Discussão sobre usinas no rio Madeira lembra de peixes, mas esquece das pessoas

SÃO PAULO - Muitas dúvidas e a certeza de que a implantação de usinas no rio Madeira, especialmente sob o foco social, exige ainda mais conversa. Esta foi a conclusão do debate promovido pelo iG e a ONG Amigos da Terra sobre a construção das hidrelétricas Santo Antônio e Jirau no rio Madeira, em Rondônia, um dos pontos centrais do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) do governo federal.

Redação |

Parte do conjunto das medidas anunciadas pelo governo federal para acabar com os riscos de um novo apagão energético, a construção do Complexo Madeira, maior projeto de infra-estrutura do continente, deve ter obras iniciadas ainda este ano, mas o debate sobre o futuro das usinas, segundo especialistas, ainda necessita de muita discussão. 

De um lado, o governo chama a atenção para a necessidade de aumentar a oferta de energia devido ao crescimento econômico do país e, do outro, ambientalistas criticam a falta de estudos sobre o impacto da obra no ecossistema local. No fogo cruzado, porém, a dimensão social ficou marginalizada. 

Discute-se peixe, sedimentos, que não têm uma solução definitiva, mas não se fala do entorno, das pessoas, lembrou Roberto Smeraldi, diretor da organização Amigos da Terra e mediador do debate que contou com a participação de jornalistas, especialistas e internautas - inclusive da Bolívia, país que pode ser afetado pela construção das usinas -, que enviaram perguntas pelo chat. 

O jornalista do diário O Estado de São Paulo, Eduardo Numomura, afirma que há um movimento silencioso de imigração para a região amazônica em função das grandes obras do governo. O lado da população que precisa de emprego não é discutido. Há cerca de 20 mil pessoas trabalhando na região em outras obras. Há problemas de infra-estrutura, saúde e até prostituição. É o retrato da exploração amazônica, afirma. 

Estiveram também presentes ao evento os jornalistas Daniel Rittner do Valor Econômico, Cláudio Ângelo, da Folha de São Paulo, além de representantes de bancos, ONGs e acadêmicos. 

Gestão energética

Outro ponto levantado durante debate foi a similaridade da gestão energética feita pelas últimas administrações federais, com os projetos dos governos militares que investiram pesadamente em projetos faraônicos, como a Transamazônica, na tentativa de tirar o país do atraso.

O Brasil precisa ter uma cabeça mais moderna. As tecnologias de energia limpa estão evoluindo rapidamente. Mas há engenheiros no Ministério de Minas e Energia dos anos 70 que só sabem construir hidrelétricas e ganham muito dinheiro por cima e por baixo da mesa, diz Glenn Switkes, diretor para a América Latina da International Rivers Network e autor do livro Águas Turvas ¿ Alertas sobre as conseqüências de barrar o maior afluente do Amazonas, lançado durante o evento.

A questão é tão complexa e afeta tantos interesses que até mesmo um carreteiro, preocupado com a recente restrição a circulação de caminhões na cidade de São Paulo, comentou no chat que a construção das usinas pode trazer maiores oportunidades de trabalho em outras regiões.

O debate mostrou mais claramente as dúvidas e as interpretações contrastantes. A própria imprensa reconheceu que ainda não conseguir esclarecer os interesses que estão em jogo e o IG prestou um serviço importante nessa discussão, concluiu.

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