Diário de uma paciente com gripe H1N1

Diário de uma paciente com gripe H1N1 Por Bárbara Souza São Paulo, 25 (AE) - A madrugada do dia 29 de maio parecia não ter fim. Sozinha em casa, a servidora pública federal A.

Agência Estado |

, de 24 anos, não conseguia dormir. Tremia sob os cobertores com uma febre que não passava dos 38 graus, mas que não baixava mesmo com antitérmicos. Recém-chegada dos Estados Unidos, não queria acreditar que a dor nos joelhos ia além da gripe comum.

"Fazia três dias que estava gripada, mas a única coisa diferente que eu sentia era dor nos joelhos. Achava que era por causa dos saltos ou do jet leg", diz A., que havia chegado de Chicago no dia 24.

Mas na capital paulista não fazia aquele frio todo que A. sentia. Na madrugada do dia 29, decidiu procurar um médico.

No Hospital Paulistano, na região central, falou da viagem ao exterior. Não precisou dizer muita coisa depois disso. Saiu de lá acompanhada por uma médica em um esquema de isolamento na ambulância direto para o Emílio Ribas, instituto de infectologia na Dr. Arnaldo.

A. teve problemas para informar os dados pedidos para preencher os papéis da internação - a máscara que precisou usar já no Paulistano a obrigava a gritar aos atendentes a sua vida pessoal, como nome, endereço e idade.

Ficou um tempo isolada na enfermaria, esperando pela liberação do quarto. Ainda era madrugada. Enquanto isso, os jornais da manhã desse dia 29 anunciariam que o Brasil havia encerrado as contas do dia anterior com mais três casos da gripe suína, a Influenza A. Chegavam a 14 os infectados no País. A. ainda não havia entrado nas estatísticas - e achava que não entraria, mas já estava contaminada havia quatro ou cinco dias. "Acho que contraí ainda no aeroporto de Chicago, porque não tive contato com ninguém doente enquanto estive lá", diz.

A internação foi preventiva, enquanto os médicos aguardavam o resultado do exame. Ela demorou a entender e aceitar o que o prontuário dizia. O diagnóstico parecia não estar correto. "Eu tinha certeza que ia dar negativo", diz a jovem. Quando leu "diagnóstico H1N1", chorou. "Pedi para refazerem. Deu aquela reação: ‘o exame está certo?’. Uma enfermeira disse que todo mundo reage assim."

No 8º andar do hospital, A. viu os pais através de um vidro. "Imagina o desespero. Mas eu estava bem, andando." Para atendê-la, os médicos paravam numa antessala para vestir roupas especiais. As horas passavam lentas, interrompidas por xícaras de chá ou café e Tamiflu, nome comercial do antiviral oseltamivir, duas vezes ao dia. "Fui muito bem atendida."

A. ficou internada até o domingo, 31. Era um quarto para duas pessoas, aparentemente isolado especialmente para ela, com camas de manivela, para ajuste manual de altura, que a faziam pensar que teve sorte em ser jovem e poder se movimentar com facilidade, com banheiro sem equipamentos para receber um idoso ou um paciente com dificuldade de locomoção, a tevê instalada no alto e sem controle remoto. "Eu estava bem, não fazia muito sentido ficar lá. Estava louca para acessar a internet, trabalhar", conta a jovem. Só saiu depois de assumir o compromisso de que se isolaria em casa até a quarta-feira, quando voltaria a trabalhar.

Nenhuma das pessoas com quem teve contato foi contagiada. Mas o retorno ao trabalho foi cercado por olhares inquisidores e amedrontados - toda a repartição já sabia. No elevador lotado foi recepcionada por um espantado "você já está bem?!", querendo dizer "você ainda pode transmitir a gripe às pessoas?". Silêncio. "Notei os olhares", diz.

Nos dias seguintes, para quebrar o gelo, era ela quem tomava a iniciativa de conversar. À reportagem disse que achava importante dar a entrevista, para ajudar a esclarecer e desmistificar a H1N1. Mas, apesar de todos os funcionários do departamento onde trabalha saberem da doença, já curada, A. pediu para não ter seu nome divulgado na reportagem. "Para evitar algum tipo de preconceito."

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