, trabalhou com presidentes como João Goulart, João Figueiredo, Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor, chegou a ser considerado comunista pelo regime militar e hoje é o principal conselheiro do filho Eike, ironicamente o homem mais rico do Brasil.

Mesmo os mais íntimos de Eliezer asseguram que o documentário traz informações novas sobre ele ¿ caso do Lars Batista, um dos seus filhos, que na pré-estreia de segunda-feira, no Palácio da Cidade, no Rio, chegou a afirmar ter se deparado com fatos e opiniões a que não tivera acesso antes.

Fazendo coisas grandes

O ponto de partida do documentário é o livro Conversas com Eliezer , de Luiz Cesar Faro, Claudio Fernandez e Carlos Pousa ¿ este último assina como produtor ao lado da TV Zero. Editado pela Insight Engenharia de Comunicação há quatro anos, o livro conta a história de Eliezer Batista a partir de longos depoimentos do próprio.

Como a biografia, o filme também recorre a várias entrevistas com Eliezer. "Desde cedo percebi que gostava de fazer coisas", diz Eliezer, logo de início. "Coisas grandes", emenda. Por "coisas grandes", leia-se virar o País de pernas para o ar: comandar investimentos em infraestrutura, ajudar na formação de cinturões estratégicos com outros países e desenhar novos eixos econômicos.

Victor Lopes, o diretor, diz que a pretensão do filme é apresentar um personagem que deu "incontáveis contribuições" ao que o Brasil se tornou hoje. Eliezer, o homenageado, espera que o documentário ajude a difundir uma mensagem positiva aos mais jovens. "O Brasil tem e oferece oportunidades. Potencial existe. Depende de nossa vontade de aproveitá-la", resume.

"Nunca aposente o cérebro"

Eliezer mostra frases engenhosas no filme. Algumas delas: "Pensar e construir uma nação é como construir uma catedral. Vai além do físico. Chega ao metafísico"; "você vale o que sabe"; "quanto mais magro o osso, mais o cachorro luta por ele"; "nunca aposente o seu cérebro. Você começa o fim quando o aposenta"; "minha filosofia de vida é: deixe uma obra bem feita".

O documentário também explora a relação com a família. "Ter filhos é chegar ao céu; ter netos é tocar a mão de Deus" é uma de suas frases. Essa paixão, no entanto, precisou ser conciliada com uma vida de trabalho, viagens e ausências ¿ a tarefa de cuidar os filhos coube à mulher Jutta Batista. De Eike Batista: "Meu pai doou um tempo enorme ao trabalho. A dose foi demais, e ele sabe disso", entrega.  

Carol Feichas
Eliezer Batista

Vale foi a grande obra de Eliezer

A Vale é um capítulo à parte de Eliezer Batista: o Engenheiro do Brasil . Não à toa, quando viva, sua mulher dizia que a empresa era "a amante" de Eliezer. Foi sua grande obra. Ingressou na companhia como engenheiro ferroviário e graças a seu desempenho na construção da ferrovia Vitória-Minas, tornou-se durante muito tempo o seu principal estrategista.

A ferrovia ajudou a colocar a Vale no mapa das grandes mineradoras mundiais e abriu passagem para sua ascensão. Eliezer virou presidente da empresa no governo Janio Quadros e acertou importantes contratos com japoneses - parceria que gerou a primeira fornada de contratos de exportação da companhia.

O filme mostra que o mérito de Eliezer foi perceber a necessidade de uma visão sistêmica para competir no mercado internacional. Mina, ferrovia e porto passaram a integrar o processo produtivo da Vale.

O golpe militar de 1964 custou-lhe a presidência da empresa, ameaças de prisão e uma pecha de comunista que durou bastante tempo. No filme Marcos Vianna relata uma reunião de governo em Brasília, em que Delfim Netto assim o descreve na frente do presidente Médici: "É um comunista! Até fala russo!".

Fora da ribalta da Vale, Eliezer emigrou para a iniciativa privada: criou, com o empresário Augusto Trajano de Azevedo Antunes a Minerações Brasileiras Reunidas (MBR). Vencida a pecha de comunista entre os militares, foi "intimado" pelo presidente João Figueiredo para voltar a comandar a Vale. Embrenhou-se em nova aventura: a construção de Carajás.

Fernando Henrique Cardoso conta no filme como Eliezer e Raphael de Almeida Magalhães tentaram convencê-lo a desistir da privatização da Vale. Hoje, no entanto, o engenheiro anda de braços dados com a empresa. "Roger (Agnelli) pensa como eu: acha que a Vale tem de ser gigante", elogia.

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