Do fundo do poço, Mickey Rourke ressurge como forte candidato ao Oscar

SÃO PAULO ¿ Saído das profundezas do time B de Hollywood, onde estava restrito há mais de uma década, Mickey Rourke deu a volta por cima e chega às telas do Brasil, nesta sexta-feira (13), como estrela de O Lutador, um dos favoritos ao Oscar de melhor ator. A escalação do garoto problema ¿ já premiado com diversos prêmios na temporada, inclusive o Globo de Ouro ¿ não poderia ter sido mais acertada, já que a história do longa-metragem tem gostinho de autobiografia.

Marco Tomazzoni |

Em "O Lutador", Rourke interpreta Randy "The Ram" Robinson, um astro de luta livre na década de 1980 em plena decadência. Trabalhando como carregador em um supermercado, mal consegue pagar o aluguel. Em meio a isso, tenta engatar um relacionamento com uma stripper (Marisa Tomei) e rever a filha (Evan Rachel Wood). A oportunidade da virada aparece na forma de um convite para reenfrentar seu adversário mais célebre, mas um problema cardíaco pode pôr tudo a perder.

Primeira fase: Mickey Rourke no início da carreira e auge do sucesso / Reprodução

Na vida real, Rourke já foi um lutador profissional, apesar da fama não ser fruto dos ringues, e sim do trabalho em frente às câmeras. Filho de um fisiculturista amador, começou a praticar boxe ainda na pré-adolescência. Ganhou sua primeira luta aos 12 anos, na Flórida, quando treinava na academia onde Muhammad Ali iniciou a carreira.

Frequentador assíduo de campeonatos, aos 19 anos sofreu uma concussão e tirou uma licença médica forçada. Aproveitou a pausa para participar de uma peça dirigida por um amigo. O então atleta gostou tanto da experiência que foi para Nova York estudar interpretação.

Rourke e Kim Basinger no polêmico
"9 ½ Semanas de Amor" / Divulgação
Sua estreia nas telas foi na comédia "1941 ¿ Uma Guerra Muito Louca" (1979), dirigida por Steven Spielberg. O primeiro papel de destaque, porém, foi como um incendiário no intenso "Corpos Ardentes" (1981), estrelado por uma sensual Kathleen Turner.

Na sequência, participou dos elogiados "Quando os Jovens se Tornam Adultos" (1982), de Barry Levinson, "O Selvagem da Motocicleta", de Francis Ford Coppola, ao lado de Matt Dillon, Dennis Hopper e Nicolas Cage, que lhe garantiram status de jovem galã e comparações com Marlon Brando, pela forte presença na tela.

O estrelato chegou com o polêmico e explícito "9 1/2 Semanas de Amor" (1986), em que protagonizava com Kim Basinger tórridas e inusitadas cenas de sexo. Em alta, manteve seu nome entre os grandes de Hollywood com "Barfly - Condenados pelo Vício", indicado à Palma de Ouro, em que interpreta o alter-ego alcoolizado de Charles Bukowski, e "Coração Satânico", no qual contracena com Robert de Niro, o diabo em pessoa.

O sucesso marcou uma geração. Recentemente, em meio à repercussão das indicações ao Oscar, Brad Pitt declarou à revista Newsweek que a intensidade do trabalho de Rourke fez com que ele se tornasse um de seus primeiros heróis de atuação, ao lado de Sean Penn e Gary Oldman. A boa fase, no entanto, durou pouco.

Segunda fase: de volta aos ringues, ator faz plásticas e disfarça sequelas / Reprodução

Garoto-problema

A partir daí, começam as histórias da difícil convivência com o ator. Conhecido como excêntrico e imprevisível, Rourke passou a chamar mais atenção por sua vida pessoal do que por seus filmes. Uma série de escolhas equivocadas resultou em vários fracassos de crítica, como "Horas de Desespero" e "Caçada sem Trégua". Enquanto isso, recusava os papéis principais de "Os Intocáveis", "Um Tira da Pesada", "O Silêncio dos Inocentes", "Rain Man" e "48 Horas".

