Dependentes veem clínicas como única salvação

Dependente químicos de crack procuram centro de tratamento para conseguir deixar o vício e a degradação que essa droga provoca

Daniel Torres, enviado a Belo Horizonte* |

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Um dos centros do Credeq, na região metropolitana de Belo Horizonte

Dois ex-viciados em crack e que hoje trabalham na recuperação de dependentes químicos, Marcelo Derussi e Erik Montinho, vêem os centros de recuperação e reinserção à sociedade como as únicas soluções para que o consumidor severo de crack encontre a cura para a doença de dependência química.

“No crack ou é cadeia, ou cemitério ou um hospital psquiátrico”, diz Marcelo, que hoje trabalha como agente de prevenção às drogas.

Para o pastor Wellington Vieira, que comanda o Centro de Recuperação de Dependência Química (Credeq), em Belo Horizonte, a criação da instituição veio após a necessidade de internação de um parente. “O Credeq surgiu depois que a minha mulher não achava onde internar o pai que tinha problemas. Alguns amigos não tinham onde ser internados também e aí largamos uma empresa que tínhamos e fomos viver com os nossos filhos em uma comunidade junto com pessoas que poderíamos ajudar. Fomos aos poucos entendendo do que um dependente precisa, que precisa de uma terapia, de fazer algum trabalho e de uma ajuda profissional mesmo. Foi quando a gente juntou para tratar o corpo, a alma e o espírito”, diz o comandante de cinco clínicas e um ambulatório que ficam na região metropolitana de Belo Horizonte.

“Eu vim da Bahia para o Credeq através de uma pessoa que se recuperou e está sóbrio há 10 anos. E Minas Gerais é um dos Estados que mais se preocupam com a questão das drogas”, afirma Erik Montinho.

Outro centro de referência no tratamento com dependentes químicos em Minas Gerais é a organização de sociedade civil de interesse público (Oscip)Terra da Sobriedade. Ela foi idealizada por um grupo de amigos e familiares de dependentes químicos e liderados pelo trabalho desenvolvido pelos terapeutas ocupacionais Ronaldo Viana e Ana Luiza César Viana.

“Nossa instituição é uma associação de prevenção, recuperação e reinserção de dependentes químicos. E também uma associação de atuação política. Na frente de trabalho de prevenção nós temos campanhas, palestras, uma editora, pesquisas, cursos, e tudo mais ligado a informação. Na área de tratamento, temos uma comunidade terapêutica urbana, aberta, de condição voluntária, que não tem cerceamento de liberdade e que atende em hospedagem e permanência-dia”, explica a teraputa Ana Luiza.

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Centro da Terra da Sobriedade
“A Terra da Sobriedade é algo realmente diferente. Tem um lado muito importante de pesquisa, mas a carga de amor que existe lá é algo impressionante. Imagina o que é um homem e uma mulher abrirem a casa com cinco filhos e dois cachorros para hospedar um dependente de crack”, relata Marcelo Derussi, que chegou ao local em 2006.

Para a terapeuta que coordena o Terra da Sobriedade, nem sempre o dependente de droga vai até uma clínica de recuperação deixar o entorpecente, mas vai abrandar o sofrimento que a droga traz e para encontrar um local de acolhimento.

“O que os dependentes mais precisam quando eles nos procuram é a aceitação. A aceitação sem preconceito. O usuário de crack, ou de qualquer outro tipo de droga, quer acolhimento sem preconceito. Ele precisa ser ouvido, precisa falar e precisa de inserção. A pessoa que usa droga quer pertencer. Grande parte dos usuários dizem, quando entrevistados, que estão vindo para a instituição porque querem fazer parte do grupo. Quando eles chegam aqui, nem todos querem parar de usar a droga. Eles querem parar de sofrer com o uso da droga. E nós os acolhemos, mesmo que seja só isso que eles queiram”, diz Ana Luiza.

Para o pastor Wellington, as técnicas de tratamento devem sempre ser complementadas para seguir as mudanças de paradigmas que as drogas apresentam na sociedade. “Na época que a gente abriu o Credeq, quase que só tínhamos problemas com álcool e maconha. Hoje, quase todas as pessoas que estão lá são usuários de crack. Isso tem nos preocupado muito. A faixa etária está caindo cada vez mais. Hoje tem criança de 8 anos tentando sair das drogas. Mas temos buscado cada vez mais nos especializar. Antes eu achava que com a Bíblia e a enxada eu poderia resolver os problemas dos dependentes. Hoje eu vejo que não”.

* a reportagem do iG participa do seminário à convite da organização do “1º Simpósio Sul-Americano de Política sobre Drogas: Crack e Cenários Urbanos”, que acontece em Belo Horizonte.

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