Distúrbios psiquiátricos em pacientes com lúpus são raros, dizem médicos

A história da brasileira Paula Oliveira, indiciada esta semana pela polícia de Zurique, na Suíça, sob a suspeita de ter dado declarações falsas ganhou destaque em toda a imprensa e chamou a atenção da sociedade.

Lecticia Maggi, repórter do Último Segundo |


Corpo de brasileira foi marcado com sigla de partido de extrema direita / AE

No último dia 9, Paula divulgou na imprensa, por meio de seu pai, o advogado Paulo Oliveira, fotos em que ela aparecia com o corpo todo ferido. A jovem, de 26 anos, contou a versão de que havia sido atacada por três neonazistas, em uma estação de metrô em Zurique, e, em consequência da agressão, sofrido aborto dos dois bebês que esperava.

Na última quinta-feira, o Ministério Público daquele país informou, por meio de nota, que a brasileira havia confessado ter mentido. Os motivos que a teriam levado a criar essa farsa, porém, não foram divulgados. Paula, que está impedida de sair da Suíça, deve prestar um novo depoimento.

Em sua defesa, o advogado Roger Müller disse que estuda duas a três estratégias para defendê-la, entre elas usar como atenuante o fato de ela sofrer de lúpus.

De acordo com médicos ouvidos pela reportagem do Último Segundo, os distúrbios psiquiátricos em pacientes com a doença são raros e, quando acontecem, geralmente, estão ligados a surtos de depressão e ansiedade. Menos de 1% dos pacientes tem distúrbios psicológicos graves, afirma o professor da Faculdade de Medicina do ABC José Carlos Szajubok.

Na Escola Paulista de Medicina já tivemos pacientes com tendência suicida, mas o caso da Paula me parece muito elaborado para estar ligado à doença

Szajubok coordena a ala de pacientes com lúpus do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo e diz nunca ter visto casos de automutilação. Não é característica da doença, nem na literatura vermos isso, mas nada pode ser descartado, afirma ele, que acrescenta ainda que nos casos graves podem acontecer alucinações, convulsões e ataques epiléticos. O especialista explica, porém, que comprometimentos neuropsiquiátricos leves acometem até 20% dos pacientes.

O professor de reumatologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Luis Eduardo Coelho afirma também que, em alguns poucos casos, a doença pode gerar quadros suicidas. Na Escola Paulista de Medicina já tivemos pacientes com tendência suicida, mas o caso da Paula me parece muito elaborado para estar ligado à doença, afirma. Mas não posso excluir, pondera.

Para o reumatologista Ricardo Fuller, da Universidade de São Paulo (USP), é difícil o início de um surto psiquiátrico passar despercebido pela vítima e por sua família. Geralmente, segundo ele, a pessoa apresenta sinais de que a doença não está sob controle, como dores nas articulações e alterações no sistema nervoso. O distúrbio não vem do nada e isolado, diz.

Doença atinge mais mulheres

O lúpus, conforme os especialistas, atinge uma em cada cerca de duas mil pessoas e, geralmente, mulheres entre a puberdade e a menopausa. São de 4 a 9 mulheres para cada homem doente, afirma Coelho. Isso porque o hormônio estrógeno, presente com mais força durante o período fértil da mulher, pode provocar alterações no sistema imunológico.

Lúpus é uma doença crônica, sistêmica (atinge vários órgãos e tecidos), não contagiosa e autoimune, ou seja, o sistema imunológico agride constituintes do próprio organismo. O diagnóstico precoce é difícil, já que os sintomas variam muito entre os pacientes. Porém, os mais comuns são: manchas vermelhas na pele, principalmente nas áreas expostas ao sol, dores nas articulações, febre, emagrecimento e queda acentuada de cabelo.

Lúpus era uma doença com alta taxa de letalidade há cerca de 40 anos e levava à morte em torno de 50% dos pacientes em um período de cinco anos

Algumas pessoas podem ter apenas alguns sintomas leves, outras têm comprometimento dos órgãos internos, como inflamação dos rins, da pleura (no pulmão) e do pericárdio (no coração), afirma Coelho. Em alguns pacientes, os primeiros sintomas podem ser também neuropsiquiátricos. As pessoas são diagnosticadas como tendo doenças psíquicas e só depois, com investigação, conseguimos detectar, completa o professor Szajubok.

Os médicos afirmam que o lúpus era uma doença com alta taxa de letalidade há cerca de 40 anos e levava à morte em torno de 50% dos pacientes em um período de cinco anos. Hoje, os profissionais afirmam que ela pode ser bem controlada. Temos 90% das pessoas com boa qualidade de vida após 10 anos do diagnóstico. Elas podem ter uma vida normal, desde que com tratamento. Mas, como não tem cura, nós nunca damos alta, afirma Szajubok.

E se fosse aqui?

AE
Paula Oliveira estava grávida de 3 meses
Paula que dizia estar grávida
Segundo o advogado criminalista Carlos Kauffmann, se Paula realmente tiver se machucado e dado falso testemunho de crime para a polícia, o seu defensor pode tentar provar que, em razão da doença, ela sofria de distúrbios psicológicos e, por isso, não tinha ciência do que estava fazendo.

Segundo o artigo 26 do Código Penal Brasileiro, é isento de pena o agente que, por doença mental ou desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempo da ação ou da omissão, inteiramente incapaz de entender o caráter ilícito do fato.

A pena também pode ser reduzida de um a dois terços se ficar comprovado que o agente não tinha total entendimento da ação. Mas tudo isso demanda laudos e perícias médicas, afirma o criminalista.

Na Suíça, Paula Oliveira foi enquadrada por tentativa de enganar as autoridades e pode pegar até três anos de cadeia. Se o caso tivesse acontecido no Brasil, Kauffmann explica que Paula assinaria um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) por comunicação falsa de crime. Pelo artigo 340 do Código Penal, ela ficaria sujeita a pena de um a seis meses de detenção. No entanto, como é uma ação de menor potencial ofensivo, o caso é julgado em um juizado especial e não na esfera criminal. Nestes casos a pessoa nem chega a ser processada. Ela paga cestas básicas ou faz serviços comunitários. O risco de ir para a cadeia é zero, diz.

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