Desapego é a lição deixada pelo Lehman, diz analista que virou iogue

Desapego é a lição deixada pelo Lehman, diz analista que virou iogue Por Roger Marzochi São Paulo, 18 (AE) - A principal lição deixada para o mercado financeiro com a concordata do Lehman Brothers, o quarto maior banco dos Estados Únicos, é o desapego aos bens materiais. A avaliação parece simplista, mas veio de um de seus ex-analistas no Brasil e, agora, dono de escola e professor de ioga: o norte-americano Charles Barnett, 50 anos.

Agência Estado |

No Brasil desde 1997, quando veio integrar a equipe do ING Barings, o nova-iorquino lembra que o foco excessivo no sucesso profissional, no dinheiro e nos bens materiais gera frustração. "Muita gente lá (no banco) recebia salário em ações; outros dependiam também das ações em suas aposentadorias e, de um dia para outro, não valem mais nada. Você pode ser um excelente profissional, trabalhar muito e, de repente, tudo que você fez parece não valer mais. Uma das coisas que a ioga ensina é o desapego, e que há outras coisas na vida que são mais importantes."

Com a concordata do Lehman, a estimativa é que 20 mil pessoas fiquem desempregadas em todo o mundo. Barnett, que entrou no escritório de representação do banco no Brasil em 1998 e ocupava o cargo de diretor de análise, perdeu o emprego em 2002, quando a instituição reduziu seu escritório de representação a uma pessoa após os prejuízos com os atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. "O banco perdeu sua sede, que ficava próxima às Torres Gêmeas. O local foi interditado e o banco teve que encontrar outra sede e ficou apenas uma pessoa no Brasil naquela época. A falência do banco agora me assuntou, porque ele já havia sobrevivido a tanta crise e tinha um ambiente gostoso de trabalhar, com espírito de equipe", lembra.

Durante o tempo em que atuava no mercado financeiro, Barnett já praticava ioga para aliviar o stress do dia-a-dia. Com sua saída do banco, decidiu ficar um ano descansando para avaliar depois que caminho tomar. O período sabático acabou durando dois anos e meio, que foram aproveitados viajando e estudando. Primeiro, ficou oito meses em Mysore, no sul da Índia praticando ioga. Depois, em São Francisco, tornou-se professor de ioga com o mestre David Swenson, que ensina a modalidade ashtanga, uma variação da ioga tradicional que está virando febre nos Estados Unidos e no Brasil, e que tem entre seus adeptos os famosos Sting e Madona.

Apaixonado pelo Brasil, retornou ao país com um dos seus investimentos mais ousados: há dois anos montou a escola Yoga Flow (http://www.yogaflow.com.br) que, por enquanto, paga as contas. "Eu não quis voltar para o mercado financeiro. Eu lembrava da época do estresse e queria fazer algo que ajudasse as pessoas a lidar com essa vida em São Paulo." Mas é um investimento rentável? "Para ser sincero, teria sido muito melhor ter comprado ações da Petrobras. Mas há um retorno psicológico, de contribuir para o bem estar das pessoas da cidade. E espero que, seguindo experiências nos Estados Unidos, a ioga cresça e que seja um negócio bom e rentável", disse.

Sua escola hoje tem 300 alunos, e segundo ele, é grande para os padrões nacionais, mas média para o tamanho dos centros de ioga americanos. Investimentos? Agora só acompanha suas alocações em ações. "Gosto do mercado de ações ainda, mas eu o acompanho como amador, com meus próprios investimentos."

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