SÃO PAULO - Depois de quase três anos de obras, foi reaberta no sábado um dos raros remanescentes do estilo barroco na cidade de São Paulo, a Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte, no centro da cidade. Neste domingo, acontece a cerimônia de dedicação do templo, que permite que ele volte a assumir suas funções religiosas. As obras de restauração, iniciadas em outubro de 2006, consumiram R$ 6,5 milhões.


Localizada na esquina da Rua do Carmo com a Rua Tabatinguera, nas proximidades da Catedral da Sé, a igreja foi inaugurada há quase duzentos anos, em 1810. O nome Nossa Senhora da Boa Morte vem da devoção à "dormição" da Virgem Maria. Segundo a fé cristã, Maria subiu aos céus de corpo e alma ao céu. Em outras palavras, foi "assunta" - motivo pela qual Nossa Senhora da Boa Morte também é conhecida como Nossa Senhora da Assunção.

Augusto Gomes
Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte

Segundo explica o padre Juarez de Castro, assessor de comunicação da cúria metropolitana de São Paulo, o nome "Boa Morte" foi responsável por outra tradição antiga na igreja. "Era aqui que os condenados à morte costumavam rezar pela última vez, na época em que ainda havia enforcamentos na província de São Paulo", explica. O templo ficava no caminho para o Largo da Forca, localizado no bairro da Liberdade, e era nele que aconteciam as últimas preces e velório dos condenados.

Apesar de construída em 1810, a igreja só foi finalizada cerca de setenta anos depois. É um legítimo representante do chamado barroco paulista, estilo mais simples que o mineiro, por exemplo. "O barroco brasileiro já é tardio, se comparado ao europeu. O paulista é mais tardio ainda", conta o padre Juarez. As obras procuraram restaurar a igreja como ela era em 1910, quando aconteceu a última reforma que não alterou suas características originais.

É uma edificação simples, composta por três naves e dois pavimentos nas alas. A maior parte das paredes é de taipa de pilão, modo de construção que utiliza barro e madeira. Ao contrário do que é visto no barroco mineiro, há pouco luxo. "É um dos raríssimos exemplares da Vile de Piratininga", resume o arquiteto Olympio Augusto Ribeiro, responsável pelo projeto de restauração, referindo-se ao primeiro nome da cidade de São Paulo.

De acordo com ele, o fato da igreja ficar numa área pouco valorizada da cidade fez com que ela fosse preservada. "Ela ficou meio esquecida", reconhece. Isso impediu, por exemplo, que o templo fosse derrubado para a construção de um novo, como aconteceu com a Catedral da Sé. "Hoje, há apenas dois ou três templos da mesma época na cidade. Por exemplo, a igreja de São Francisco ( no Largo São Francisco ) e a igreja do Carmo ( quase ao lado da Boa Morte )", cita.

Antes das obras, o templo estava em péssimo estado. "Era uma situação triste", conta o padre Juarez de Castro, referindo-se às infiltrações no teto e paredes prestes a cair. Mas, durante a preparação do restauro, uma bela descoberta foi feita: réguas de madeira pintadas à mão, que antes cobriam o teto do altar, e que então estavam guardadas no coro da igreja.

Augusto Gomes
Forro da Igreja de Nossa Senhora da Boa Morte

"Essas réguas provavelmente foram retiradas do teto devido a uma infiltração de água", explica o arquiteto Olympio Augusto Ribeiro. Ele conta que, em algumas das tábuas, a pintura não existia mais, justamente por causa da infiltração. Mesmo assim, o restauro pode ser feito, e hoje a obra voltou a seu local original, sobre o altar. O autor da pintura, no entanto, não foi identificado.

O cardeal arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, resume a importância da igreja: "Ela faz parte da história da cidade desde quando ela era uma aldeia. É um patrimônio histórico e cultural da cidade que estava praticamente perdido, e foi restituído".

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.