Disputado na Flip, Neil Gaiman mostra segurança e prepara estréia na direção

PARATY ¿ Se há um ícone pop na 6ª edição da Flip, ele se chama Neil Gaiman. Cercado por câmeras e com a sala muito mais lotada de jornalistas do que em qualquer outra sessão da festa, o autor da série de quadrinhos Sandman e de romances de sucesso como Deuses Americanos e Stardust respondeu a todas as questões com presteza e um humor claro e contundente, esbajando segurança. Uma coisa maravilhosa de ser escritor é que você não precisa se preocupar com o que as pessoas vão achar. É só sentar e escrever que elas vão ler da mesma forma. Esnobismo? Pouco provável. É a certeza de quem sabe seu papel na cultura contemporânea.

Marco Tomazzoni |

Presente em dez de dez listas dos maiores autores de quadrinhos de todos os tempos, Gaiman está em Paraty para promover "Coisas fragéis", coletânea de contos e poemas que acaba de sair no Brasil. O país, aliás, é pioneiro em publicar suas obras ¿ em 1989, foi o primeiro a republicar as revistas de "Sandman" fora dos Estados Unidos, e desde então começou uma relação de adoração que é extrapolada de tempos em formas na forma de quilométricas filas para autográfos.

Apesar de festejado autor de livros adultos e infantis, a fama primeira de Gaiman se deve aos quadrinhos, gênero ao qual ainda se dedica eventualmente. "O que sempre me chamou a atenção nos quadrinhos é seu aspecto democrático. Tudo o que você precisa é de um papel e o que pôr nele. Não é necessário milhões de dólares como no cinema para mostrar sua idéia."

A batida questão de que as HQs são uma literatura de terceiro escalão, ainda levantada de quando em quando, não perturba mais Gaiman, simplesmente porque, afirmou, já é algo muito antigo, ainda mais depois que "Maus", de Art Spiegelman, ganhou o prêmio Pulitzer. "Em alguns países, isso nem se cogita mais. São formatos diferentes, assim como o teatro, cinema e poesia. Não há limites para o quão bom pode ser o texto nos quadrinhos, nem para o quão bom podem ser as imagens e nem para o que pode surgir da combinação dos dois", disse ele, lembrando um argumento defendido durante sua última passagem pelo território brasileiro, em 2002.

Ao descrever como escolhe se as histórias vão dar origem a um romance ou a uma HQ, contou que opta pelo que acha que parece certo, mas que nem sempre isso dá certo, como no caso de "Os filhos de Anansi", que era para ser em quadrinhos, mas virou livro durante o processo. "Em geral, penso que se as imagens são mais importantes, vira um comic. Se o tom de voz parece mais relevante, é um livro."

Gaiman negou que haja qualquer tensão criativa entre autores de quadrinhos e artistas gráficos. Para ele, a relação entre os dois é de completa parceria, já que o correto seria até escrever a história pensando no que o desenhista gosta ou não de trabalhar. "Comentei com Alan Moore uma vez que ele sempre escolhia os artistas certos para as histórias certas e ele me disse que é melhor olhar o que o artista sabe fazer bem e já escrever com isso em mente. É o modo de deixar a pessoa excitada para fazer o seu melhor trabalho."

Estréia atrás das câmeras

A moda em Hollywood de adaptações de quadrinhos, mais do que refletir a atual falta de idéias no mercado cinematográfico, é para Gaiman um procedimento que existe desde o início da indústria, que sempre levou às telas peças da Broadway e romances premiados. "Mas isso é irrelevante, o que importa é se os filmes são bons ou não, interessantes ou não", defendeu.

Quanto a seu trabalho no cinema, confirmou que em breve deve estrear na direção com a adaptação de "Morte", personagem derivada do universo de "Sandman". "[o diretor mexicano] Guillermo del Toro foi gentil para me convidar a ir a Budapeste e passar algumas semanas com ele no ano passado, quando fui sua sombra e aprendi tudo o que pude", recordou, lembrando seu "estágio" durante as filmagens de "Hellboy 2".

Mais do que adaptar suas obras, no entanto, Gaiman gosta é de mexer em textos alheios, como fez recentemente ao escrever o roteiro de "Beowulf". "Me sinto mais confortável. Alguma coisa sempre se perde e, se a obra é sua, dói mais." Ele prefere assistir a como outros reagem a seu trabalho e se diverte ao ver o quão longe vão as adaptações: o livro infantil "Coraline", por exemplo, chegará às telas em uma animação, já foi transformado em quadrinhos e ganhou até uma versão musical, em que a personagem principal, uma menina, é interpretada em cena "por uma senhora gorda de 50 anos e sua mãe, por uma drag-queen". "São campos diferentes, mas que contêm forças que não têm em comum."

Do Brasil, o autor inglês recorda a notória seção de autográfos de 2002, em São Paulo, quando 1.250 pessoas o deixaram assinando livros e revistas madrugada adentro. "Quando soube dessa história, no fim de tudo, disse 'ok'. Quer dizer, não consegui dizer nada, porque não tinha mais voz", divertiu-se ele. Também guarda com carinho os pôsteres que recebeu dos primeiros "Sandman" editados no Brasil. Um deles, garantiu, ainda está pendurado no banheiro de sua casa.

Ingadado quanto ao que sentia ao ver várias de suas obras disponíveis na Internet, Gaiman fez pouco caso. "O inimigo não é a idéia das pessoas estarem lendo de graça, mas é elas não estarem lendo. Se gostarem, com certeza vão atrás da cópia real, como eu faço." É a segurança mostrada no início aparecendo mais uma vez, tranqüilidade de quem já assumiu de forma pública que vai ficar sentado até a última pessoa na Flip que quiser um autógrafo seu.

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