Em 2007, preso por dirigir sob efeito
de álcool em Miami / Reprodução

Uma nova investida pelo cinema erótico, "Orquídea Selvagem", rendeu a Rourke uma breve passagem pelo Brasil, onde algumas cenas foram rodadas, e o casamento com sua segunda esposa, Carré Otis, seu par no filme. A relação, no entanto, não seguiu às mil maravilhas, tanto que pouco tempo depois ele foi preso sob acusação de violência doméstica.

Em 1991, resolveu voltar aos ringues, surpreendendo os amigos e a indústria cinematográfica ao afirmar que não tinha qualquer "respeito próprio" por seu trabalho como ator. Teve algumas vitórias, mas especialistas afirmaram que ele já estava velho demais para conseguir bons resultados. Seus únicos prêmios foram fraturas no nariz, dedos, costelas e maxilar. Os ferimentos motivaram uma série de plásticas mal-sucedidas que deixaram marcas até hoje. Mais tarde, Rourke admitiu que queria apenas "testar a si mesmo" com a manobra.

De volta ao cinema, nunca mais obteve o mesmo destaque. Fez pequenas participações em "Buffalo 66", "A Promessa" e "O Homem que Fazia Chover". Na mídia, os tabloides faziam a festa com suas bizarras ligações com drogas e a máfia nova-iorquina. Fez sua estreia em filmes de ação como o vilão de "A Colônia", ao lado de Jean Claude Van Damme e do jogador de basquete Dennis Rodman. Um fracasso completo.

Apesar de passar a assinar trabalhos melhores, Rourke continuou no segundo time com papéis coadjuvantes em filmes como "Spun", "Era Uma Vez no México" e "Chamas da Vingança". Em 2007, foi preso por dirigir embriagado em Miami. Desenvolveu uma paixão avassaladora por chihuahuas e chegou a abandonar projetos por não poder levar seus cachorros ao set. Enquanto isso, as plásticas no rosto continuavam.

Rourke e Loki, seu chihuahua, no
Festival de Veneza, em 2008 / AP

Redenção nos ringues

A maré começou a mudar no atmosférico "Sin City", em que Rourke interpretou o brutamontes Marv como os fãs dos quadrinhos de Frank Miller imaginavam. A carreira continuou morna até o diretor Darren Aronofsky bater pé para que o ator assumisse o papel principal de "O Lutador". Os investidores não queriam saber de Rourke devido a sua má fama, mas Aronofsky insistiu e insistiu.

O resto é história. A crítica foi unânime ao avaliar que "O Lutador" é a chance de testemunhar a "ressurreição de Mickey Rourke", como o próprio cartaz do filme trata de informar. A boa fase fez até com que a Weinstein Co. desenterrasse o suspense "Killshot", com Diane Lane, após três anos de geladeira. Além disso, Rourke está escalado para outros dois projetos bastante aguardados: "Os Mercenários", de Sylvester Stallone, e "Homem de Ferro 2".

Os holofotes podem estar voltados novamente para ele, mas Rourke não esquece de seus chihuahuas. Fez questão de desfilar com Loki, seu eterno companheiro, pelo tapete vermelho do Festival de Veneza ¿ onde "O Lutador" conquistou o Leão de Ouro ¿ e agradeceu a ele ao vencer o Globo de Ouro. "Quando as coisas não estão bem", disse recentemente, "às vezes a única coisa que um homem tem são seus cachorros". E se prepare para ver Rourke de volta nos ringues: ele está negociando com a Federação Mundial de Luta-Livre para participar mais uma vez de competições.

Assista ao trailer de O Lutador:

Leia mais sobre: Mickey Rourke

    Leia tudo sobre: mickey rourkeoscar

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG