Diferença de idade, mundos diferentes

Diferença de idade, mundos diferentes Por Giuliana Reginatto Brad Pitt já passou pelo quarto de muita menina. Estampar pôster de revistinha teen, desses que vão parar em porta de armário e pé de espelho, costuma ser o destino de galãs famosos como ele.

Agência Estado |

Essa também é a sina dos heróis de novela, que povoam os sonhos de cada debutante à beira de um baile. "Adolescente é vulnerável, mais propenso às idealizações amorosas e às fantasias de príncipe encantado. Fica fascinado quando alguém que já tem certo poder mostra interesse por ele. Isso acontece muito entre alunas e professores", esclarece Ailton Amélio da Silva, doutor em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e especialista em relações amorosas.

Quando o príncipe deixa o reino da fantasia para passear de mãos dadas com a dona do sonho, a história vira assunto de gente grande, cercada por polêmicas - inclusive legais. Foi o que aconteceu durante o último mês, quando a cantora teen Mallu Magalhães, de 16 anos, assumiu publicamente o romance com um antigo ídolo: o músico Marcelo Camelo, de 30 anos, que ficou conhecido como vocalista da banda Los Hermanos. A menina se tornou um fenômeno de popularidade ao divulgar suas canções de estilo folk na internet.

Não é a primeira vez que uma musa teen arrebata um veterano coração de artista. Paula Lavigne, por exemplo, conheceu o ex-marido Caetano Veloso quando tinha apenas 13 anos. O relacionamento dos dois, marcado por uma distância cronológica de 27 anos, durou 19 anos. No circuito internacional o caso mais famoso foi protagonizado pelo roqueiro norte-americano Jerry Lee Lewis. Em 1958, a imprensa descobriu que ele havia se casado com uma prima: Myra Gale Brown, de 13 anos. Em represália ao comportamento do cantor os produtores ingleses cancelaram os shows que ele faria no país.

Longe dos holofotes, o violonista amador Vitor Souza, 22 anos, passa pelo mesmo dilema experimentado pelos famosos. Apaixonado por uma garota de 13 anos, se esforça para domar a vontade de viver um amor proibido. "A mãe dela acha que é pedofilia, disse para eu me afastar porque poderia me colocar na cadeia. Na visão dela, a filha estaria perdendo a juventude por alguém que só quer aquilo, sabe? Não é verdade. Não dependo de sexo, sou virgem. E só deixaria de ser com a pessoa que amo. Seria com ela, quando fosse maior de idade ou depois do casamento", diz.

Após um ano de namoro, o rapaz ainda tenta lidar com a separação forçada. "Toda a família dela ficou contra, pressionaram tanto que ela decidiu terminar. Eu me afastei no começo, mas é difícil ficar longe de quem a gente ama. Tive até de trocar de nome para podermos conversar pela internet sem que a mãe dela percebesse. Não nos vemos mais, mas não aceito que isso termine assim."

Para Souza, o amor é um sentimento forte o bastante para superar as diferenças entre faixas etárias. "Foi um pouco complicado, existe sim uma diferença nos costumes. Ela gosta de balada, por exemplo. Eu não curto muito, prefiro sair com uns amigos para cantar e tocar violão. Ela cantava comigo, eu tentava ensinar algumas coisas que sei. Por ela, eu até acabava saindo para dançar. Acredite, eu dançando não é uma coisa que se vê todo dia, mas quando estávamos a dois era como se o tempo tivesse parado, só existia nós dois", derrete-se.

Souza diz desconhecer a polêmica relação entre Mallu e Camelo, mas descreve a tal sensação de tempo paralisado diante da amada com a mesma sensibilidade que o cantor usa ao falar de sua musa. "Quando ela começa a cantar é nítida a sensação, pelo menos para mim, de que o universo em volta para. E ela para de ter qualquer idade, vira uma coisa universal, que aponta para o infinito", disse Camelo em entrevista recente a Rádio Eldorado, durante a divulgação de seu primeiro álbum solo, do qual a menina participa na faixa "Janta".

