Embora tenha sido escrito a muitas mãos, o discurso de lançamento da pré-candidatura de Dilma Rousseff à Presidência revela várias facetas pessoais da ministra. Um dos exemplos é a menção à ditadura militar, em especial as referências a Carlos Alberto Soares de Freitas, Maria Auxiliadora Lara Barcelos e Iara Yavelberg, companheiros de Dilma na militância clandestina, mortos pelas forças de repressão.

    "Iara, que falta fazem guerrilheiras como você", disse Dilma, em referência à companheira do capitão Carlos Lamarca, também morto pela ditadura.

    A ministra se apoiou nos versos dos poetas Carlos Drummond Andrade, mineiro, e Mario Quintana, gaúcho, para falar do estado em que nasceu, Minas, e cresceu, Rio Grande do Sul.

    De Drummond ela citou os versos: "Teus ombros suportam o mundo/E ele não pesa mais do que a mão de uma criança, aproveitando para fazer novas referências pessoais, desta vez à lembrança do nascimento de sua filha.

    De Quintana, a ministra escolheu: Todos estes que aí estão/Atravancando o meu caminho,/Eles passarão. Eu passarinho.

    E emendou de lavra própria: "Eles passaram e nós hoje voamos livremente. Voamos porque nascemos para ser livres. Sem ódio, sem revanchismo e com serena convicção afirmo que nunca mais viveremos numa gaiola, numa jaula ou numa prisão".

    AE
    Ao lado de Lula, Dilma Rousseff é aclamada pré-candidata à Presidência

    Muitas mãos

    João Santana, Marco Aurélio Garcia, Luiz Dulci e Antonio Palocci estão entre os colaboradores de Dilma na elaboração do longo discurso apresentado na manhã de sábado aos 1.300 delegados do 4º Congresso Nacional do PT.

    Enquanto Dilma discursava, com apoio de teleprompters, Santana, Palocci, Garcia e o chefe-de-gabinete da Presidência, Gilberto Carvalho, acompanhavam por um dos telões - o objetivo é ver e corrigir a imagem da candidata.

    Santana vibrava a cada pequeno improviso ou frase bem colocada de Dilma. Já Garcia, às vezes, balbuciava palavra por palavra as falas de Dilma em sincronia com a candidata, denunciando os trechos escritos por ele próprio.

    Um dos momentos mais empolgantes do discurso foi quando Dilma disse preferir a mentira à censura.

    "Preferimos as vozes da oposição, ainda quando mentirosas, do que o silêncio das ditaduras". Na quinta-feira, Garcia havia dito exatamente a mesma frase em uma entrevista.

    Aprofundamento

    Segundo pessoas que participaram da elaboração do discurso, embora tenha contado com muitos colaboradores, Dilma coordenou todo o processo.

    Foi dela, por exemplo, a ideia de aprofundar cada um dos temas sociais citados, além de detalhar seus planos para as áreas de educação, ciência e tecnologia.

    "Ela fez questão de um discurso articulado, desenvolvendo raciocínios, em vez de apenas citar os temas genericamente", disse um colaborador.

    Coesão

    O discurso foi longo e, para alguns, enfadonho em alguns momentos. O motivo foi a decisão de Dilma de aproveitar a oportunidade para falar a vários públicos, em vez de se dirigir apenas à militância petista.

    Entre os alvos estavam os partidos aliados, em especial o PMDB, que compareceu em peso. "Participo de um governo de coalisão e quero formar um governo de coalisão", disse ela.

    Inchaço da máquina

    Outro alvo foram os críticos do aumento dos gastos públicos com funcionalismo e do inchaço da máquina pública.

    "Estamos contratando basicamente médicos, profissionais de saúde, educadores, diplomatas, policiais federais, pessoal para controle e fiscalização. E vamos contratar por meio de consurso. Vamos continuar reequipando o Estado", afirmou.

    PT e empresários

    Ao PT, especificamente, ela fez um longo balanço do governo e listou uma série de compromissos com o programa de governo do partido. Aos empresários ela garantiu o compromisso com a estabilidade econômica.

    Ataques à oposição

    Não faltaram farpas para a oposição. "Não praticamos nenhum casuísmo. Basta ver a reação firme e categórica do Presidente Lula ao frustrar as tentativas de mudar a Constituição para que pudesse disputar um terceiro mandato. Não mudamos ¿ como se fez no passado ¿ as regras do jogo no meio da partida", disse, em referência ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), que mudou a Constituição para aprovar a reeleição.

    "Não admitimos, portanto, que alguém um queira nos dar lições de liberdade. Menos ainda aqueles que não tiveram e não têm compromisso com ela", alfinetou Dilma, em direção aos setores da oposição que apoiaram a ditadura.

    Nervosismo

    Dilma disse que ficou emocionada e um pouco nervosa. A gente fica, mas é um nervoso bom. Sobre o discurso, comentou quando você escreve, tem partes que você já domina do discurso. Mas ela admitiu que não o fez sozinha. Não, eu também tive ajuda. 

    PMDB

    Dilma não conversou com a cúpula peemedebista que compareceu ao Congresso do PT sobre a aliança montada para as eleições neste sábado. Disse que as relações nesta manhã foram apenas de abraços.

    AFP
    A ministra da Casa Civil durante congresso
    A pré-candidata do PT à Presidência da República garantiu que não participou das negociações feitas entre as cúpulas dos dois partidos para que Michel Temer, Hélio Costa e outros aliados fossem ao lançamento de sua pré-candidatura.

    Para mim, não deu trabalho nenhum, disse.

    A ministra não perdeu a oportunidade de reafirmar o que disse em discurso: quer um governo de coalizão.

    Para ela, a presença dos peemedebistas foi boa. Não acho desejável para o Brasil que haja um governo de um só partido. É importante que tenhamos essa diversidade, que seja uma base coesa em cima de um programa e nós estamos caminhando para isso, defendeu.

    A tarefa agora será do presidente do PT, José Eduardo Dutra. Palavras da própria pré-candidata.

    Coroa

    Bem-humorada a pré-candidata do PT garantiu não ter se incomodado com um dos jingles escolhidos para sua candidatura. A música, em ritmo de marchinha de carnaval, diz: Depois do cara, a gente vota é na coroa. A gente quer é gente boa. Deixa o Lulinha sair, deixa a Dilminha entrar, porque assim o Brasil não vai parar.

    Ela comentou na saída do 4° Congresso do PT: Em um determinado ponto de vista é muito bom ser a coroa, viu?

    Esforço minimizado

    O trabalho de convencimento ¿ reuniões, conversas e até pedido formal do presidente Lula ¿ para que a cúpula do PMDB comparecesse à aclamação da candidatura de Dilma à Presidência da República durante o 4° Congresso do PT foi minimizado pelo presidente do partido, José Eduardo Dutra, ao final do evento.

    Nós só os convidamos e tivemos algumas conversas, porque eles tinham alguns receios. Não em relação às pessoas daqui, porque sabiam que seriam bem recebidos, mas em relação a questões internas do PMDB, disse.

    Para ele, a presença do PMDB foi importante para demonstrar a intenção dos dois partidos de fortalecer a aliança.

    Sem preferência

    Em resposta aos resultados do levantamento feito pelo iG com os presidentes de diretórios estaduais do PT ¿ que demonstrou empate nas preferências entre Temer e Meirelles ¿ Dutra afirmou que o PT não vai dar palpite na escolha que será feita pelo PMDB para a vaga de vice-presidente na chapa de Dilma.

    É claro que esse nome vai ter que ser apresentado à candidata, que precisa estar de acordo. Qualquer militante pode ter suas preferências pessoais, mas essa é uma tarefa do PMDB, defendeu.

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