O diretor da Faculdade de Medicina (Fameb) da Universidade Federal da Bahia (UFBA), José Tavares Neto, afirmou hoje acreditar que o afastamento do coordenador do curso, Antonio Natalino Manta Dantas, de 69 anos, facilitará a implementação da reforma curricular. Ele se posicionava contra as mudanças, que estamos tentando implantar desde 2005 e que são necessárias para a melhoria do curso como um todo, afirmou.

"A saída dele deve acelerar o processo."

Dantas anunciou ontem que renunciava ao cargo de coordenador, cinco dias depois de dizer que os estudantes baianos tinham "déficit de inteligência" quando comparados com os de outros lugares e que o sistema de cotas exerce "contaminação" entre os universitários. As declarações foram dadas por ele para justificar o mau rendimento dos alunos da Fameb no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), o que levou o curso de medicina a figurar na lista dos 17 sob supervisão do Ministério da Educação (MEC).

Em nota oficial, Dantas pediu desculpas pelas afirmações - que atribuiu tanto a "um estado emocionalmente comprometido e por uma profunda tristeza, uma irritação incomum e um assomo de destempero" como a pressões de jornalistas, que teriam feito perguntas "para criar polêmica". Desde a divulgação da nota, o coordenador do curso não foi mais encontrado.

Amanhã, o Conselho do Colegiado da faculdade reúne-se para analisar o pedido de afastamento de Dantas. Tavares Neto adiantou que a reunião deve confirmar o afastamento do coordenador da função, mas não do quadro de professores da instituição - o que deve ocorrer apenas em setembro, quando ele completa 70 anos.

Assembléia

O diretor da Fameb participou hoje de uma assembléia da faculdade, junto com outros professores e estudantes, no auditório do bairro do Canela, em Salvador. Em pauta, as declarações de Dantas e a baixa nota no Enade. No encontro, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFBA cobrou da reitoria uma sindicância interna em todas as faculdades da universidade. "Queremos encontrar todos os focos de racismo que existem na universidade", afirma o diretor do DCE Emanuel Freire. O pedido foi acatado na assembléia e será apresentado amanhã ao reitor Naomar de Almeida Filho.

A nota obtida pela Fameb no Enade também dominou os debates. "A situação é crítica", resumiu o diretor do Diretório Acadêmico de Medicida (Damed) Rafael dos Santos Gonçalves. De acordo com Gonçalves, "muitos estudantes" confirmaram ter boicotado o exame, entregando provas em branco ou não totalmente respondidas, mas o fato não deve ser usado para ocultar outras dificuldades da instituição de ensino superior. "Temos uma carência muito grande no que se refere à parte prática do curso", disse. "O Hospital Universitário não tem condições de absorver os alunos."

Tavares Neto concordou. Ele pleiteia a redução do número de vagas no vestibular da Fameb, enquanto as questões de infra-estrutura não forem sanadas. Hoje, a faculdade absorve 60 novos alunos por ano. Esta semana, a Câmara de Graduação da UFBA, composta por 15 professores e três alunos, representantes de todas as áreas da universidade, começa uma auditoria acadêmica na Fameb, a pedido de Almeida Filho. O principal foco da análise é a possível redução de vagas.

"A nota do Enade pode ser enganosa por causa do boicote que os próprios estudantes admitem, mas precisamos fazer nossa lição de casa para conseguirmos a qualidade de ensino que desejamos", declarou o diretor. O presidente da Banda Olodum, João Jorge Rodrigues, também participou da reunião como forma de protestar contra as declarações de Dantas - entre elas, o professor afirmou acreditar que o grupo não fazia música, mas "barulho, zoada".

Comunicado

Rodrigues informou que o comunicado distribuído pelo reitor não muda o pedido de processo contra Dantas, feito pelo grupo ao Ministério Público do Estado (MPE) da Bahia, por danos morais. "Na nota, ele retrata-se com relação ao preconceito racial, mas não se desculpa com o Olodum", julgou. "Esperamos uma punição exemplar a ele para que sirva de alerta a outros."

O pedido de desculpa feito pelo coordenador tampouco altera o procedimento administrativo instaurado pelo Ministério Público Federal (MPF) na quarta-feira para apurar se houve conteúdo discriminatório "racial ou de procedência" nas declarações dele. "Os trabalhos nesse sentido continuam, normalmente", esclareceu o procurador Vladimir Aras, da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão (PRDC), à frente do processo.

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