Dilma defende legalização do aborto e distribuição de renda

BRASÍLIA (Reuters) - A chefe da Casa Civil, ministra Dilma Rousseff, defendeu a legalização do aborto e deu pistas de como poderá agir se suceder o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a partir de 2011. Tenho um imenso orgulho de fazer parte de um governo que mostrou que é possível crescer e distribuir renda ao mesmo tempo, afirmou a ministra em entrevista à revista feminina Marie Claire, que será publicada neste fim de semana.

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Desde que foi apontada por Lula como a sua preferida para disputar a eleição presidencial de 2010 pelo PT, a ministra tem se esforçado para se aproximar do eleitorado. Pesquisas de opinião, no entanto, mostram Dilma ainda muito atrás do principal pré-candidato da oposição, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB).

Sob crescentes ataques da oposição, Dilma ressaltou que, com o tempo, aprendeu a resistir às turbulências políticas. A ministra revelou que, além de ter o apoio do presidente e de colegas de ministérios, consegue se fortalecer quando tem a sensação de que as acusações são injustas.

"É preciso se lembrar de ter um distanciamento e entender que isso faz parte do jogo político", disse ela, responsável pela gestão do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). "Tem um lado disso que é espuma, que vai embora."

A ministra não se esquivou de temas polêmicos. "Abortar não é fácil para mulher alguma. Duvido que alguém se sinta confortável em fazer um aborto. Agora, isso não pode ser justificativa para que não haja a legalização", argumentou.

"O aborto é uma questão de saúde pública. Há uma quantidade enorme de mulheres brasileiras que morre porque tenta abortar em condições precárias."

Dilma também afirmou que acredita em Deus, outra questão sensível entre os eleitores brasileiros. "Fui batizada na Igreja Católica, mas não pratico. Mas, olha, balançou o avião, a gente faz uma rezinha", disse, sorrindo.

TORTURA

A ministra relembrou sua atuação no período do regime militar, que durou de 1964 a 1985.

"Foi nesse período que ganhei minha sensibilidade social, a noção de que era impossível o país viver com tanta miséria", comentou.

Ex-militante da luta armada contra a ditadura, Dilma contou detalhes dos duros momentos que passou quando foi presa pelos militares, na década de 1970.

"Tomei choques em várias partes do corpo, inclusive nos bicos dos seios. Tive até hemorragia. Depois de apanhar, era jogada nua em um banheiro, suja de urina e fezes", contou.

Para a chefe da Casa Civil, a esquerda cometeu erros de avaliação sobre a situação política e econômica da época.

"Achamos que a ditadura estava em crise, mas, na verdade, o milagre econômico estava apenas começando. A gente não percebeu o quanto eles ainda iam endurecer", reconheceu.

(Texto de Fernando Exman; Edição de Alexandre Caverni)

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