NOVA YORK ¿ A cineasta Libby Spears pretendia fazer um documentário sobre a exploração sexual de crianças na Ásia e América Latina, mas mudou de idéia quando descobriu que o tráfico sexual de crianças é um problema sério nos Estados Unidos.

"Playground", que estreou no Festival de Cinema Tribeca 2009, em Nova York, analisa a exploração sexual infantil nos Estados Unidos, as discrepâncias nas leis e a percepção da exploração de crianças em outros países e nos EUA.

"Temos leis neste país que protegem vítimas internacionais do tráfico sexual e não temos leis que protegem as vítimas no país, mas isso está começando a mudar", disse a diretora à Reuters em entrevista recente.

"Aqui (nos EUA), quando se trata de uma menina de 12 anos, as pessoas gostam de dizer que ocorre prostituição, gostam de descrever a menina como prostituta, quando isso não é exato", disse Spears, que espera que seu filme ajude a conscientizar a população e a impelir mudanças na política pública. "É preciso haver mais recursos de longo prazo para essas crianças e adolescentes."

O filme cita dados da organização Acabar com a Prostituição Infantil, Pornografia Infantil e Tráfico de Crianças para Fins Sexuais (ECPAT, na sigla em inglês), segundo a qual 25 por cento do turismo sexual infantil no mundo é feito por cidadãos norte-americanos.

O grupo internacional diz também que 300 mil crianças nos EUA estão em risco de serem forçadas a atuar no comércio sexual.

Spears diz que seu filme mudou de rumo graças a uma entrevista que fez com Ernie Allen, presidente e executivo-chefe do Centro Nacional de Crianças Desaparecidas e Exploradas.

"As pessoas pensam que isso não acontece neste país. Pode em alguns casos parecer diferente do que acontece em outras partes do mundo, mas crianças vulneráveis são, sim, alvos de exploradores e cafetões e são atraídas para o comércio sexual", diz Allen no documentário.

"Não há muitas cidades norte-americanas nas quais não seja possível encontrar crianças e adolescentes nas ruas atuando no comércio sexual, e virtualmente nunca isso é por vontade própria", afirmou ele. "É crime organizado."

Ao longo de todo o filme, Spears procura uma menina chamada Michelle que foi vítima de abusos de seus pais adotivos e foi sequestrada em Portland, Oregon, aos 11 anos de idade. Foi encontrada pouco depois pela polícia em Vancouver, sendo paga por homens para fazer sexo com eles.

Ela foi entregue a cuidados adotivos novamente nos Estados Unidos, mas voltou a desaparecer em 2004, quando tinha 14 anos, e o fato nunca foi denunciado às autoridades. Spears a encontrou em 2008. Michelle vinha trabalhando no comércio sexual e tinha dois filhos pequenos. Durante as filmagens ela foi presa por envolvimento com drogas.

"O fato de que a encontrei foi milagroso", disse Spears, que usou a história de Michelle para exemplificar a falta de ajuda dada às crianças exploradas. "Ela não está bem. Está grávida de cinco meses e vive uma situação de abusos."

Entre os produtores executivos do filme estão o diretor Steven Soderbergh e o ator George Clooney.

"Entramos apenas para dar um apoio, porque consideramos o tema realmente importante e urgente", disse Soderbergh à Reuters.

Libby Spears espera que seu filme seja exibido em universidades e escolas.

(Reportagem de Michelle Nichols)

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