Denúncias no Congresso podem ser didáticas para eleitor

SÃO PAULO - A sucessão de escândalos que atinge o Congresso Nacional intensifica a descrença na instituição. Apesar da proliferação de denúncias, a crise de confiança pode ser didática para o cidadão.

Reuters |

Para intelectuais e analistas ouvidos pela Reuters, o cidadão tanto pode tirar proveito e escolher com mais critério seus representantes quanto preferir chegar ao limite de um sistema centralizado e pretensamente moralizador.

O professor de Ética e Filosofia da Unicamp, Roberto Romano, acredita que o conceito de fé pública é o principal atingido pela prática negativa dos parlamentares. Ele explica que só com o uso da fé pública o cidadão aceita o arbítrio de um juiz, o dinheiro de um país, e até a demarcação da faixa de pedestres nas vias públicas.

"O índice da fé pública está diminuindo perigosamente. Nesses momentos, aparece o desejo do totalitarismo. O cidadão quer que alguém ponha ordem no país", acredita o professor.

"Todos os (movimentos) que têm desconfiança no Parlamento, sejam de direita ou de esquerda, querem um sistema centralizado", reforçou.

Ecoando outros analistas, Romano afirma que o cerne do comportamento negativo dos congressistas está na apropriação de instituições que pertencem à sociedade.

É este patrimonialismo que faz com que deputados façam uso da verba de passagens aéreas para levar parentes, amigos e namorados em viagens pelo Brasil e ao exterior.

Levantamento realizado pelo site Congresso em Foco mostra que em quase dois anos os deputados utilizaram a cota de passagens da Câmara para fazer 1.885 viagens internacionais, ou 89,8 viagens internacionais por mês. As verbas, no entanto, são destinadas a vôos entre Brasília e os Estados de origem.

O Senado aprovou regras que restringem a emissão de passagens aéreas, enquanto a Câmara anunciou medidas semelhantes que vai colocar em prática.

A reação do veterano senador Epitácio Cafeteira (PTB-MA) às novas regras é reveladora. Após saber das medidas, ele ironizou: "Daqui a pouco, estamos recebendo vale-transporte."

Declarações do deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM-BA), corregedor da Câmara, também estarreceram analistas. Para ele, que teria usado passagens da Câmara para viajar com a mulher a Paris, "está na hora de a Casa ter coragem de se defender... Acho que a imprensa quer fechar o Congresso."

Sem surpresa com os escândalos da vez, o cientista político da UnB, David Fleischer, pontua que a má fama do Congresso é antiga.

"A credibilidade do Congresso sempre andou muito baixa. Não é de hoje que existe uma crise de descrédito", afirmou. Para ele, "o Congresso está tentando limpar sua barra com as novas medidas".

Pesquisa realizada pelo instituto Datafolha em março indica que para 37 por cento dos brasileiros a atuação do Congresso tem sido ruim ou péssima.

O índice subiu seis pontos percentuais em relação ao levantamento de novembro, quando era de 31 por cento. Para 39 por cento, o trabalho dos parlamentares é regular e apenas 16 por cento consideram o desempenho do Congresso ótimo ou bom.

Apesar do resultado, o sociólogo Mauro Paulino, diretor-geral do Datafolha, se diz otimista em relação ao comportamento do eleitor frente à série de denúncias e não vê clima para regimes totalitários, ao contrário do comentário de Roberto Romano.

"Acompanhei a redemocratização. Hoje o país não elegeria um presidente que tivesse dúvidas de sua integridade. A cultura política melhorou com as Diretas, com o impeachment do (ex-presidente) Fernando Collor, a eleição a cada dois anos. Tudo isso é muito educativo, amplia a conscientização política", opinou.

Ainda assim, Paulino vê "um longo caminho pela frente" para os políticos e os eleitores.

(Com reportagem adicional de Natuza Nery)

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