Mallu, que até o ano passado posava para fotos abraçada a bichinhos de pelúcia e se deliciava com composições quase infantis, como "Tchubaruba", também despreza limites cronológicos - embora se negue a comentar o assunto. Procurada pela reportagem, sua assessoria de imprensa informou que a garota "optou por não falar da vida pessoal".

Em novembro, porém, ela revelou à revista Gol que "estava loucamente apaixonada". No mês passado, ao ser flagrada pela mídia carioca com o namorado após um show no Morro da Urca, declarou que não via "problema nenhum com essa história de idade". E questionou, irônica: " Isso existe?"

Sob o ponto de vista da psicologia, diferenças cronológicas expressivas entre um jovem e seu par representam, sim, problemas. "O pai deve conversar com o filho e explicar que não haverá igualdade na relação. Deve mostrar que o poder de convencimento do adulto é maior e que um não irá se adaptar ao grupo do outro. Se não houver convencimento, resta proibir. A família não pode se furtar dessa responsabilidade", diz Silva.

Segundo ele, "é natural que a adolescente busque rapazes mais velhos porque, em geral, meninos da mesma idade não são interessantes aos olhos dela." Essa diferença, contudo, não deveria ultrapassar os três anos.

No livro "O Mapa do Amor", Silva explica que um dos 32 critérios que norteiam a escolha de um parceiro é a identificação. "Isso se traduz em valores, escolaridade e idades similares. O que pode existir de similar entre pessoas de 16 e 30 anos? É claro que existem exceções, mas estar tão fora dos padrões culturais pode indicar problemas psicológicos por parte do mais velho que se interessa pelo muito mais novo", analisa.

Silva explica que segundo a psicobiologia o interesse por uma mulher jovem está associado ao instinto de procriação. "Como a mulher passa pela menopausa chegará um momento em que não poderá oferecer descendentes. Isso explicaria o porquê de uma procura por sinais de juventude, o que é bem diferente de buscar sinais de infantilidade! O ápice da juventude feminina representa os 24 anos", enfatiza. "Além disso, pesquisas mostram que quanto mais atrasada uma cultura, maior é a diferença de idade entre os cônjuges. Na África, a diferença média chega a nove anos e na Europa é quase zero. Para o Brasil são estimados três anos."

Na opinião da médica Verônica Coates, coordenadora do Grupo de Adolescência do Departamento de Pediatria da Santa Casa de Misericórdia de SP, "adolescente deve namorar adolescente". Para ela, o interesse da menina por adultos reflete uma fragilidade na estrutura da família nuclear, formada por pai e mãe. "É possível que falte uma figura paterna forte. Independentemente do que leva ao romance, a família deve dialogar. Com o jovem, ou você tem bons argumentos para convencê-lo ou está perdido. Não se consegue proibir porque a faixa etária é desafiadora", diz.

Segundo ela, é natural que a jovem se encante pelos mais experientes. "O contrário é que preocupa: o interesse de adultos por adolescentes remete a problemas psicológicos", completa. Autor do livro "O Adolescente em Desenvolvimento" e professor da Faculdade de Psicologia da PUC-SP, Antonio Carlos Amador Pereira salienta que a diferença entre as experiências vividas por adulto e menina preocupa mais do que a distância etária. "Sete anos pode significar muito se a garota tem 15 e o rapaz tem 22. A demanda dele é outra, inclusive sexual. E a questão sexual é a primeira coisa que vem à cabeça dos pais quando a filha namora alguém mais velho. Isso é bobagem porque a menina vai iniciar a vida sexual quando achar melhor e poderá ser até mesmo com um rapaz tão jovem quanto ela", diz.

Para Pereira, a hipótese de que um namorado mais velho poderia apressar a vida sexual do jovem denota a inabilidade da família na abordagem da sexualidade. "Os pais preferem não ensinar como se evita uma gravidez e se previne DSTs porque orientar significa admitir a possibilidade de sexo no namoro. Às vezes, sabem que a filha tem vida sexual e fazem de conta que não sabem. Mais importante do que investigar a idade do namorado é investir na educação sexual para que a filha tenha responsabilidade em qualquer relação."

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG